{"id":755,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=755"},"modified":"2023-03-13T21:19:03","modified_gmt":"2023-03-14T00:19:03","slug":"de-dossies-e-folhetins","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=755","title":{"rendered":"De dossi\u00eas e folhetins"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/lorenzetti_o_churrasqueiro.jpg\" title=\"Jorge Lorenzetti, um dos respons\u00e1veis pela opera\u00e7\u00e3o de compra do Dossi\u00ea Vedoin, agora \u00e9 ridicularizado por seus pares que o tinham como especialista. Caso a opera\u00e7\u00e3o tivesse resultado no 2o turno em S\u00e3o Paulo, este seria um dos homens fortes das sombras para os pr\u00f3ximos 4 anos. - Foto:\" alt=\"Jorge Lorenzetti, um dos respons\u00e1veis pela opera\u00e7\u00e3o de compra do Dossi\u00ea Vedoin, agora \u00e9 ridicularizado por seus pares que o tinham como especialista. Caso a opera\u00e7\u00e3o tivesse resultado no 2o turno em S\u00e3o Paulo, este seria um dos homens fortes das sombras para os pr\u00f3ximos 4 anos. - Foto:\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Jorge Lorenzetti, um dos respons\u00e1veis pela opera\u00e7\u00e3o de compra do Dossi\u00ea Vedoin, agora \u00e9 ridicularizado por seus pares que o tinham como especialista. Caso a opera\u00e7\u00e3o tivesse resultado no 2o turno em S\u00e3o Paulo, este seria um dos homens fortes das sombras para os pr\u00f3ximos 4 anos.<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:<\/small><\/figure>\n<p >26 de setembro de 2006, Vila Setembrina dos Farrapos, Continente de S\u00e3o Sep\u00e9<\/p>\n<p >Para um analista pol\u00edtico, uma das maiores dificuldades no momento vivido, \u00e9 dar carga de sentido conceitual para a cancha reta das elei\u00e7\u00f5es. Explico. Os pormenores da opera\u00e7\u00e3o de espionagem pol\u00edtica dos Vedoin, do ex-agente da PF Gedimar Passos, da compra de dossi\u00eas meio-falsos, tudo isso e muito mais j\u00e1 vem sendo detalhado. O problema \u00e9 a compreens\u00e3o daquilo que \u00e9 mecanismo de fundo e dos fatos epis\u00f3dicos. Conforme j\u00e1 afirmei outras vezes, trata-se de quest\u00e3o sist\u00eamica e n\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es isoladas.<\/p>\n<p >Esta n\u00e3o foi a primeira opera\u00e7\u00e3o de espionagem pol\u00edtica e nem ser\u00e1 a \u00faltima. Toda atividade pol\u00edtico-partid\u00e1ria tem um grau conspirativo, por direita e por esquerda. Durante a vig\u00eancia do AI-5, conspirava-se dentro e fora da caserna. A tigrada flertara com o ultra-nacionalismo e esbarrara em Golbery e sua linha de comunica\u00e7\u00e3o com o empresariado de S\u00e3o Paulo. Anos antes, quando havia um inimigo comum a ser combatido, os primeiros passos para a montagem do aparelho repressivo nacional resultam na forma clandestina da OBAN. O Brasil tem uma larga hist\u00f3ria de dossi\u00eas e biografias n\u00e3o-autorizadas. Como estilo de fazer pol\u00edtica, na transi\u00e7\u00e3o do regime o esc\u00e2ndalo se manteve firme e forte.<\/p>\n<p >Retornando a atualidade, \u00e9 preciso identificar o objetivo estrat\u00e9gico. Em um processo investigativo, trabalha-se com a afeta\u00e7\u00e3o controlada do ambiente. O trabalho sistem\u00e1tico de vigil\u00e2ncia e seguimento sobre o alvo investigado gera o produto, na forma de relat\u00f3rio, dossi\u00ea, arquivos de imagem e \u00e1udio. O conjunto dos produtos fornece a muni\u00e7\u00e3o para o embate. De acordo com a obra adquirida por meios ilegais, pode-se variar da extors\u00e3o \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica. N\u00e3o estou exagerando; uma t\u00e9cnica usual \u00e9 o suic\u00eddio induzido. Este pode ser f\u00edsico ou mesmo pol\u00edtico, como foi o caso do auto-imolado Roberto Jefferson.<\/p>\n<p >Ou seja, um dossi\u00ea \u00e9 um produto, mas n\u00e3o a meta. Monta-se um enredo a partir de informa\u00e7\u00f5es privilegiadas. Especificamente no caso da espionagem para a corrida eleitoral, o objetivo \u00e9 o ataque da imagem p\u00fablica de um candidato. A situa\u00e7\u00e3o ideal \u00e9 afetar o pr\u00f3prio pol\u00edtico profissional em sua conduta na fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Quanto mais dura \u00e9 a disputa, mais caneladas s\u00e3o distribu\u00eddas. Parte-se para o ataque da vida privada e \u00edntima. Todos t\u00eam algum segredo para guardar, seja por privacidade ou mesmo falso moralismo.<\/p>\n<p >Um dos casos cl\u00e1ssicos na disputa eleitoral brasileira foi o recurso de Lurian em 1989. Golpeando Lula no meio do f\u00edgado, o ex-metal\u00fargico teve sua vida \u00edntima revelada. Na arena p\u00fablica, a edi\u00e7\u00e3o do debate contra Collor terminou o ataque de armas combinadas. A expectativa de parte de seu eleitorado de ent\u00e3o era outra. Qualquer oper\u00e1rio, \u201csujeito homem\u201d, teria de tomar medida mais dr\u00e1stica quando sua honra \u00e9 atacada. Ao rev\u00e9s, Luiz In\u00e1cio estava fraco de esp\u00edrito, resolvendo posar de estadista no meio de uma v\u00e1rzea geral e irrestrita. Os marketeiros do candidato arrivista, na base do vale tudo, aplicaram Clausevitz \u00e0 moda tupiniquim. Melhor do que ganhar uma batalha ou mesmo uma guerra \u00e9 retirar do inimigo as ganas de lutar. Naquele momento, conseguiram.<\/p>\n<p >Passados dezessete anos, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 outra. O final da opereta bufa iniciada no escrit\u00f3rio de campanha para a reelei\u00e7\u00e3o do presidente Luiz In\u00e1cio, tornou imprevis\u00edvel uma partida j\u00e1 ganha. Impressiona a capacidade de lamban\u00e7a dos setores \u201coperacionais\u201d do PT. O governo p\u00f3s-moderno da UDN com o PSD, ou seja, do PFL com o PSDB, tendo Fernando Henrique como chefe de Estado, entrou e saiu de um sem n\u00famero de enrascadas. N\u00e3o digo que passaram por tudo sem nenhum aranh\u00e3o, mas de fato n\u00e3o tiveram nenhum flanco importante aberto. Inclusive, para refrescar a mem\u00f3ria t\u00e3o fraca nesses tempos de comunica\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea, tamb\u00e9m tiveram um caso de dossi\u00ea falso. <\/p>\n<p >Iniciado em fun\u00e7\u00e3o de uma disputa estadual, o produto fora oferecido ao PT por um grupo de cors\u00e1rios empresariais associados a Maluf. Hoje sabemos que aquela pe\u00e7a de fantasia tamb\u00e9m continha um fundo de verdade. Algo sutil, nada grosseiro se comparados com outras contas oriundas de opera\u00e7\u00f5es offshore. Mas, que ali tinha um fundo de verdade factual, isso tinha. Com os sanguessugas, provavelmente esteja ocorrendo o mesmo. Mas, o detalhe \u00e9 que a verdade em si, pouco ou nada importa. Ap\u00f3s quatro anos abafando casos, salvando a cabe\u00e7a de mensaleiros, paralisando investiga\u00e7\u00f5es importantes como a CPI do Banestado, qualquer leitor atento identificar\u00e1 na manobra dos homens de \u201cintelig\u00eancia e an\u00e1lise de risco e m\u00eddia\u201d, apenas uma jogada eleitoral.<\/p>\n<p >O problema deste tipo de atividade \u00e9 a implica\u00e7\u00e3o de risco e reciprocidade. Ou seja, em linguagem popular, tudo o que bate acaba voltando. E, em se tratando das elei\u00e7\u00f5es em um pa\u00eds com 75% de analfabetismo funcional, quanto mais complexa \u00e9 a trama, mais complicada \u00e9 sua absor\u00e7\u00e3o. Entre John Le Carr\u00e9 e Rubem Fonseca, a massa do eleitorado prefere Janete Clair. A percep\u00e7\u00e3o de uma campanha teatralizada \u00e9 um conjunto de informa\u00e7\u00f5es atiradas no vazio. Havendo um enredo complicado, este demora a ser absorvido. Mas, uma vez aberto o fio do novelo, seu desenrolar come\u00e7a a ser acompanhado com crescente curiosidade. <\/p>\n<p >Os eleitores, ou melhor, os eleitorados, em geral, demoram de uma semana a 10 dias para absorverem a carga de informa\u00e7\u00e3o negativa. Esta era a aposta dos assessores diretos do presidente na sua meta de levar Jos\u00e9 Serra para o segundo turno das elei\u00e7\u00f5es estaduais de S\u00e3o Paulo. Lembremos, com Mercadante eleito para viver no Pal\u00e1cio dos Bandeirantes, estava preparada a sucess\u00e3o. O ataque foi e voltara ainda mais forte. Arrebatando paix\u00f5es amortecidas, motivou at\u00e9 a poderosa Rede Globo a dar suas alfinetadas no aliado t\u00e1tico, hoje ainda titular do Planalto. <\/p>\n<p >As volumosas cargas de informa\u00e7\u00f5es confidenciais reveladas implicam um duplo sentido na hora do voto. Para quem vive a pol\u00edtica de dentro, mesmo com indigna\u00e7\u00e3o, percebe-se um grau de complexidade equivalente a um bom romance de espionagem. J\u00e1 para a maioria dos votantes, a estrutura narrativa \u00e9 de folhetim. Uma novela sem gra\u00e7a e sem her\u00f3is transforma-se na \u00faltima semana. Definitivamente, o jogo ainda est\u00e1 em aberto.<\/p>\n<p >Detr\u00e1s das cortinas de fuma\u00e7a, esquecida em um canto, est\u00e1 a pouco cultuada verdade factual. Como se trata de um enredo de anti-her\u00f3is, ambos os lados tem o rabo preso. Jos\u00e9 Serra estava implicado at\u00e9 o luzir da calv\u00edcie na Opera\u00e7\u00e3o Lunus, durante a pr\u00e9-campanha de 2002. Em 2005 e 2006, qualquer pessoa em s\u00e3 consci\u00eancia deduz que Lula sabia de tudo. Em artigos anteriores eu havia afirmado que esta elei\u00e7\u00e3o somente poderia ser alterada na base da baixaria. <\/p>\n<p >Para a infelicidade do pa\u00eds, reconhe\u00e7o o acerto da previs\u00e3o. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jorge Lorenzetti, um dos respons\u00e1veis pela opera\u00e7\u00e3o de compra do Dossi\u00ea Vedoin, agora \u00e9 ridicularizado por seus pares que o tinham como especialista. Caso a opera\u00e7\u00e3o tivesse resultado no 2o turno em S\u00e3o Paulo, este seria um dos homens fortes das sombras para os pr\u00f3ximos 4 anos. 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