{"id":762,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=762"},"modified":"2023-03-13T21:19:09","modified_gmt":"2023-03-14T00:19:09","slug":"a-vitoria-de-yeda-e-o-choque-de-interesses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=762","title":{"rendered":"A vit\u00f3ria de Yeda e o choque de interesses"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/yedacrusius.jpg\" title=\"Professora de economia da Ufrgs, ex-participante da m\u00eddia local, Yeda Crusius inaugura uma nova fase da direita ga\u00facha. \u00c9 o discurso da t\u00e9cnica colonizando os \u00faltimos basti\u00f5es de pol\u00edtica tradicional. - Foto:\" alt=\"Professora de economia da Ufrgs, ex-participante da m\u00eddia local, Yeda Crusius inaugura uma nova fase da direita ga\u00facha. \u00c9 o discurso da t\u00e9cnica colonizando os \u00faltimos basti\u00f5es de pol\u00edtica tradicional. - Foto:\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Professora de economia da Ufrgs, ex-participante da m\u00eddia local, Yeda Crusius inaugura uma nova fase da direita ga\u00facha. \u00c9 o discurso da t\u00e9cnica colonizando os \u00faltimos basti\u00f5es de pol\u00edtica tradicional.<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:<\/small><\/figure>\n<p >2\u00aa, 30 de outubro de 2006; Vila Setembrina dos Farrapos, Continente de S\u00e3o Sep\u00e9<\/p>\n<p >A elei\u00e7\u00e3o do Rio Grande do Sul foi redefinida nos \u00faltimos dias. Partindo de uma vantagem absurda, a coliga\u00e7\u00e3o Rio Grande Afirmativo (PSDB-PFL-PPS) chega ao Piratini com 53,94% dos votos v\u00e1lidos. A coliga\u00e7\u00e3o da Frente Popular (PT- PC do B), fez 46,06%. N\u00e3o foi suficiente para derrotar a chapa declaradamente neoliberal, mas muito al\u00e9m das previs\u00f5es iniciais. <\/p>\n<p >Isto porque, segundo a maioria das pesquisas, a professora de economia da UFRGS, Yeda Crusius, arrancou para o 2\u00ba turno marcando mais de 30 pontos de diferen\u00e7a. Por apertados 8 pontos percentuais, o estado mais ao sul do pa\u00eds v\u00ea pela primeira vez em sua hist\u00f3ria a uma mulher chegar ao governo. A chapa apresenta outra inova\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a presen\u00e7a direta do Sistema Fiergs, com o ex-presidente da Federa\u00e7\u00e3o das Associa\u00e7\u00f5es Comerciais e de Servi\u00e7os do Rio Grande do Sul (Federasul), Paulo Afonso Feij\u00f3, pondo a cara na frente e quase complicando uma elei\u00e7\u00e3o apertada pela pr\u00f3pria natureza.<\/p>\n<p >As novidades n\u00e3o param por a\u00ed. Ao contr\u00e1rio do restante do pa\u00eds, as siglas do PSDB e do PFL sempre foram legendas menores no subsistema pol\u00edtico ga\u00facho. No Rio Grande do Sul prevalece a pol\u00edtica de dois campos de influ\u00eancia, e tamb\u00e9m a tradi\u00e7\u00e3o das legendas. Neste item, o PSDB substitui a um peda\u00e7o do PMDB e o PFL, respectivamente, a uma parte do PP do Rio Grande. \u00c9 certo que tanto o PSDB como PFL, j\u00e1 participaram de governos anteriores, mas nunca na cabe\u00e7a de chapa. <\/p>\n<p >Agora duas vontades se encontram, como o receitu\u00e1rio do m\u00e9dico e as propriedades da droga recomendada. Yeda \u00e9 uma professora de economia portadora da cren\u00e7a em mais uma moderniza\u00e7\u00e3o conservadora. Feij\u00f3 \u00e9 um ator individual embora oriundo direto da oligarquia ga\u00facha, org\u00e2nico de um agente pol\u00edtico agressivo como setor de classe. O empresariado local v\u00ea nele uma jovem esperan\u00e7a, homem de arroubos p\u00fablicos, declara\u00e7\u00f5es sinceras e diretas, bem ao estilo de Carlos Esperotto, presidente da entidade ruralista Federa\u00e7\u00e3o da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul).<\/p>\n<p >Ali\u00e1s, esta \u00e9 outra inova\u00e7\u00e3o na concorr\u00eancia ao Piratini. No que depender de seu vice-governador, e leia-se, dos agentes econ\u00f4mico-pol\u00edticos representados por este, n\u00e3o haver\u00e1 meias-palavras nem tampouco meia-medida. Margaret Thatcher quando assumiu declarou de forma enf\u00e1tica: \u201cN\u00e3o existe alternativa!\u201d Para acionar esta forma de fazer pol\u00edtica, as pr\u00e9-condi\u00e7\u00f5es ser\u00e3o buscadas incessantemente. <\/p>\n<p >Os problemas operacionais come\u00e7am justamente nestas buscas de pr\u00e9-condi\u00e7\u00f5es. Isto porque, a estrutura pol\u00edtica para a vit\u00f3ria veio muito pela migra\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica dos votos de Rigotto para Yeda. Observando os \u00edndices finais do 1\u00ba turno, Germano Rigotto vencera em 161 munic\u00edpios, Ol\u00edvio em 124, Yeda em 20, Turra em 10 e Grill em somente 1. Para o 2\u00ba turno, com o PP\/RS aliado incondicional da coliga\u00e7\u00e3o Rio Grande Afirmativo, Yeda vence em 360 e Ol\u00edvio em apenas 136. Ou seja, a transfer\u00eancia de votos do co-governo do PMDB foi direta para Yeda. Esta conta ser\u00e1 paga na negocia\u00e7\u00e3o de apoios pol\u00edticos, participa\u00e7\u00e3o em secretarias e na manuten\u00e7\u00e3o dos empreendimentos de envergadura com os quais o atual governo j\u00e1 se comprometera at\u00e9 a medula.<\/p>\n<p >A conta eleitoral do PMDB n\u00e3o termina a\u00ed. Rigotto foi atingido em cheio, por estimativas equivocadas e nas cr\u00edticas diretas feitas por Yeda a seu governo. O detalhe desta troca de farpas, e j\u00e1 ressaltada em artigos anteriores, \u00e9 que o vice-governador eleito em 2002 era tucano. A chapa do PSDB para o Piratini na elei\u00e7\u00e3o anterior, repetia tal como agora, a alian\u00e7a nacional para a corrida ao Planalto. O modus operandi se mant\u00eam, assim como a pol\u00edtica do co-governo. Neste quebra-cabe\u00e7a, entra na montagem o papel jogado pelo senador S\u00e9rgio Zambiasi e sua sigla, o PTB\/RS.<\/p>\n<p >Como evid\u00eancia deste trabalho, vemos as margens apertadas de vit\u00f3ria de Ol\u00edvio em col\u00e9gios eleitorais relevantes da Regi\u00e3o Metropolitana e do Vale dos Sinos. A Frente Popular ganhou <st1:PersonName w:st=\"on\" ProductID=\"em Porto Alegre\">em Porto Alegre<\/st1:PersonName>, Canoas, S\u00e3o Leopoldo, Viam\u00e3o, Alvorada, Esteio, Sapiranga. Mas, o candidato do PT n\u00e3o ultrapassou os 60% de votos em nenhum destes munic\u00edpios, a n\u00e3o ser em Sapucaia do Sul. O jogo parelho deve-se a m\u00e1quina do PTB posta \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de Yeda, e a aus\u00eancia de milit\u00e2ncia volunt\u00e1ria da esquerda eleitoral ga\u00facha. O aperto n\u00e3o p\u00e1ra a\u00ed, sendo que as vit\u00f3rias no porto de Rio Grande (Litoral Sul) e <st1:PersonName w:st=\"on\" ProductID=\"em Passo Fundo\">em Passo Fundo<\/st1:PersonName> (Planalto M\u00e9dio), n\u00e3o permitem margem para compensar derrotas crassas em algumas regi\u00f5es e munic\u00edpios-chave.<\/p>\n<p >J\u00e1 o PSDB conseguiu margens de mais de 60% em algumas cidades com grande col\u00e9gio eleitoral. Dentre elas, os tucanos ganham de lavada na Serra, vencendo em Caxias do Sul, Bento Gon\u00e7alves e Farroupilha. Al\u00e9m destas, abrem boa margem <st1:PersonName w:st=\"on\" ProductID=\"em Santa Maria\">em Santa Maria<\/st1:PersonName> (Centro do RS) e Gua\u00edba (Metropolitana). Ainda vencem de forma apertada em duas cidades metropolitanas que s\u00e3o redutos hist\u00f3ricos do PT, Gravata\u00ed e Cachoeirinha. H\u00e1 de se considerar tamb\u00e9m o fato de Yeda haver chegado \u00e0 frente no munic\u00edpio de Novo Hamburgo (Vale dos Sinos) e em Pelotas (Litoral Sul). Esta \u00faltima vit\u00f3ria deve-se ao PPS\/RS e sua presen\u00e7a com o prefeito licenciado Bernardo de Souza. <\/p>\n<p >A derrota de Ol\u00edvio Dutra e Jussara Cony vem ligada a uma s\u00e9rie de fatores. Dentre eles, destacamos tr\u00eas como estruturantes. O primeiro \u00e9 a derrota de Lula no RS, algo in\u00e9dito em termos de pol\u00edtica ga\u00facha. O Rio Grande tem uma tradi\u00e7\u00e3o de votar na esquerda em n\u00edvel nacional. Pode-se argumentar que esta tradi\u00e7\u00e3o se contrap\u00f5e com outra, que \u00e9 a de ser oposi\u00e7\u00e3o. Embora tenha sentido, contraponho esta faceta do comportamento pol\u00edtico ga\u00facho com a falta de identifica\u00e7\u00e3o do governo central com as bandeiras cl\u00e1ssicas defendidas por uma esquerda com tintas reformistas. Ao contr\u00e1rio, quando mais se avan\u00e7ava nos esc\u00e2ndalos, involucrando inclusive operadores pol\u00edticos do PT local, mais o eleitorado ga\u00facho se afastava de Lula.<\/p>\n<p >Um segundo fator de destaque para esta derrota foi \u00e0 aus\u00eancia de milit\u00e2ncia direta e volunt\u00e1ria nas ruas das grandes cidades. Para compreender o fen\u00f4meno, a Frente Popular contava com milit\u00e2ncia apoiada na participa\u00e7\u00e3o eleitoral n\u00e3o refletida em maior organicidade nem em atua\u00e7\u00e3o em entidades de base ou do movimento popular. Este perfil de ativismo pol\u00edtico espor\u00e1dico, sempre deu o f\u00f4lego nas vit\u00f3rias eleitorais anteriores. Mas, com os esc\u00e2ndalos de mensal\u00e3o e sanguessugas em cima, ficou pesado o fardo de carregar a bandeira da candidatura de Ol\u00edvio. Isto por mais que o ex-dirigente do Sindicato dos Banc\u00e1rios afirmasse ser a favor da puni\u00e7\u00e3o a seus correligion\u00e1rios e de ter a ficha relativamente limpa, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o da CPI da seguran\u00e7a p\u00fablica durante seu governo (1999-2002).<\/p>\n<p >A aus\u00eancia desta milit\u00e2ncia foi geradora tamb\u00e9m do terceiro fator. Este, iniciado com o fato pol\u00edtico gerado a partir da difus\u00e3o das primeiras pesquisas de inten\u00e7\u00e3o de voto para o segundo turno, somado ao des\u00e2nimo das bases petistas e o trabalho do PTB\/RS em munic\u00edpios redutos do PT na Regi\u00e3o Metropolitana e eis a consolida\u00e7\u00e3o da derrota. <\/p>\n<p >Consumada a elei\u00e7\u00e3o, Yeda Crusius agradeceu nominalmente ao PDT, PMDB, PTB e PP. Os dois primeiros n\u00e3o apoiaram oficialmente a coliga\u00e7\u00e3o Rio Grande Afirmativo, mas de fato apontaram parte da m\u00e1quina, das bases, al\u00e9m de importantes individualidades para a vit\u00f3ria da nova composi\u00e7\u00e3o da direita ga\u00facha. PSDB-PFL e PPS chegam do 1\u00ba turno junto a oito siglas nanicas e sem relev\u00e2ncia. Somando aos aliados de \u00faltima hora e os apoios t\u00e1ticos peemedebistas e pedetistas, e se avizinha outro co-governo. <\/p>\n<p >Resta saber se a ampla composi\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, eixo da pol\u00edtica ga\u00facha atual, ir\u00e1 disparar a energia pol\u00edtica necess\u00e1ria para realizar o choque de gest\u00e3o prometido por Yeda e Feij\u00f3. Do outro lado da cal\u00e7ada, o funcionalismo, os sindicatos e os movimentos populares, j\u00e1 atados com o Pacto pelo Rio Grande, o ajuste fiscal, o tarifa\u00e7o e a crise da d\u00edvida p\u00fablica, se vera\u00f5 ainda mais embretados entre o neoliberalismo declarado e o \u201capoio cr\u00edtico\u201d a um governo central distante e com suspeitas fortes de corrup\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p >A resposta para estes amplos e contradit\u00f3rios setores da sociedade ga\u00facha est\u00e1 na equa\u00e7\u00e3o entre, a apatia do discurso lavado e a necessidade de defesa dos interesses diretos. <\/p>\n<p >Artigo originalmente escrito no blog de Ricardo Noblat<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professora de economia da Ufrgs, ex-participante da m\u00eddia local, Yeda Crusius inaugura uma nova fase da direita ga\u00facha. \u00c9 o discurso da t\u00e9cnica colonizando os \u00faltimos basti\u00f5es de pol\u00edtica tradicional. 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