{"id":760,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=760"},"modified":"2023-03-13T21:19:09","modified_gmt":"2023-03-14T00:19:09","slug":"duplo-discurso-e-reboquismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=760","title":{"rendered":"Duplo discurso e reboquismo"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/comicio_da_central_64.bmp\" title=\"Momento auge do reboquismo no Brasil, toda a estrutura de massas do PCB estava atrelada nas expectativas ao governo de Jango. Naquela conjuntura ao menos, havia algo em jogo para os interesses populares. O reboquismo popular terminara no v\u00f4o de Jo\u00e3o Goulart, saindo do Rio para Porto Alegre. - Foto:\" alt=\"Momento auge do reboquismo no Brasil, toda a estrutura de massas do PCB estava atrelada nas expectativas ao governo de Jango. Naquela conjuntura ao menos, havia algo em jogo para os interesses populares. O reboquismo popular terminara no v\u00f4o de Jo\u00e3o Goulart, saindo do Rio para Porto Alegre. - Foto:\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Momento auge do reboquismo no Brasil, toda a estrutura de massas do PCB estava atrelada nas expectativas ao governo de Jango. Naquela conjuntura ao menos, havia algo em jogo para os interesses populares. O reboquismo popular terminara no v\u00f4o de Jo\u00e3o Goulart, saindo do Rio para Porto Alegre.<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:<\/small><\/figure>\n<p >Vila Setembrina dos Farrapos, Continente de S\u00e3o Sep\u00e9, 17 de outubro de 2006<\/p>\n<p >Na semana posterior ao domingo de 1\u00ba de outubro, uma s\u00e9rie de alian\u00e7as e articula\u00e7\u00f5es come\u00e7aram a se concretizar. A rotina \u00e9 comum; os dois candidatos para presidente seguem em busca do esp\u00f3lio dos derrotados e, concomitantemente, costuram alian\u00e7as estaduais. Aproxima\u00e7\u00f5es e promessas s\u00e3o acompanhadas de negocia\u00e7\u00f5es por postos-chave e parcelas do or\u00e7amento da Uni\u00e3o. Justi\u00e7a seja feita, alian\u00e7a program\u00e1tica nem Lula nem Alckmin est\u00e3o fazendo. <\/p>\n<p >Ao contr\u00e1rio dos operadores pol\u00edticos profissionais, os investidores das campanhas e os grupos econ\u00f4micos que s\u00e3o seus sustent\u00e1culos, se portam discretamente. A elite dirigente nacional, concorrente aos postos do Estado, tem no comprometimento p\u00fablico sua moeda de troca com o eleitorado. A discri\u00e7\u00e3o implica assegurar as garantias necess\u00e1rias para acordos velados serem executados a contento. Depois da experi\u00eancia de Collor de Mello, os pol\u00edticos brasileiros sabem o alto pre\u00e7o a ser pago caso rompam estes acordos. <\/p>\n<p >Outro tipo de acordo costuma ocorrer, este de forma p\u00fablica, mas quase nunca chega a ser executado de forma r\u00e1pida. Na outra ponta do tecido social, em tese, estariam localizadas as entidades de classe que conformam o conjunto dos movimentos populares. No Brasil pratica-se pouco a independ\u00eancia de classe, conceito operacional que implica o n\u00e3o comprometimento das estruturas org\u00e2nicas dos movimentos com uma ou outra candidatura. O conceito contradit\u00f3rio da independ\u00eancia de classe chama-se atrelamento das bases sociais organizadas. J\u00e1 a hist\u00f3ria recente de nosso pa\u00eds cunhou outro termo para este fen\u00f4meno pol\u00edtico-social. \u00c9 o chamado reboquismo, de marcante passagem pela crise da rep\u00fablica entre a Campanha da Legalidade de 1961 e o golpe militar de 1\u00ba de abril 1964. <\/p>\n<p >Em outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, por vezes, movimentos diversos servem de for\u00e7a social que impulsiona algum projeto pol\u00edtico limitado pelo jogo eleitoral. Buscando a tipifica\u00e7\u00e3o desse fen\u00f4meno, este costuma ter quatro varia\u00e7\u00f5es. Na direita do reboquismo atuam os setores diretamente vinculados ao aparelho pol\u00edtico, sustent\u00e1culo da candidatura e do projeto de poder. Ao centro costumam se posicionar os setores de apoio cr\u00edtico ao candidato e ao processo como um todo. Mais \u00e0 esquerda, agrupa\u00e7\u00f5es sociais que n\u00e3o se posicionam a favor nem tampouco fazem campanha contra uma determinada candidatura. Na extrema-esquerda operam setores sociais com plena independ\u00eancia de classe e que n\u00e3o participam de nenhuma etapa da corrida eleitoral. O detalhe a ser lembrado \u00e9 o fato de que nos exemplos acima, se tratariam de candidaturas com interesse estrat\u00e9gico para a classe organizada. <\/p>\n<p >O exemplo mais gritante de contradi\u00e7\u00e3o dentro do mesmo tecido social, hoje come\u00e7a a ocorrer na Bol\u00edvia governada por Evo Morales. Tanto o partido do governo como o pr\u00f3prio chefe de Estado, assim como seu primeiro escal\u00e3o, tem sua origem em bases sociais organizadas. Ainda assim na primeira situa\u00e7\u00e3o em que se viu emparedado, por um setor dos trabalhadores, Evo n\u00e3o titubeou. <\/p>\n<p >Convocou uma outra parcela de movimento popular, diretamente vinculado \u00e0s conquistas proporcionadas pela vit\u00f3ria eleitoral, atirando povo contra povo sem nenhum ressentimento. Para a satisfa\u00e7\u00e3o da oligarquia cruce\u00f1a, do Departamento de Estado e das transnacionais da minera\u00e7\u00e3o, a ferida aberta custar\u00e1 a cicatrizar. Mesmo com a nacionaliza\u00e7\u00e3o dos hidrocarbonetos, a unidade popular est\u00e1 amea\u00e7ada pelos choques de lealdades entre governo e independ\u00eancia de classe.<\/p>\n<p >D\u00favidas conceituais permanecem a partir do exemplo boliviano. Qual interesse estrat\u00e9gico os movimentos est\u00e3o defendendo? \u00c9 poss\u00edvel ter uma defini\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica sem autonomia da decis\u00e3o pol\u00edtica? Para a primeira quest\u00e3o, a tend\u00eancia \u00e9 que o instinto de preserva\u00e7\u00e3o do mandato termine por suplantar os interesses de autodetermina\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e popular, bandeiras ancestrais dos povos da Bol\u00edvia. Na segunda quest\u00e3o, a resposta definitivamente \u00e9 n\u00e3o. Interesse estrat\u00e9gico implica necessariamente em inst\u00e2ncias de decis\u00e3o pol\u00edtica desatreladas da democracia delegativa representada nas candidaturas.<\/p>\n<p >Admitindo que o governo Morales, em termos de interesse nacional e popular, est\u00e1 h\u00e1 gal\u00e1xias de dist\u00e2ncia do mandato de Lula, acreditamos que exista alguma correla\u00e7\u00e3o. N\u00e3o nos referimos \u00e0s realiza\u00e7\u00f5es de governos, mas sim ao reboquismo dos movimentos populares de ambos os pa\u00edses. <\/p>\n<p >Voltando ao caso brasileiro, reconhecemos a aus\u00eancia de programas estrat\u00e9gicos que fundamentem, de forma l\u00f3gica e racional, o apoio dos setores de classe organizados a uma ou outra candidatura. Reiterando a afirma\u00e7\u00e3o, os setores mais l\u00facidos do movimento popular do Brasil admitem haverem m\u00ednimas margens de manobras do governo para mudar o constrangimento estrutural do Estado. Ou seja, em bom portugu\u00eas, pouco ou nada est\u00e1 <st1:PersonName w:st=\"on\" ProductID=\"em jogo. Assim\">em jogo. Assim<\/st1:PersonName> sendo, quais motivos levam ao reboquismo de movimentos como os afiliados da Via Campesina e seus aliados urbanos, como o MTD e o MNLM? <\/p>\n<p >Admitindo que entre as duas chapas a diferen\u00e7a existente \u00e9 apenas de matiz, \u00e9 preciso buscar vari\u00e1veis explicativas para o reboquismo. Algumas s\u00e3o vis\u00edveis, dentre outras, a pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o de atrelamento de classe; a guerra de posi\u00e7\u00f5es no interior da burocracia; a id\u00e9ia de sociedade civil substituindo ao movimento popular; a no\u00e7\u00e3o de complementaridade e n\u00e3o de antagonismo; o posicionamento excessivamente defensivo dos setores populares ainda organizados; e, sem d\u00favida, o tema da identifica\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p >A julgar por seu programa, o voto e o apoio a Luiz In\u00e1cio s\u00f3 se justifica em fun\u00e7\u00e3o de sua origem de classe e o tipo de identidade pol\u00edtica gerada a partir desta. O mapa eleitoral \u00e9 definidor neste sentido. Lula \u00e9 maioria nas classes C, D e E. Ou seja, a partir de crit\u00e9rios discut\u00edveis de IDH, representaria os que est\u00e3o abaixo da linha de pobreza, os pobres e a chamada baixa classe m\u00e9dia. A oscila\u00e7\u00e3o da mobilidade entre estes setores de classe gera uma profunda inseguran\u00e7a e id\u00e9ia de futuro imediato. O fato \u00e9 que estes brasileiros identificam-se com algu\u00e9m de trajet\u00f3ria parecida com as suas. <\/p>\n<p >Por padr\u00f5es s\u00f3cio-econ\u00f4micos, o d\u00edgito 13 na urna eletr\u00f4nica representaria uma rela\u00e7\u00e3o de interesse direto com pol\u00edticas m\u00ednimas de distribui\u00e7\u00e3o de renda. Isto, apesar da corrup\u00e7\u00e3o, t\u00e3o end\u00eamica quanto nos oito anos anteriores, al\u00e9m de uma condu\u00e7\u00e3o ortodoxamente neoliberal, na continuidade do mandato dos tucanos Malan-Meirelles. Esta \u00e9 uma vari\u00e1vel explicativa perfeitamente aceit\u00e1vel. De forma direta e objetiva, estes setores, desorganizados, pulverizados, identificam no atual governo uma singular melhora. Para quem est\u00e1 organizado, ao menos no dito campo de esquerda dos movimentos populares, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma rela\u00e7\u00e3o l\u00f3gica de apoio a um ou outro candidato. Ou seja, este voto \u00e9 de concep\u00e7\u00e3o reboquista, de v\u00ednculo e atrelamento de uma proposta de governo, com o aparelho de Estado e a condu\u00e7\u00e3o de lutas cada vez menos protagonizadas por quem deveria estar \u00e0 frente delas. <\/p>\n<p >Identidade e lealdade com a trajet\u00f3ria pol\u00edtica tamb\u00e9m est\u00e1 influindo na reta final da campanha. A Rede Globo, por mais beneficiada que tenha sido por polpudos empr\u00e9stimos do BNDES a fundo perdido, come\u00e7a a roer a corda. A Banca vacila apesar de seus lucros recordes nos \u00faltimos quatro anos. As transnacionais veladamente torcem por Geraldo, apoiando no que for poss\u00edvel, mas com o cuidado de n\u00e3o chegar a se comprometer. O pr\u00f3prio agroneg\u00f3cio, parcialmente satisfeito com a gest\u00e3o de seu ministro Roberto Rodrigues, n\u00e3o brande a bandeira da alian\u00e7a do PSD com a UDN p\u00f3s-moderna, mas ajuda no que pode. Capitaneando o v\u00f4o tucano, dando a cara, est\u00e1 o empresariado de S\u00e3o Paulo \u00e0 frente de 40% do PIB nacional, for\u00e7ando uma campanha ainda mais \u201cpaulistoc\u00eantrica\u201d <\/p>\n<p >De forma p\u00fablica ou velada, a trajet\u00f3ria pol\u00edtica vai definindo o voto dos setores organizados da sociedade. Voto este, divorciado do interesse estrat\u00e9gico e com choque de lealdade entre a classe e a governabilidade.<\/p>\n<p >Artigo originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Momento auge do reboquismo no Brasil, toda a estrutura de massas do PCB estava atrelada nas expectativas ao governo de Jango. Naquela conjuntura ao menos, havia algo em jogo para os interesses populares. O reboquismo popular terminara no v\u00f4o de Jo\u00e3o Goulart, saindo do Rio para Porto Alegre. 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