{"id":749,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=749"},"modified":"2023-03-13T21:18:11","modified_gmt":"2023-03-14T00:18:11","slug":"a-politica-dos-discursos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=749","title":{"rendered":"A pol\u00edtica dos discursos"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/demagogo.jpg\" title=\"Fazendo autopromo\u00e7\u00e3o de si mesmo e n\u00e3o de suas id\u00e9ias execut\u00e1veis, o pol\u00edtico profissional d\u00e1 ares teatrais a uma nova forma de demagogia, sendo porta-voz dos cons\u00f3rcios de investidores opacos aplicando divisas em candidaturas surtidas.  - Foto:\" alt=\"Fazendo autopromo\u00e7\u00e3o de si mesmo e n\u00e3o de suas id\u00e9ias execut\u00e1veis, o pol\u00edtico profissional d\u00e1 ares teatrais a uma nova forma de demagogia, sendo porta-voz dos cons\u00f3rcios de investidores opacos aplicando divisas em candidaturas surtidas.  - Foto:\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Fazendo autopromo\u00e7\u00e3o de si mesmo e n\u00e3o de suas id\u00e9ias execut\u00e1veis, o pol\u00edtico profissional d\u00e1 ares teatrais a uma nova forma de demagogia, sendo porta-voz dos cons\u00f3rcios de investidores opacos aplicando divisas em candidaturas surtidas. <\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:<\/small><\/figure>\n<p >Vila Setembrina dos Farrapos, Continente do Rio Grande de S\u00e3o Sep\u00e9, 15 de agosto de 2006<\/p>\n<p >No momento da leitura deste artigo a campanha j\u00e1 ter\u00e1 entrado nas casas dos brasileiros, atrav\u00e9s do hor\u00e1rio pol\u00edtico obrigat\u00f3rio. Se por um lado a democracia aqui praticada anda mal das pernas, por outro somos obrigados a reconhecer que este mecanismo \u00e9 interessante. O hor\u00e1rio de propaganda em r\u00e1dio e TV, al\u00e9m do pr\u00f3prio teatro da representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, tamb\u00e9m descortina as contradi\u00e7\u00f5es de um espet\u00e1culo midi\u00e1tico sem lastro na realidade. Tal e qual na economia, grandes descompassos marcam a fossa entre o discurso emitido e a materialidade de suas realiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p >Torna-se simplista afirmarmos aqui que todo pol\u00edtico profissional \u00e9 mentiroso. Mas, \u00e9 fato, este \u00e9 o sentimento da maioria da popula\u00e7\u00e3o. Ceticismo na marca de uma mirada, observa\u00e7\u00e3o agu\u00e7ada fazendo pontaria da outra coxilha. Se assim n\u00e3o fosse, seria mais que desnecess\u00e1ria a permanente convocat\u00f3ria do eleitorado para votar. O esquema de argumenta\u00e7\u00e3o do TSE \u00e9 at\u00e9 interessante. Convoca aos eleitores a realizarem um contrato com empregados de confian\u00e7a, servidores do p\u00fablico indicados pelo voto. <\/p>\n<p >Como sensa\u00e7\u00e3o, serve. Mas, como mecanismo deixa a desejar. Isto porque qualquer servidor comum, se j\u00e1 for celetista, pode ser demitido. E, o contrato com as elites dirigentes do campo da pol\u00edtica n\u00e3o tem nenhuma cl\u00e1usula rescis\u00f3ria funcional. Caso percam seus postos, \u00e9 via julgamento da pr\u00f3pria categoria. Defendem a si mesmos e representam a quem afinal? Esta \u00e9 a pergunta; a quem esta gente termina por representar?<\/p>\n<p >O mecanismo eleitoral apresenta uma falha de estrutura. Isto porque, embora seja de representa\u00e7\u00e3o e outorga das vontades das maiorias, existe um lapso entre informa\u00e7\u00e3o e decis\u00e3o. Como \u00e9 sabido em qualquer empresa mediana, nenhum gerente tem condi\u00e7\u00f5es de decidir os rumos de uma padaria se n\u00e3o conhecer os processos de panifica\u00e7\u00e3o, os pre\u00e7os do trigo, as normas da sa\u00fade p\u00fabica, o piso salarial dos padeiros dentre outras especificidades de sua \u00e1rea. N\u00e3o precisa ser padeiro para ser propriet\u00e1rio de estabelecimento de panifica\u00e7\u00e3o, mas necessariamente tem de conhecer do ramo. Porque haveria de ser diferente na pol\u00edtica?<\/p>\n<p >A contradi\u00e7\u00e3o vivida pela democracia de massas est\u00e1 na forma de participa\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o. Considerando que a pol\u00edtica s\u00f3 se faz com a\u00e7\u00f5es de minoria dotadas de vontades pol\u00edticas e interesses estrat\u00e9gicos, resta para a massa votante, nestas regras, aceitar o papel de delegar poderes. Entra em cena o jogo discursivo, n\u00e3o necessariamente ruim, mas que a cada dia que passa vai sendo desmaterializado. Sem equivalente no mundo das realiza\u00e7\u00f5es, criamos algumas \u201cbolhas de ilus\u00e3o midi\u00e1tica\u201d. O enunciado do pol\u00edtico em campanha ganha tons m\u00e1gicos e m\u00edsticos. Ausente a informa\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica para o eleitor poder decidir com alguma base al\u00e9m da emotiva, perde o voto seu poder resolutivo.<\/p>\n<p >Vale novamente a compara\u00e7\u00e3o com a economia, bem ao gosto dos neoliberais. O discurso dos pol\u00edticos profissionais est\u00e1 para a sociedade tal como a especula\u00e7\u00e3o est\u00e1 para o mundo dos produtos e servi\u00e7os. Hoje temos uma base monet\u00e1ria circulando em esp\u00e9cie \u2013 dinheiro ou moeda \u2013 no m\u00ednimo cinco vezes menor daquela existente de forma digital. A economia est\u00e1 sem lastro, desmaterializada, perdida entre compromissos de bastidores e fundamentada por dem\u00eancias econom\u00e9tricas e monetaristas. <\/p>\n<p >No jogo eleitoral, acontece o mesmo. O sujeito sobre no palanque com duplo discurso. Um \u00e9 para a plat\u00e9ia, seu p\u00fablico consumidor como gostam os neo-institucionalistas. Mas, de fundo, seus compromissos s\u00e3o com outro p\u00fablico-alvo, seus investidores e aliados. O eleitorado vota na est\u00e9tica gerada como produto eleitoral. O eleito, amarra seus compromissos estrat\u00e9gicos com o cons\u00f3rcio estatal-privado que o indicou. Restando assim acordos t\u00e1ticos, portanto n\u00e3o essenciais, com o p\u00fablico expectador de sua fala. No universo deste eleitorado, de fato semi-distrital e corporativo, espalham-se interesses menores e negoci\u00e1veis. Estas s\u00e3o as assim chamadas prebendas. Ou seja, os velhos e hist\u00f3ricos favorecimentos individuais, a mi\u00fado e no varejo. O atacado deste mercado vai para o cons\u00f3rcio financiador-investidor. Qualquer semelhan\u00e7a com a empresa Planam, dirigida por Darci e Luiz Antonio Vedoin, e a M\u00e1fia das Sanguessugas n\u00e3o \u00e9 nenhuma coincid\u00eancia.<\/p>\n<p >Voltando \u00e0s absurdas compara\u00e7\u00f5es, novamente a economia monet\u00e1ria e financeira presta seus \u201cservi\u00e7os\u201d para compreender nossa efic\u00e1cia democr\u00e1tica. Fazendo uma compara\u00e7\u00e3o entre as for\u00e7as produtivas da sociedade e os interesses em jogo pela inst\u00e2ncia de s\u00edntese, a pol\u00edtica, a tropa da rea\u00e7\u00e3o de Montpelier bradou que a liberdade econ\u00f4mica est\u00e1 acima da liberdade pol\u00edtica. Assim, a partir desse pressuposto, come\u00e7ava a coloniza\u00e7\u00e3o de uma esfera sobre a outra. Buscou-se dotar a forma \u201crespons\u00e1vel\u201d de fazer pol\u00edtica com uma suposta racionalidade de interesses individuais. Cada indiv\u00edduo seria, para esses g\u00eanios da economia sem lastro, um representante de seus pr\u00f3prios interesses, e se associaria a outros somente para maximizar seus ganhos.<\/p>\n<p >Portanto, se formalizava em termos de teoria aquilo que o sert\u00e3o chama de cabresto e apadrinhamento. Mas, com ares de teoria da a\u00e7\u00e3o coletiva, isto redunda em lobbies sem fim e investimento de tempo e carga de informa\u00e7\u00e3o em interesses pol\u00edticos espec\u00edficos. Novamente, o Brasil reproduz sua forma de estrutura excludente, tanto no voto como nas pol\u00edticas p\u00fablicas. Ambos s\u00e3o, por defini\u00e7\u00e3o, universais. E, simultaneamente, o voto obrigat\u00f3rio n\u00e3o \u00e9 acompanhado do treinamento necess\u00e1rio para exerc\u00ea-lo. Ou seja, ningu\u00e9m \u00e9 treinado para decidir temas p\u00fablicos em seu cotidiano. Mas, \u00e9 convocado a decidir a cada dois anos, em dois planos distintos, levando para a urna apenas a reprodu\u00e7\u00e3o do abismo. Numa ponta, o cotidiano da sociedade de classes, noutra, a confian\u00e7a outorgada para os pol\u00edticos profissionais. N\u00e3o podia dar em outra coisa.<\/p>\n<p >A desmaterializa\u00e7\u00e3o dos discursos \u00e9 acompanhada da descren\u00e7a nesta forma de fazer pol\u00edtica. Seguindo neste caminho, o fosso entre o voto e a decis\u00e3o real vai aumentar exponencialmente. N\u00e3o seria exagerado afirmar ser este o buraco de oz\u00f4nio da democracia representativa brasileira.<\/p>\n<p >Mas, isto \u00e9 apenas um alarme, s\u00f3 isso. N\u00e3o queremos com este artigo jogar ainda mais porcaria no ventilador. Muito pelo contr\u00e1rio, esta inten\u00e7\u00e3o \u00e9 simplesmente colaborar com a reflex\u00e3o do eleitorado e reivindicar a capacidade de discurso com a necessidade de realiza\u00e7\u00e3o. Para que isso aconte\u00e7a, v\u00e1rios fatores s\u00e3o importantes. Um deles \u00e9 aumentar a carga de informa\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica para o eleitorado. Isso significa a explicita\u00e7\u00e3o dos mecanismos l\u00edcitos e il\u00edcitos, formais e informais, por dentro e por fora, legais ou reais, das pr\u00e1ticas pol\u00edticas concretas das elites dirigentes desse pa\u00eds. Somente o exerc\u00edcio da informa\u00e7\u00e3o e da an\u00e1lise sem nenhuma censura podem aumentar a capacidade cr\u00edtica da popula\u00e7\u00e3o. Portanto, em tese, um hor\u00e1rio eleitoral gratuito poderia ser muito positivo nesse sentido.<\/p>\n<p >Infelizmente, tudo o que foi defendido acima ser\u00e1 justo o oposto do que veremos a partir desta ter\u00e7a-feira.<\/p>\n<p >Artigo originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fazendo autopromo\u00e7\u00e3o de si mesmo e n\u00e3o de suas id\u00e9ias execut\u00e1veis, o pol\u00edtico profissional d\u00e1 ares teatrais a uma nova forma de demagogia, sendo porta-voz dos cons\u00f3rcios de investidores opacos aplicando divisas em candidaturas surtidas. 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