{"id":787,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=787"},"modified":"2023-03-13T21:17:04","modified_gmt":"2023-03-14T00:17:04","slug":"revendo-o-8-de-marco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=787","title":{"rendered":"Revendo o 8 de mar\u00e7o"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/mulheres_na_aracruz.jpg\" title=\"O ataque ao viveiro da Aracruz Celulose, localizado em Barra do Ribeiro\/RS, marcou uma nova modalidade de luta para as mulheres trabalhadoras.\n\n - Foto:\" alt=\"O ataque ao viveiro da Aracruz Celulose, localizado em Barra do Ribeiro\/RS, marcou uma nova modalidade de luta para as mulheres trabalhadoras.\n\n - Foto:\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">O ataque ao viveiro da Aracruz Celulose, localizado em Barra do Ribeiro\/RS, marcou uma nova modalidade de luta para as mulheres trabalhadoras.<\/p>\n<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:<\/small><\/figure>\n<p >3\u00aa,6 de mar\u00e7o de 2007, Vila Setembrina dos Farrapos, Continente de S\u00e3o Sep\u00e9<\/p>\n<p><span style=\"FONT-SIZE: 10pt; FONT-FAMILY: Arial; mso-fareast-font-family: Times New Roman; mso-ansi-language: PT-BR; mso-fareast-language: PT-BR; mso-bidi-language: AR-SA\">O Dia Internacional da Mulher se aproxima e vale uma discuss\u00e3o sobre qual o seu atual significado. Sem parecer professoral nem sect\u00e1rio, quero aproveitar a oportunidade para rever um ponto de vista por vezes esquecido. Pouco ou nada se fala do processo de lutas sociais que resultou nesta data. O 8 de mar\u00e7o foi uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, confluindo o movimento oper\u00e1rio pela luta sufragista. No caso das mulheres do ch\u00e3o de f\u00e1brica, sem nenhum exagero, a data \u00e9 de mart\u00edrio. <\/p>\n<p >A hist\u00f3ria da humanidade \u00e9 marcada por saltos e rupturas. Correspondendo ao n\u00edvel ideol\u00f3gico, datas carregam o peso simb\u00f3lico de galvanizar anseios de uma sociedade e civiliza\u00e7\u00e3o. Tal como o 1\u00ba de Maio, transformado em Dia do Trabalho pela ditadura do Estado Novo, a mesma altera\u00e7\u00e3o de significado \u00e9 sofrida no 8 de mar\u00e7o. Rever a historia da forma\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora industrial ajuda a compreender o processo social que culminou na trag\u00e9dia e futura vit\u00f3ria. <\/p>\n<p >Corria o ano de 1857 e a categoria das tecel\u00e3s, hoje conhecidas como oper\u00e1rias t\u00eaxteis, cumpria mais de 16 horas de jornada de trabalho di\u00e1rias. N\u00e3o apenas trabalhavam muito, como recebiam um ter\u00e7o da remunera\u00e7\u00e3o masculina. Al\u00e9m do sal\u00e1rio de mis\u00e9ria e a aus\u00eancia de direitos trabalhistas, sofriam humilha\u00e7\u00f5es e vexames, como revistas de corpo inteiro e espancamentos promovidos por capatazes e encarregados. O local, uma f\u00e1brica de tecidos no estado de Nova York, Costa Leste dos Estados Unidos da Am\u00e9rica. <\/p>\n<p >Fruto deste cotidiano, as tecel\u00e3s inauguraram a modalidade da primeira manifesta\u00e7\u00e3o exclusivamente promovida por mulheres. Sa\u00edram para a rua e receberam uma carga de cavalaria como resposta do Estado. Retornaram correndo para dentro da f\u00e1brica tomada e sob seu controle. A resposta da ocupa\u00e7\u00e3o fabril foi ainda mais dura do que o pisoteamento pelos cavalos e os golpes de sabres. Com a autoriza\u00e7\u00e3o dos propriet\u00e1rios da ind\u00fastria, ainda movida a vapor, a autoridade policial ateou fogo na \u00e1rea. O resultado foi o assassinato de 129 oper\u00e1rias carbonizadas. <\/p>\n<p >J\u00e1 no s\u00e9culo XX, duas reuni\u00f5es europ\u00e9ias, promovidas pela Confer\u00eancia Internacional das Mulheres Socialistas marcam a reivindica\u00e7\u00e3o pela data. Em 1910, \u00e9 tomada a decis\u00e3o de comemorar este dia como sinal de protesto pelas condi\u00e7\u00f5es de trabalho das mulheres e na luta pelo direito ao sufr\u00e1gio universal sem distin\u00e7\u00e3o de g\u00eanero. Em 1911, atos simult\u00e2neos promovidos em dezenas de cidades consagram a data. No cen\u00e1rio da pol\u00edtica oper\u00e1ria, representa uma n\u00edtida vit\u00f3ria das sufragistas. <\/p>\n<p >A consagra\u00e7\u00e3o veio nas marchas da R\u00fassia, durante o governo provis\u00f3rio. O fruto da participa\u00e7\u00e3o das tropas Czaristas na 1\u00aa Guerra Mundial rendera o saldo de mais de 2 milh\u00f5es de soldados russos mortos. Uma campanha promovida em 1917, coordenada por mulheres, esposas, irm\u00e3s, m\u00e3es e parentes destes conscritos exigia a consigna de \u201cP\u00e3o e Paz\u201d. O resultado t\u00e1tico foi a conquista do direito ao voto universal, meses antes da vit\u00f3ria bolchevique. A coincid\u00eancia dos dias veio a consagrar a data atual. Em 23 de fevereiro, segundo o calend\u00e1rio Juliano, foi conquistado o sufr\u00e1gio universal na R\u00fassia. Esse dia corresponde ao 8 de mar\u00e7o no calend\u00e1rio Gregoriano. <\/p>\n<p >J\u00e1 em dezembro de 1977, ap\u00f3s uma intensa campanha, onde as mulheres mineiras da Bol\u00edvia tiveram um papel preponderante, a Assembl\u00e9ia Geral da ONU proclama este como o Dia Internacional da Mulher. Desde ent\u00e3o, como data oficial, a peleia por sua significa\u00e7\u00e3o acontece em diversos \u00e2mbitos. <\/p>\n<p >\u00c9 interessante observar que a disputa dentro do movimento de mulheres ocorre desde o s\u00e9culo XIX. Inicialmente entre sufragistas e classistas. Ou seja, entre \u00e0quelas que queriam o acesso ao direito de voto e a participa\u00e7\u00e3o na democracia liberal, e as que tinham como meta primeira a conquista dos direitos das mulheres trabalhadoras. Muitas vezes, as causas se mesclavam em franca uni\u00e3o. Noutras, gerou grandes cis\u00f5es.<\/p>\n<p >No caso brasileiro, n\u00e3o seria exagero afirmar que a luta contempor\u00e2nea das mulheres ocorre no universo das lutas oper\u00e1rias das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. Pautas ainda hoje pol\u00eamicas, como as que dizem respeito ao comportamento, foram iniciadas nos idos de 1906. Se sempre existiram rebeldes e transgressoras da ordem patriarcal, a express\u00e3o organizada veio do cotidiano de f\u00e1bricas, vilas e corti\u00e7os.<\/p>\n<p >A causa e a quest\u00e3o merecem muito mais do que poucas linhas hist\u00f3ricas. Tampouco, nenhuma das informa\u00e7\u00f5es aqui narradas s\u00e3o algo novo. O que sempre podemos dizer \u00e9 que a redescoberta, mais do que uma revis\u00e3o intelectual, \u00e9 o fruto da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as. Esta sim \u00e9 a novidade, retomada com a luta e as a\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas promovidas pelas mulheres da Via Campesina, ao longo dos quatro \u00faltimos anos e com \u00eanfase em 2006. <\/p>\n<p >N\u00e3o quero entrar no m\u00e9rito da a\u00e7\u00e3o em si, mas de seu significado. A mensagem \u00e9 percept\u00edvel, e tr\u00e1s a reclama\u00e7\u00e3o de que para a maioria das mulheres, a dupla jornada, tornou-se tripla, uma vez que boa parte delas tamb\u00e9m tem de ser chefe e arrimo de fam\u00edlia. O pa\u00eds que precisa de uma Lei Maria da Penha para coagir suas pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es a funcionarem, est\u00e1 anos luz de dist\u00e2ncia da igualdade de g\u00eanero como causa resolvida. <\/p>\n<p >Esta \u00e9 a atualidade do dia 8 de mar\u00e7o. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ataque ao viveiro da Aracruz Celulose, localizado em Barra do Ribeiro\/RS, marcou uma nova modalidade de luta para as mulheres trabalhadoras. 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