{"id":754,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=754"},"modified":"2023-03-13T21:18:18","modified_gmt":"2023-03-14T00:18:18","slug":"a-outra-identidade-da-historia-politica-farrapa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=754","title":{"rendered":"A outra identidade da hist\u00f3ria pol\u00edtica Farrapa"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/bentogoncalves.bmp\" title=\"Assim como Simon Bol\u00edvar, Bento Gon\u00e7alves da Silva morreu isolado, enfermo e desgostoso com os rumos da epop\u00e9ia que ele comandara, mesmo que por muitos momentos, duvidando de sua pr\u00f3pria capacidade de vit\u00f3ria.    - Foto:\" alt=\"Assim como Simon Bol\u00edvar, Bento Gon\u00e7alves da Silva morreu isolado, enfermo e desgostoso com os rumos da epop\u00e9ia que ele comandara, mesmo que por muitos momentos, duvidando de sua pr\u00f3pria capacidade de vit\u00f3ria.    - Foto:\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Assim como Simon Bol\u00edvar, Bento Gon\u00e7alves da Silva morreu isolado, enfermo e desgostoso com os rumos da epop\u00e9ia que ele comandara, mesmo que por muitos momentos, duvidando de sua pr\u00f3pria capacidade de vit\u00f3ria.   <\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:<\/small><\/figure>\n<p >19 de setembro de 2006, Vila Setembrina dos Farrapos, Continente de S\u00e3o Sep\u00e9 <\/p>\n<p >Enquanto a disputa pelo poder central arrasta a rep\u00fablica para pr\u00e1ticas cada vez menos limpas, no rinc\u00e3o mais ao sul do pa\u00eds, a Semana Farroupilha demarca a disputa pela identidade pol\u00edtica da regi\u00e3o. Da direita agr\u00e1ria sugadora dos recursos do estado a extrema-esquerda que nem participa do processo eleitoral, a hegemonia ideol\u00f3gica \u00e9 motivo de peleia porteira adentro. Embora o restante do pa\u00eds n\u00e3o o perceba, se avizinha o 20 de setembro, data mais importante da hist\u00f3ria do Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p >Em meados de 1835 estala a guerra contra o Partido Conservador, caramuru, aliado do Rio de Janeiro. Cerca de um ano depois, o general da cavalaria farrapa Ant\u00f4nio de Souza Netto, comanda a tomada de Porto Alegre. Com a vit\u00f3ria contra as tropas do Imp\u00e9rio luso-brasileiro, Netto e seus oficiais proclamam a Rep\u00fablica Rio-Grandense. A historiografia discute se a rep\u00fablica foi um golpe de propaganda ou um caso pensado. Hoje, 171 anos depois, isto pouco ou nada importa. Sabemos que a hist\u00f3ria \u00e9 feita de saltos, rupturas e descontinuidades. O gesto pol\u00edtico do comandante das tropas farroupilhas deu vaz\u00e3o a um turbilh\u00e3o pol\u00edtico que at\u00e9 hoje pode mudar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as no estado mais ao sul do Brasil. <\/p>\n<p >N\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de aqui fazermos um debate hist\u00f3rico profundo, mas, algumas refer\u00eancias t\u00eam de ser citadas. A proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica libera sentimentos e alian\u00e7as diretamente relacionadas \u00e0 forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e \u00e9tnica dos territ\u00f3rios lindeiros ao Rio Grande. Esta parte da hist\u00f3ria, al\u00e9m de n\u00e3o ser reivindicada pelos altos conselheiros do Movimento Tradicionalista Ga\u00facho (MTG), tampouco ser\u00e1 visto na miniss\u00e9rie global \u201cA casa das sete mulheres\u201d. <\/p>\n<p >As fronteiras atuais do pa\u00eds com a ex-prov\u00edncia Cisplatina foram demarcadas somente em 1828. Os ex\u00e9rcitos do Norte, comandados pelo general uruguaio Juan Antonio Lavalleja, tinham como meta a reconquista das Miss\u00f5es Orientais, territ\u00f3rio onde hoje se encontram os 7 Povos das Miss\u00f5es Guaranis (do lado oriental do Rio Uruguai). Conseguindo pouco mais que um empate militar, a delega\u00e7\u00e3o da Banda Oriental assina com o Imp\u00e9rio do Brasil o tratado de demarca\u00e7\u00e3o definitiva. Lembrando, isto aconteceu apenas sete anos antes da deflagra\u00e7\u00e3o do conflito na Prov\u00edncia de S\u00e3o Pedro. <\/p>\n<p >Um outro fato do lado de l\u00e1 da fronteira foi fundamental para os rumos da Guerra e da Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha. Ap\u00f3s a trai\u00e7\u00e3o do caudilho Fructuoso Rivera, o cacicado dos povos Charruas e Minuanos aposta todas as suas chances hist\u00f3ricas na Rep\u00fablica Rio-Grandense. Estas duas na\u00e7\u00f5es, constitutivas da pampa e do tipo humano do ga\u00facho original, tiveram participa\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica no projeto pol\u00edtico mais ambicioso da regi\u00e3o em toda a sua hist\u00f3ria. Antes, haviam sido duplamente tra\u00eddas. Primeiro durante a chamada Gesta Artiguista, ou segundo o seu nome mais pol\u00edtico, na Liga Federal dos Povos Livres. <\/p>\n<p >O pr\u00f3prio ex-capit\u00e3o dos Blandengues, Jos\u00e9 Gervasio Artigas fora tra\u00eddo pelo patriciado de Montevid\u00e9u, cuja alian\u00e7a com os comerciantes centralistas do porto de Buenos Aires, provocara seu banimento e ex\u00edlio para o Paraguai. O grosso de sua cavalaria era composto pelos ginetes charruas, ex\u00edmios lanceiros dotados de um senso de organiza\u00e7\u00e3o composto por conselheiros e chefes militares eleitos. A segunda trai\u00e7\u00e3o foi realizada pelo Brigadeiro Rivera, homem leal aos interesses imperiais portugueses na pampa. Este chefe pol\u00edtico e militar, no Uruguai rec\u00e9m independente, convocou os caciques para uma tr\u00e9gua. No local marcado, suas tropas preparam uma emboscada, dando vaz\u00e3o a um dos maiores genoc\u00eddios da hist\u00f3ria da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p >Os sobreviventes do massacre de Rivera cruzaram a fronteira ainda viva, rumando ao norte. Poucos anos depois, se somam na tropa republicana. A composi\u00e7\u00e3o \u00e9tnica do ex\u00e9rcito farroupilha reflete os anseios dos mais oprimidos. Quando da guerra, de cada tr\u00eas pe\u00f5es-soldadoss farrapos, um era negro ou ind\u00edgena. A identidade da P\u00e1tria Grande n\u00e3o p\u00e1ra a\u00ed O pr\u00f3prio idioma falado, era muito mais parecido ao portunhol, ou dialeto bajano, ainda existente nos mais de mil quil\u00f4metros da fronteira com o Uruguai. O portugu\u00eas era a l\u00edngua franca dos negros e de somente parte da oficialidade-estancieira. Al\u00e9m do portunhol, os idiomas ind\u00edgenas (charrua, minuano, guarani e tape) eram correntes na tropa e nos acampamentos farrapos.<\/p>\n<p >A outra identidade olvidada \u00e9 a dos afro-descendentes, cuja express\u00e3o b\u00e9lica foi o esquadr\u00e3o de cavalaria dos lanceiros negros. Comandados pelo oficial republicano e abolicionista Joaquim Teixeira Nunes, o Gavi\u00e3o, a rendi\u00e7\u00e3o incondicional dos negros em armas foi exig\u00eancia de Os\u00f3rio e Lima e Silva para o acordo de paz. Outra vez tra\u00eddos pelos escravagistas mais preocupados com o pre\u00e7o do charque do que com as institui\u00e7\u00f5es republicanas, a derrota se consuma na \u201cbatalha\u201d dos Porongos. Nesta localidade, o corpo de Lanceiros Negros foi dizimado, sem armas, surpreendidos pelo abandono da posi\u00e7\u00e3o defensiva de David Canabarro. Este seguira a orienta\u00e7\u00e3o de \u201cdiplomatas\u201d ga\u00fachos como Vicente da Fontoura, o mesmo que assinara o \u201ctratado\u201d de Ponche Verde pelas costas, criando o fato consumado da \u201cderrota honrosa\u201d. <\/p>\n<p >Aprofundando-nos al\u00e9m dos epis\u00f3dios pontuais, vemos na hist\u00f3ria esquecida justamente a identidade pol\u00edtica que n\u00e3o se quer deixar circular. A presen\u00e7a de negros e ind\u00edgenas foi fundamental para o ambicioso projeto federalista comandado por Artigas, congregando as Prov\u00edncias Unidas do Prata sob a estrutura pol\u00edtica da Liga Federal dos Povos Livres. <\/p>\n<p >Avan\u00e7ad\u00edssimo para seu tempo, o programa era embasado em uma grande mobiliza\u00e7\u00e3o de massas, abolicionista e com reforma agr\u00e1ria incluindo as na\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e os afro-descendentes. A extens\u00e3o da Liga englobava as hoje prov\u00edncias argentinas de Corrientes, Entre R\u00edos, Paran\u00e1, Misiones, a totalidade do Uruguai, partes do Paraguai e mais de um ter\u00e7o do atual territ\u00f3rio ga\u00facho. A express\u00e3o nativa e africana n\u00e3o constitu\u00eda a bucha de canh\u00e3o das guerras, como foi o caso do ex\u00e9rcito brasileiro e antes das bandeiras de S\u00e3o Paulo. Mas sim o pr\u00f3prio Estado-Maior da Liga Federal, e particularmente dos conselheiros de Artigas.<\/p>\n<p >Recuperar o debate da presen\u00e7a ind\u00edgena e negra no seio do maior Movimento de cultura nativa e regional do Brasil, o MTG, \u00e9 essencial para o resgate da ala liberal-radical da Rep\u00fablica Rio-Grandense, de orienta\u00e7\u00e3o federalista e contra a escravid\u00e3o. De t\u00e3o pol\u00eamico e perigoso, o assunto \u00e9 simplesmente ignorado pela grande m\u00eddia local. Isto porque, refletindo a moldura institucional da oligarquia ga\u00facha, aliada aos grandes capitais (locais, nacionais e transnacionais), os quatro maiores grupos de m\u00eddia do Rio Grande do sul n\u00e3o podem permitir vazar um sentimento desta ordem no grosso da popula\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p >Em um mundo globalizado, disputar as ra\u00edzes da pr\u00f3pria hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 pouca coisa. Para um pa\u00eds como o Brasil, cujo controle da comunica\u00e7\u00e3o reflete o dom\u00ednio de enclave de alguns quarteir\u00f5es do Rio de Janeiro e de S\u00e3o Paulo, o assunto pode ser o pano de fundo para um novo pacto federativo. Ganhando subst\u00e2ncia, como a renegocia\u00e7\u00e3o ou morat\u00f3ria da d\u00edvida do Rio Grande, a mem\u00f3ria pode virar muni\u00e7\u00e3o para virar uma conjuntura morna e sem interesses estrat\u00e9gicos de fundo. <\/p>\n<p >No ano que cumprimos 250 anos do mart\u00edrio do cacique guarani Sep\u00e9 Tiaraju, uma leitura substancial da epop\u00e9ia Farroupilha \u00e9 necess\u00e1ria. Esta Revolu\u00e7\u00e3o ga\u00facha, mesmo com todas as suas contradi\u00e7\u00f5es e mazelas, teve cara, cor e cheiro dos povos constitutivos deste peda\u00e7o de mundo. Esta identidade, caso seja resgatada pelos seus pr\u00f3prios protagonistas, pode reescrever a hist\u00f3ria do Rio Grande nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p >Artigo originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assim como Simon Bol\u00edvar, Bento Gon\u00e7alves da Silva morreu isolado, enfermo e desgostoso com os rumos da epop\u00e9ia que ele comandara, mesmo que por muitos momentos, duvidando de sua pr\u00f3pria capacidade de vit\u00f3ria. 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