{"id":752,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=752"},"modified":"2023-03-13T21:18:18","modified_gmt":"2023-03-14T00:18:18","slug":"cantinflas-e-oscarito-no-palanque-eletronico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=752","title":{"rendered":"Cantinflas e Oscarito no palanque eletr\u00f4nico"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/mMorenocantinflas.gif\" title=\"Cantinflas, personagem criado e vivido por Mario Moreno Reyes era c\u00f4mico por sua pr\u00f3pria natureza. Esta era sua raz\u00e3o de ser, a de fazer com\u00e9dia, em tese, justo o oposto dos pol\u00edticos profissionais.\n\n - Foto:\" alt=\"Cantinflas, personagem criado e vivido por Mario Moreno Reyes era c\u00f4mico por sua pr\u00f3pria natureza. Esta era sua raz\u00e3o de ser, a de fazer com\u00e9dia, em tese, justo o oposto dos pol\u00edticos profissionais.\n\n - Foto:\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Cantinflas, personagem criado e vivido por Mario Moreno Reyes era c\u00f4mico por sua pr\u00f3pria natureza. Esta era sua raz\u00e3o de ser, a de fazer com\u00e9dia, em tese, justo o oposto dos pol\u00edticos profissionais.<\/p>\n<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:<\/small><\/figure>\n<p >3\u00aa, 5 de setembro de 2006, Vila Setembrina dos Farrapos, Continente de S\u00e3o Sep\u00e9<\/p>\n<p >A menos de 30 dias do primeiro turno, escutamos por todos os lados a mesma reclama\u00e7\u00e3o. A de estarmos acompanhando uma corrida eleitoral com recursos de marketing diminutos e ausentes de conte\u00fado. Ou seja, mesmo com cen\u00e1rio reduzido, a teatraliza\u00e7\u00e3o segue igual. <\/p>\n<p >Durante a ditadura militar, quanto mais se reprimia, mais fant\u00e1sticas eram as telenovelas da emissora l\u00edder. Na democracia minimalista brasileira, a f\u00e1bula perde de goleada para a realidade. Assim, o hor\u00e1rio eleitoral e a campanha midi\u00e1tica, recobram em mesmice e desmagnetizam a capacidade de exerc\u00edcio de mando do povo. Conforme \u00e9 de sabedoria do senso comum, n\u00e3o vale um tost\u00e3o furado os programas de governo apresentados para o Planalto e menos ainda para os governos estaduais. Apresentando plataformas e programas de faz de conta, as candidaturas apostam no pensamento m\u00e1gico e na empatia para arrecadar os votos. N\u00e3o funciona mais assim, nem aqui nem em rinc\u00e3o algum de nossa Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p >Na maioria das vezes, a classe pol\u00edtica nacional, muito zelosa de si, insiste em olhar para o Norte, mirando nos pa\u00edses de capitalismo desenvolvido como uma sorte de tipo-ideal. Olhassem ao sul do muro que separa o deserto de Sonora e a Baixa Calif\u00f3rnia da antiga terra de Aztl\u00e1n, dominada e revendida na guerra com otados Unidos em 1848, e poderiam enxergar melhor aquilo que por aqui ningu\u00e9m quer ver. Sim, estamos tratando da Rep\u00fablica Mexicana e da crise que encerrara a hegemonia do Partido Revolucion\u00e1rio Institucional (PRI), ap\u00f3s 70 anos de poder cont\u00ednuo. <\/p>\n<p >No auge desta crise, sobre os escombros das investiga\u00e7\u00f5es da Procuradoria Geral da Rep\u00fablica (PGR), dos agentes de servi\u00e7os do PRI e os enlaces com o Cartel do Golfo, chegou a um momento que nenhuma pessoa sem acesso \u00e0s informa\u00e7\u00f5es sigilosas poderia compreender o que realmente se passava entre os mandat\u00e1rios do pa\u00eds. Ra\u00fal Salinas de Gortari, irm\u00e3o mais velho do ent\u00e3o presidente Carlos Salinas de Gortari, foi preso acusado de ser o executor de seu ex-cunhado, Jos\u00e9 Francisco Ruiz Massieu, assassinado em maio de 1994. Passados pouco mais de dez anos, outro irm\u00e3o da tr\u00e1gica fam\u00edlia, este de nome Enrique, foi encontrado morto com um saco pl\u00e1stico asfixiando-o. Passados mais tr\u00eas meses, Ra\u00fal sai da cadeia e termina inocentado do crime contra Massieu.<\/p>\n<p >Infiltra\u00e7\u00f5es sem fim, cortinas de fuma\u00e7a e corrup\u00e7\u00e3o a descoberto. A sociedade mexicana, at\u00f4nita, compreendia n\u00e3o ter os instrumentos para poder analisar a pol\u00edtica de seu pa\u00eds com base no jogo real. Simultaneamente, o EZLN lan\u00e7a ofensiva contra o \u201cmau governo\u201d que assinava o Tratado de Livre Com\u00e9rcio (Nafta) e o novo governo estabelece as bases para o controle externo na Petr\u00f3leos Mexicanos (Pemex), transformando-a em \u201cparaestatal\u201d. Vale lembrar que os grupos de poder na interna do PRI quebraram seus acordos de procedimentos e literalmente, passaram a se matar. Massieu n\u00e3o foi o \u00fanico assassinato p\u00fablico, incluindo tamb\u00e9m a morte de Luis Donaldo Colosio. <\/p>\n<p >No meio da tormenta, com bombardeios midi\u00e1ticos por todos lados, mesmo os mais bem informados se viram perdidos. Exercendo humor refinado, o escritor e pr\u00eamio Nobel de literatura, Octavio Paz, ainda em 1994, de forma muito solene declarara: <\/p>\n<p >-\u201cEm meu pa\u00eds, a realidade superou completamente a fic\u00e7\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p >No M\u00e9xico, de trajet\u00f3rias e biografias t\u00e3o admir\u00e1veis de Ricardo Flores Mag\u00f3n, ningu\u00e9m meteu a m\u00e3o na cumbuca fecal e tudo ficou como estava. Garantida a transi\u00e7\u00e3o pac\u00edfica, com um \u00faltimo suspiro priista no governo de Ernesto Zedillo, houve c\u00e2mbio no modus operandi e no setor pol\u00edtico mandat\u00e1rio. Ainda assim, as rela\u00e7\u00f5es estruturais seguiram as mesmas. Hoje quem \u00e9 acusado de fraudar elei\u00e7\u00f5es \u00e9 o Partido de A\u00e7\u00e3o Nacional (PAN), garantindo a Felipe Calder\u00f3n como sucessor de Vicente Fox.<\/p>\n<p >No Brasil, de vidas tamb\u00e9m t\u00e3o admir\u00e1veis como a de Joaquim Teixeira Nunes, os esc\u00e2ndalos de 2005 revelaram a voca\u00e7\u00e3o da classe pol\u00edtica brasileira em igualar-se por baixo. O grande p\u00fablico, sem estar de posse das informa\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas e dos jogos de poder imbricados, terminou por assistir a tudo como uma grande telenovela. Mais atraente, complexa e repugnante. O giro da compara\u00e7\u00e3o com a realidade mexicana, onde os fantasmas de Massieu e Enrique Salinas de Gortari ainda pululam \u00e9 um intento de chamar a aten\u00e7\u00e3o para nossa pr\u00f3pria realidade e condi\u00e7\u00e3o de fazer pol\u00edtica.<\/p>\n<p >A trilogia de artigos, conclui agora algo que seria uma oferta de ferramentaria de an\u00e1lise pol\u00edtica. Sinceramente, muito gostaria de discutir a fundo as parcelas de poder real que s\u00e3o passiveis da decis\u00e3o da maioria e as correla\u00e7\u00f5es de for\u00e7a necess\u00e1rias para alcan\u00e7armos estas metas. Mas, reconhe\u00e7o, o senso de realismo me obrigou a girar o eixo do debate. Preferi apontar o exemplo mexicano para os leitores poderem ver como somos parecidos com os demais paises que co-habitam este peda\u00e7o de mundo invadido por Colombo, Cabral, Cortez e Pizarro.<\/p>\n<p >Se os candidatos se dignassem a falar serio e n\u00e3o de forma tragic\u00f4mica, apresentaria aqui um debate de f\u00f4lego. Uma vez que este tema n\u00e3o tem eco, me parece mais prudente ati\u00e7ar a mem\u00f3ria do eleitor, comparando o Brasil de 2005 com o M\u00e9xico de 1994. Fossem outras as condi\u00e7\u00f5es de organiza\u00e7\u00e3o do povo brasileiro, e a classe pol\u00edtica se veria amea\u00e7ada em sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de elite especializada. Como a ex-esquerda igualou-se a velha direita, ajudando a desorganizar a esquerda na sociedade, este jogo de 1\u00ba de outubro j\u00e1 tem vitorioso. <\/p>\n<p >Adoraria debater id\u00e9ias e propostas de regula\u00e7\u00e3o social das concess\u00f5es p\u00fablicas para usufruto da maioria dos brasileiros; de orienta\u00e7\u00e3o para o bem comum da pol\u00edtica econ\u00f4mica; de uma economia pol\u00edtica em escala, aumentando nosso grau de soberania e autodetermina\u00e7\u00e3o; da implanta\u00e7\u00e3o de uma rede de infra-estrutura micro-regionalizada e adaptada \u00e0s condi\u00e7\u00f5es dos biomas do pa\u00eds; e de urgentes pol\u00edticas p\u00fablicas de inclus\u00e3o e treinamento para nossos milh\u00f5es de jovens atingidos pelo sub-emprego estrutural.<\/p>\n<p >\u00c9 duro admitir, mas o atual modelo de Estado neoliberal n\u00e3o \u00e9 para isto. Os recursos dragados pelo botim impositivo escoam pelo ralo, alimentando os servi\u00e7os da d\u00edvida e aumentando o capital de quem j\u00e1 tem o bastante para, em tese e noutras, se autofinanciar. O debate de fundo \u00e9 de modelo e n\u00e3o de palanque. Portanto os atores que contam tem duas falas, uma p\u00fablica e outra oculta. Sendo assim, a fala de coxia \u00e9 a v\u00e1lida, o resto, bem o resto \u00e9 apenas o resto.<\/p>\n<p >J\u00e1 que tomei a ousadia de comparar as mazelas pol\u00edtico-criminais de Brasil e M\u00e9xico, faltou apenas um detalhe. A fala vazia dos candidatos est\u00e1 h\u00e1 anos luz de dist\u00e2ncia das esquetes de c\u00f4micos profissionais e de talento. O palanque como est\u00e1 se aproxima de um falso picadeiro. <\/p>\n<p >Sendo assim, era prefer\u00edvel ver atores realmente populares, tais como Cantinflas e Oscarito.<\/p>\n<p >Artigo originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cantinflas, personagem criado e vivido por Mario Moreno Reyes era c\u00f4mico por sua pr\u00f3pria natureza. Esta era sua raz\u00e3o de ser, a de fazer com\u00e9dia, em tese, justo o oposto dos pol\u00edticos profissionais. 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