{"id":751,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=751"},"modified":"2023-03-13T21:18:18","modified_gmt":"2023-03-14T00:18:18","slug":"a-economia-real-nao-faz-parte-da-campanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=751","title":{"rendered":"A economia real n\u00e3o faz parte da campanha"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/cifrao2.jpg\" title=\"N\u00e3o por acaso, temas e campanhas como a Morat\u00f3ria da D\u00edvida Externa, sumiram da corrida eleitoral de 2006. J\u00e1 haviam desaparecido antes, nos programas de governo, na Carta ao Povo Brasileiro e noutras pe\u00e7as de marketing e cartas de inten\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.\n\n\n - Foto:\" alt=\"N\u00e3o por acaso, temas e campanhas como a Morat\u00f3ria da D\u00edvida Externa, sumiram da corrida eleitoral de 2006. J\u00e1 haviam desaparecido antes, nos programas de governo, na Carta ao Povo Brasileiro e noutras pe\u00e7as de marketing e cartas de inten\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.\n\n\n - Foto:\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">N\u00e3o por acaso, temas e campanhas como a Morat\u00f3ria da D\u00edvida Externa, sumiram da corrida eleitoral de 2006. J\u00e1 haviam desaparecido antes, nos programas de governo, na Carta ao Povo Brasileiro e noutras pe\u00e7as de marketing e cartas de inten\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:<\/small><\/figure>\n<p >Vila Setembrina dos Farrapos, Continente de S\u00e3o Sep\u00e9, 29 de agosto de 2006<\/p>\n<p >No artigo da semana passada, eu afirmei alguns conceitos que caracterizam a capacidade anal\u00edtica de um eleitorado, possivelmente, dotado de informa\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica. Tamb\u00e9m havia dito que traria neste texto uma proje\u00e7\u00e3o de poss\u00edvel emprego destes conceitos de an\u00e1lise. Mas, tal e qual a maioria dos pol\u00edticos profissionais por detr\u00e1s do palanque eletr\u00f4nico, n\u00e3o cumprirei minha promessa. Diante da oportunidade de aportar n\u00fameros e id\u00e9ias, que habilitam o entendimento, deixarei o exerc\u00edcio do emprego para a semana seguinte.<\/p>\n<p >Minha \u201cinspira\u00e7\u00e3o\u201d foi um breve passeio comparativo entre algumas p\u00e1ginas, que oferecem os \u00edndices nacionais. Contas, n\u00fameros, produtos, produtividade, enfim, todo o potencial da sub-aproveitada 11\u00aa economia do mundo. Apenas para incitar a curiosidade, convido os leitores a navegarem com calma e aten\u00e7\u00e3o pelos conte\u00fados ofertados nos s\u00edtios do Dieese, do Ipea, da CNI, da Teleco, do IBGE, do Banco Central, dentre outros. A primeira impress\u00e3o \u00e9 a sempre alegre evid\u00eancia de que temos um n\u00edvel de tecnocracia absurdamente capacitado. Segundo, a certeza de que este imensur\u00e1vel capital humano seria capaz de planificar qualquer coisa definida pelas vontades e possibilidades das maiorias deste pa\u00eds. Bem, a terceira \u00e9 a volta ao presente, do realismo de campanha e o qu\u00e3o distantes todos estamos do \u201cdespertar do gigante em ber\u00e7o espl\u00eandido\u201d.<\/p>\n<p >Diante de n\u00fameros que expressam o suor de 184.007.699 de brasileiros, indo al\u00e9m da econometria e dos indicadores financeiros, fica uma s\u00e9rie de perguntas. Mas, diante da conjuntura de corrida eleitoral, nos parece mais interessante questionar porque algumas perguntas quase nunca s\u00e3o feitas. Uma destas aus\u00eancias nos parece gritante. \u201cComo e porque um pa\u00eds que fechou 2005 com um PIB de R$ 1 trilh\u00e3o, 938 bilh\u00f5es e 598 milh\u00f5es de reais (ou, arredondando, US$ 796 bilh\u00f5es) e com uma renda per capita de R$ 10. 520,00 reais (ou US$ 4.321,00) condiciona a mais de dois ter\u00e7os dos brasileiros a viverem no sufoco?\u201d Mais grave \u00e9 saber que esta \u00e9 uma pergunta ausente do pleito e da maioria dos debates. Sim sabemos que o crescimento p\u00edfio foi de 2,3%, marcando uma \u201cgrande vit\u00f3ria\u201d sobre o Haiti. Mas, n\u00e3o \u00e9 este o problema de fundo.<\/p>\n<p >O total do crescimento n\u00e3o implica, necessariamente, na distribui\u00e7\u00e3o de renda e poder, simultaneamente. J\u00e1 passamos por experi\u00eancias onde se afirmava ser mais importante fazer o bolo crescer para depois dividi-lo. O bolo cresceu, por quarenta anos seguidos, uma m\u00e9dia de 7,6% ao ano. Isto, na escala da economia brasileira, proporcionalmente nos equipara a China. O milagre brasileiro manteve-se fiel \u00e0s ra\u00edzes do pensamento e a\u00e7\u00e3o da elite \u2013 seja a quatrocentona, a rec\u00e9m incorporada ou a associada\/enviada pelas potencias e suas transnacionais. Foram dados vivas ao grande bolo mas n\u00e3o aos milh\u00f5es que, literalmente, por duas gera\u00e7\u00f5es, puseram a m\u00e3o na massa e no fermento. <\/p>\n<p >Nossa economia est\u00e1 estagnada desde 1980, sendo que de quinze anos para c\u00e1, cresceu de forma vegetativa, acompanhando o ritmo do aumento populacional. Considerando que o bolo n\u00e3o vem aumentando, trocamos tecnologias e n\u00e3o incorporamos gente na sociedade contempor\u00e2nea. E, para piorar, as fatias s\u00e3o cada vez mais desiguais. O crescimento m\u00e9dio de 2,6% por uma d\u00e9cada e meia \u00e9 um sintoma de um projeto econ\u00f4mico estagnante e provedor de paralisia das for\u00e7as reais e vivas da sociedade brasileira. <\/p>\n<p >Lembremos, o complemento do n\u00famero \u00e9 sempre mais vital do que o pr\u00f3prio numeral friamente exposto na tela do computador. O aumento de riqueza tende a ser proporcional ao aumento da capacidade de exerc\u00edcio de poder e as proje\u00e7\u00f5es feitas a partir da parcela da sociedade, que assim vive. A proje\u00e7\u00e3o do ideol\u00f3gico materializa aspira\u00e7\u00f5es sociais e alimenta a vontade de pot\u00eancia. Um se retroalimenta do outro, sem determin\u00e2ncia a n\u00e3o ser circunstancial. No mundo real, nas sociedades concretas, ideologia, economia e pol\u00edtica andam juntas, uma esfera determinando e fundamentando a outra. O controle sobre uma tende a buscar o mesmo exerc\u00edcio de poder sobre as demais. Quase tudo deriva destas correla\u00e7\u00f5es de for\u00e7as. Ou seja, nenhum modelo existe de por si, e estrutura alguma est\u00e1 dada. N\u00e3o se pode \u201cnaturalizar\u201d constru\u00e7\u00e3o humana alguma. O mesmo vale para a concentra\u00e7\u00e3o de renda e o subdesenvolvimento.<\/p>\n<p >N\u00e3o somos subdesenvolvidos por destino manifesto das pot\u00eancias do Norte, nem por qualquer outra idiotice euroc\u00eantrica. Nosso subdesenvolvimento \u00e9 quantificado, vis\u00edvel, material. Na \u00faltima revista Caros Amigos, Jo\u00e3o Pedro St\u00e9dile, da Coordena\u00e7\u00e3o Nacional do MST, nos oferece alguns n\u00fameros desta op\u00e7\u00e3o. O economista e militante ga\u00facho afirma estes n\u00fameros como conseq\u00fc\u00eancia da aus\u00eancia de projeto de crescimento. A hip\u00f3tese \u00e9 v\u00e1lida, mas ainda segue presa a uma \u201cl\u00f3gica\u201d de condi\u00e7\u00f5es supostamente objetivas e subjetivas. Condi\u00e7\u00e3o objetiva n\u00e3o \u00e9, necessariamente, a forma de vida e o sofrimento causado pelo neoliberalismo. O problema est\u00e1 justo no modelo, tanto de an\u00e1lise como de crescimento, e n\u00e3o na falta deste. <\/p>\n<p >O Brasil n\u00e3o carece da falta de modelo econ\u00f4mico, mas sim modelo de crescimento. Nenhuma economia, que coloniza a sociedade e ancora nossas riquezas na ciranda financeira, vai proporcionar nem o aumento do bolo e tampouco a divis\u00e3o por igual de suas fatias. Como a hist\u00f3ria da humanidade se d\u00e1 por saltos e descontinuidades, a \u201cnormalidade\u201d atual s\u00f3 vai nos render algumas poucas varia\u00e7\u00f5es de uma mesma matriz. Como todo interesse estrat\u00e9gico \u00e9 condicionado pelos detentores das maiores parcelas de exerc\u00edcio do poder, este debate n\u00e3o est\u00e1 presente na disputa eleitoral. As condi\u00e7\u00f5es de oferta da classe pol\u00edtica brasileira carecem de escassez de matrizes, sendo que seus clones se renovam na m\u00e9dia de 50% por legislatura. <\/p>\n<p >Fa\u00e7o assim um convite para a busca incessante pela informa\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica. Qualquer leitor-eleitor curioso pode buscar identificar nos programas eleitorais, difundidos por r\u00e1dio e TV, os seguintes n\u00fameros abaixo. Alguns aparecer\u00e3o de relance, como um figurante contracenando num acaso proposital com um grande astro das telas. Outros, somente no pior dos pesadelos neoliberais surgiriam em uma \u201cest\u00e1vel\u201d disputa como a nossa de 1\u00ba de outubro.<\/p>\n<p >Vejamos. No primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso eram pagos aos bancos, em m\u00e9dia, 50 bilh\u00f5es de reais por ano. No segundo governo FHC, a m\u00e9dia subiu para 70 bilh\u00f5es. Lula assume em 1\u00ba de janeiro de 2003 e aumenta a m\u00e9dia para 100 bilh\u00f5es nos dois primeiros anos e alcan\u00e7a a 120 bilh\u00f5es no ano de 2005! Um dado comparativo elucida muito. O investimento em uma f\u00e1brica de semi-condutores, como a que est\u00e1 sendo implementada na Lomba do Pinheiro, regi\u00e3o da periferia de Porto Alegre, \u00e9 da ordem de 160 milh\u00f5es de reais. Isto, nas instala\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, sem contar os recursos humanos. Assim, \u00e9 poss\u00edvel identificar um dos porqu\u00eas de nosso atraso tecnol\u00f3gico. <\/p>\n<p >Nosso PIB por pouco n\u00e3o alcan\u00e7a a cifra de R$ 2 trilh\u00f5es de reais. O problema \u00e9 o endividamento. No in\u00edcio da era FHC a d\u00edvida interna era da ordem de 300 bilh\u00f5es. J\u00e1 no princ\u00edpio do mandato de Luiz In\u00e1cio bateu 600 bilh\u00f5es e hoje, ap\u00f3s quatro anos do governo de fato de Henrique Meirelles, chega o recorde absurdo de mais de R$ 1 trilh\u00e3o de reais. O pa\u00eds endividado, acima das metas de super\u00e1vit prim\u00e1rio, pagando antecipadas as parcelas da d\u00edvida externa, tamb\u00e9m \u00e9 o campe\u00e3o mundial da taxa de juros. N\u00e3o contente com isso, nossa carga tribut\u00e1ria atinge a 37,3% do PIB, segundo c\u00e1lculo da pr\u00f3pria Receita Federal. Considerando que nosso endividamento \u00e9 alt\u00edssimo, observando a situa\u00e7\u00e3o pecuni\u00e1ria da maioria do povo brasileiro, \u00e9 desnecess\u00e1ria qualquer pajelan\u00e7a econ\u00f4mico-financeira para saber os rumos de nossos impostos. Isto, sem falar dos \u00edndices de corrup\u00e7\u00e3o, ativa e passiva.<\/p>\n<p >Para concluir, vale a pena saber que enviamos para o exterior todos os meses, na forma de remessa de lucros, juros, servi\u00e7os, transfer\u00eancias filial-matriz (n\u00e3o taxadas) dentre outras modalidades, uma m\u00e9dia de R$ 5 bilh\u00f5es de reais. Proporcionalmente, somos um dos para\u00edsos globais das opera\u00e7\u00f5es transnacionais. N\u00e3o por acaso, a \u201cchoradeira\u201d destas empresas \u00e9 incessante, seguem o ritmo de suas reordena\u00e7\u00f5es produtivas, sempre acompanhadas de demiss\u00f5es sem fim. <\/p>\n<p >Os poucos n\u00fameros trazidos no artigo, retratam com fidelidade a incomensur\u00e1vel capacidade de sugar as energias produtivas do povo brasileiro. Ainda assim, apesar de tudo, fomos capazes de construir a 11\u00aa economia do mundo. Sem nenhum ufanismo, \u00e9 sabido e not\u00f3rio o potencial dos brasileiros. Temos a certeza profissional de que esta informa\u00e7\u00e3o \u00e9 presente nos relat\u00f3rios do Departamento de Estado. Mantendo o padr\u00e3o, em Washington as informa\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas a respeito do Brasil est\u00e3o sempre presentes.<\/p>\n<p >Justo o oposto da campanha eleitoral.<\/p>\n<p >Artigo originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o por acaso, temas e campanhas como a Morat\u00f3ria da D\u00edvida Externa, sumiram da corrida eleitoral de 2006. J\u00e1 haviam desaparecido antes, nos programas de governo, na Carta ao Povo Brasileiro e noutras pe\u00e7as de marketing e cartas de inten\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. 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