{"id":744,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=744"},"modified":"2023-03-13T21:22:17","modified_gmt":"2023-03-14T00:22:17","slug":"a-politica-como-teatro-de-representacoes-de-interesses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=744","title":{"rendered":"A pol\u00edtica como teatro de representa\u00e7\u00f5es de interesses"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/marionetes.jpg\" title=\"A teatraliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica representativa faz do pol\u00edtico profissional um ator, e do eleitorado, um enredo para bonecos de marionetes - Foto:\" alt=\"A teatraliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica representativa faz do pol\u00edtico profissional um ator, e do eleitorado, um enredo para bonecos de marionetes - Foto:\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">A teatraliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica representativa faz do pol\u00edtico profissional um ator, e do eleitorado, um enredo para bonecos de marionetes<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:<\/small><\/figure>\n<p ><?xml:namespace prefix = st1 ns = \"schemas-houaiss\/mini\" \/>Vila Setembrina dos Farrapos, Continente de S\u00e3o Sep\u00e9, 3\u00aa, 11 de julho de 2006<\/p>\n<p >Terminada a Copa do Mundo, come\u00e7a a corrida eleitoral. O pa\u00eds vai <?xml:namespace prefix = st2 ns = \"schemas-houaiss\/acao\" \/><st2:hm>assistir<\/st2:hm> ao mesmo espet\u00e1culo, uma campanha cujo protagonista tamb\u00e9m se comporta como ator. N\u00e3o por acaso, o pol\u00edtico profissional, nascido da mescla da estrutura de representa\u00e7\u00e3o com a ger\u00eancia do Estado como ente p\u00fablico, torna-se cada vez mais um int\u00e9rprete. Sen\u00e3o da vontade, das inten\u00e7\u00f5es de express\u00e3o dos v\u00e1rios segmentos do eleitorado. Nossa democracia de quase 130 milh\u00f5es seria, portanto, uma das maiores casas de espet\u00e1culo do mundo.<\/p>\n<p ><?xml:namespace prefix = st1 ns = \"schemas-houaiss\/mini\" \/>Quando o Ocidente inventou a democracia como \u201cmando do povo\u201d, o demos (povo-cidad\u00e3o), tinha n\u00e3o <?xml:namespace prefix = st2 ns = \"schemas-houaiss\/acao\" \/>somente o direito, mas o <st2:hm>dever<\/st2:hm> de se <st2:hdm>manifestar<\/st2:hdm>. Todos os cidad\u00e3os com direitos assegurados somente assumiam sua cidadania plena ao se manifestarem na \u00c1gora grega. \u00d3bvio que esta democracia, em escala ampliada, tem de <st2:hm>assumir<\/st2:hm> formas de media\u00e7\u00e3o. Mas em ess\u00eancia, a obrigatoriedade de se <st2:hdm>manifestar<\/st2:hdm> difere, e muito, de dois aspectos centrais da democracia brasileira. A primeira \u00e9 a pasmaceira entre pleitos. O povo, convidado a se <st2:hdm>manifestar<\/st2:hdm>, tamb\u00e9m \u00e9 indicado a retirar-se de cena ap\u00f3s o t\u00e9rmino da elei\u00e7\u00e3o. E, durante a corrida, vive-se um outro aspecto, o de euforia.<\/p>\n<p >No ano de 2005 o Brasil assistiu estupefato aos maiores esc\u00e2ndalos recentes executados pela classe pol\u00edtica brasileira. Acontecesse o mesmo em outros pa\u00edses latino-americanos, e cairiam todos. Congresso, governo, minist\u00e9rio, se veria abalada a composi\u00e7\u00e3o de classes e, por vezes, em cheque o pr\u00f3prio sistema pol\u00edtico. Mas, dentro da perspectiva \u201cmelhorista\u201d, identificada por n\u00f3s no artigo da semana passada, moveram-se algumas pe\u00e7as, mas n\u00e3o se alterou a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as no Congresso. Dentro de 3 meses estaremos reelegendo o Congresso Nacional. Casa esta, que se renova em quase 50% a cada legislatura. Fica a pergunta: <\/p>\n<p >&#8211; \u201c Se os atores se renovam, porque o enredo do baixo clero sempre se repete?!\u201d<\/p>\n<p >Uma das causas \u00e9 o pr\u00f3prio teatro da campanha, onde aparecem atores carregando beb\u00eas de colo, tomando cerveja em copo de gel\u00e9ia, demonstrando profundo interesse por rach\u00f5es de v\u00e1rzea, assistindo atentamente um sem n\u00famero de festejos entre panelas de arroz e um pouco de carne picada. Enquanto a popula\u00e7\u00e3o perde sua capacidade de auto-representa\u00e7\u00e3o, ao ver-se mobilizada para <st2:hm>atuar<\/st2:hm> tanto como figurante como plat\u00e9ia destes espet\u00e1culos, a pol\u00edtica perde sua capacidade decis\u00f3ria.<\/p>\n<p >Explicando. Com o avan\u00e7o das restaura\u00e7\u00f5es neoliberais, e no caso latino-americano, ap\u00f3s a promulga\u00e7\u00e3o de medidas estruturais vinculadas ao que se convencionou <st2:hm>chamar<\/st2:hm> de Consenso de Washington, pouco a pouco a pol\u00edtica com P mai\u00fasculo vem sendo duplamente colonizada. No campo das representa\u00e7\u00f5es, a Pol\u00edtica se v\u00ea tragada pela \u201cpol\u00edtica\u201d, cujas raz\u00f5es de Estado sempre acabam perdendo para raz\u00f5es de governo. E, por sua vez, as raz\u00f5es de governo tamb\u00e9m perdem para raz\u00f5es de mandato. Na outra ponta da corda, a Pol\u00edtica vem sofrendo, como <st2:hm>saber<\/st2:hm> e s\u00edntese resolutiva de uma sociedade, a coloniza\u00e7\u00e3o da \u201ceconomia\u201d. Mas, sejamos honestos intelectualmente, esta \u201ceconomia\u201d tem muito pouco de Economia. \u00c9 um arranjo de jarg\u00f5es e siglas, que ganham carga simb\u00f3lica como suposto <st2:hm>saber<\/st2:hm> cient\u00edfico, e quando muito se trata de uma colet\u00e2nea de capacidades gerenciais.<\/p>\n<p >A miscel\u00e2nea gerencial, por sinal <?xml:namespace prefix = st3 ns = \"schemas-houaiss\/dicionario\" \/><st3:sinonimos>abundante<\/st3:sinonimos> nas livrarias de aeroportos brasileiros, disputando palmo a palmo os espa\u00e7os das estantes com livros de auto-ajuda, comp\u00f5e o arsenal de linguagem constrangedor das capacidades discursivas da Pol\u00edtica. Ou seja, traduzindo, o enquadramento econ\u00f4mico de \u201cresponsabilidade fiscal\u201d, assegurando o lucro dos bancos, mantendo a jogatina financeira, a sobre-taxa\u00e7\u00e3o para rolagem da d\u00edvida, os benef\u00edcios escancarados a grandes grupos econ\u00f4micos transnacionais e brasileiros, todas estas pr\u00e9-medidas, garantem que pouco ou nada ser\u00e1 feito para <st2:hdm>quebrar<\/st2:hdm> o pr\u00f3prio modelo \u201cmelhorista\u201d.<\/p>\n<p >Garantidos os recursos \u00e0s classes dominantes, oligarquias regionais, elites dirigentes controladoras dos capitais que operam no Brasil, repartidas as maiores fatias do botim impositivo, sobra para os eleitores a disputa pela representa\u00e7\u00e3o. Esta, por sinal, n\u00e3o \u00e9 do povo organizado em grupos de interesses, mas sim de atores individuais ou consorciados em legendas pouco ou nada program\u00e1ticas, e dotadas de m\u00e1quinas de campanha muito superiores aos mais importantes movimentos populares do pa\u00eds. Basta para isso, compararmos o or\u00e7amento de um forte sindicato nacional e de um gabinete de deputado federal. Para <st2:hm>piorar<\/st2:hm>, a carreira pol\u00edtica acena para a milit\u00e2ncia o caminho do corredor acarpetado e n\u00e3o mais o ch\u00e3o de f\u00e1brica ou das ruas de barro. Quando a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica alcan\u00e7a o povo, \u00e9 como moeda de troca.<\/p>\n<p >Vivemos um momento grave no que diz respeito \u00e0 capacidade de representa\u00e7\u00e3o da democracia brasileira. Os governos estaduais, condicionados pela \u201cguerra fiscal\u201d e na falta de capacidade de investimento do pr\u00f3prio Estado, recorrem cada vez mais \u00e0 Bras\u00edlia e ao caixa do Governo Central. Na busca destas sa\u00eddas, a primeira contra-medida dos poderes de fato, \u00e9 restringirem ainda mais a capacidade resolutiva da Pol\u00edtica. Ou seja, se garante o direito de voto, mas se condiciona sua capacidade de execu\u00e7\u00e3o. Isto, somado a falta de pol\u00edticas p\u00fablicas universais, eleva o hiato de representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p >Resumindo o problema, respondemos a quest\u00e3o com uma pergunta de fundo:<\/p>\n<p >&#8211; \u201cQuem representa os jovens que vivem nas periferias de S\u00e3o Paulo e sua Regi\u00e3o Metropolitana e tem como destino manifesto o desemprego, o sub-emprego, a assist\u00eancia em projetos passageiros ou o crime?\u201d<\/p>\n<p >Considerando que a situa\u00e7\u00e3o vivida em S\u00e3o Paulo difere, mas n\u00e3o muito, das mazelas vivenciadas em todos os aglomerados urbanos do Brasil, podemos <st2:hm>imaginar<\/st2:hm> o tamanho do abismo. N\u00e3o se trata de <st2:hm>fazer<\/st2:hm> terra arrasada do mecanismo democr\u00e1tico, muito pelo contr\u00e1rio. Boas e justas medidas podem <st2:hm>ser<\/st2:hm> tomadas a <st2:hm>partir<\/st2:hm> de estados e munic\u00edpios. Mas, h\u00e1 que se <st2:hm>considerar<\/st2:hm>, a salva\u00e7\u00e3o da democracia brasileira est\u00e1 na publiciza\u00e7\u00e3o dos recursos de Estado. E, que este mesmo Estado, pare de <st2:hdm>servir<\/st2:hdm> de caixa para os grandes capitais, ao mesmo tempo, que financia o estelionato eleitoral, bancando a <st3:sinonimos>auto-regula\u00e7\u00e3o<\/st3:sinonimos> das elites conformadoras de uma mentalidade de classe pol\u00edtica.<\/p>\n<p >Algumas medidas poderiam <st2:hdm>ter<\/st2:hdm> sido tomadas, tanto no \u00faltimo governo e legislatura, como com os mandat\u00e1rios anteriores. Visto que a ocupa\u00e7\u00e3o de postos-chave impede o avan\u00e7o da defesa dos interesses de classe e povo, outros caminhos devem <st2:hm>ser<\/st2:hm> tentados. A <st2:hm>partir<\/st2:hm> deste artigo, nos dedicaremos at\u00e9 o final da corrida eleitoral, a <st2:hm>debater<\/st2:hm> e <st2:hdm>demonstrar<\/st2:hdm> sa\u00eddas e alternativas para este lapso democr\u00e1tico. Isto, tanto no Rio Grande, outrora farto e rico e hoje uma economia estagnada, como no cen\u00e1rio nacional. Nas linhas tra\u00e7adas hoje, uma reflex\u00e3o nos pareceu o bastante.<\/p>\n<p >Como vamos <st2:hdm>iniciar<\/st2:hdm> um debate de f\u00f4lego, queremos aqui <st2:hm>marcar<\/st2:hm> uma assertiva, uma premissa <st3:sinonimos>conceitual<\/st3:sinonimos>. Ou seja, <st2:hm>fazer<\/st2:hm> o que a sinceridade intelectual nos obriga, <st2:hm>dizer<\/st2:hm> o ponto de partida de nossos argumentos. Para n\u00f3s, a Pol\u00edtica tem a capacidade da s\u00edntese, de resolu\u00e7\u00e3o, de execu\u00e7\u00e3o das vontades e interesses das maiorias. \u00c9 no n\u00edvel pol\u00edtico, e n\u00e3o em qualquer outro subterf\u00fagio da baboseira neoliberal, que pode <st2:hm>ser<\/st2:hm> salva ou destru\u00edda a id\u00e9ia e a exist\u00eancia da na\u00e7\u00e3o. Como afirmou Clausevitz, a guerra \u00e9 a pol\u00edtica por outros meios. E, em alto n\u00edvel decis\u00f3rio, n\u00e3o h\u00e1 distin\u00e7\u00e3o entre Pol\u00edtica e Economia. \u00c9 no n\u00edvel pol\u00edtico onde se materializa tanto o interesse material como a motiva\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p >As id\u00e9ias ganham materialidade como Pol\u00edtica de exerc\u00edcio de vontades e possibilidades. \u00c9 esta a capacidade soberana que o povo tem. E tamanho potencial, sempre ser\u00e1 mais forte do que o proselitismo clientelista de um ator profissional em cima de um palanque, ou de um tecnocrata defensor de interesses privados e com cargo de ministro de Estado. <\/p>\n<p >No exerc\u00edcio desta capacidade, o povo e a classe podem <st2:hm>redescobrir<\/st2:hm> sua pr\u00f3pria for\u00e7a. For\u00e7a esta, muito superior aos discursos pr\u00e9-moldados, por mais que sejamos treinados para n\u00e3o <st2:hdm>acreditar<\/st2:hdm> naquilo que nossos olhos est\u00e3o vendo.<\/p>\n<p >Artigo originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A teatraliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica representativa faz do pol\u00edtico profissional um ator, e do eleitorado, um enredo para bonecos de marionetes Foto: Vila Setembrina dos Farrapos, Continente de S\u00e3o Sep\u00e9, 3\u00aa, 11 de julho de 2006 Terminada a Copa do Mundo, come\u00e7a a corrida eleitoral. 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