{"id":875,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=875"},"modified":"2023-03-13T21:15:54","modified_gmt":"2023-03-14T00:15:54","slug":"bolivia-a-guerra-do-gas-continua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=875","title":{"rendered":"Bol\u00edvia: A Guerra do G\u00e1s Continua"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/obrero_indigenato.jpg\" title=\"Este cartaz da COB \u00e9 um exemplo da auto imagem do indigentao para as maiorias ind\u00edgenas e trabalhadoras de Bol\u00edvia. - Foto:\" alt=\"Este cartaz da COB \u00e9 um exemplo da auto imagem do indigentao para as maiorias ind\u00edgenas e trabalhadoras de Bol\u00edvia. - Foto:\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Este cartaz da COB \u00e9 um exemplo da auto imagem do indigentao para as maiorias ind\u00edgenas e trabalhadoras de Bol\u00edvia.<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:<\/small><\/figure>\n<p >Em outubro de <st1:metricconverter ProductID=\"2003 a\" w:st=\"on\">2003 a<\/st1:metricconverter> Bol\u00edvia se via diante de amplas mobiliza\u00e7\u00f5es callejeras que se aglutinaram em fun\u00e7\u00e3o da manifesta vontade do governo de ent\u00e3o \u2013 Gonzalo S\u00e1nchez de Lozada &#8211; de exportar o g\u00e1s boliviano pelo Chile, epis\u00f3dio que ficou conhecido como Guerra del G\u00e1s. Somente um homem que fala um espanhol com forte sotaque ingl\u00eas, ou melhor, norte-americanizado, como o Sr. Goni de Lozada, seria capaz de fazer uma proposta daquele teor, ignorando n\u00e3o s\u00f3 o tempo de longa dura\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do povo boliviano que remete \u00e0 perda de territ\u00f3rio para aquele pa\u00eds vizinho, como mostrava completa ignor\u00e2ncia com o tempo de curta dura\u00e7\u00e3o que, em 2000, mobilizara amplas camadas do pa\u00eds contra a privatiza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua em Cochabamba, na chamada Guerra del \u00c1gua. A ignor\u00e2ncia, misto de soberba e onipot\u00eancia, que t\u00e3o bem caracteriza a tradicional classe\/etnia dominante criollo\/mestiza boliviana n\u00e3o se apercebia que o conjunto de pol\u00edticas iniciado pelo mesmo Goni de Lozada, em 1985, no perfeito receitu\u00e1rio recomendado pelo Banco Mundial e o FMI, estava desabando. <\/p>\n<p >A quebra do setor mineral do pa\u00eds com o desmonte das empresas estatais fragilizaria um dos principais p\u00f3los de resist\u00eancia popular no pa\u00eds, a hist\u00f3rica COB \u2013 Central Obrera Boliviana \u2013 mas engendraria um dos fen\u00f4menos de novo tipo que vem marcando o pa\u00eds, e para o qual as ci\u00eancias sociais n\u00e3o t\u00eam um nome para caracterizar o processo, qual seja, a recampeniza\u00e7\u00e3o desse proletariado mineiro que agora se dispersava. Trata-se, na verdade, da reterritorializa\u00e7\u00e3o camponesa desse proletariado em dispers\u00e3o, sobretudo pelos vales do Chapare, quando passam a se dedicar em grande parte ao cultivo de coca. E na Bol\u00edvia, assim como no Equador, Peru, M\u00e9xico, Guatemala, Paraguai e sul do Chile, o conceito proposto por Darci Ribeiro de indigenato, qual seja, um campesinato etnicamente diferenciado, tem enormes implica\u00e7\u00f5es sociais e culturais e, cada vez mais, pol\u00edticas. A geografia social boliviana, assim como a equatoriana, nos ajuda a entender a for\u00e7a do indigenato insurgente, conforme nos ensina o antrop\u00f3logo Xavier Alb\u00f3, na medida em que ao mesmo tempo em que parte dos antigos mineiros que se reterritorializam enquanto camponeses seguem mantendo importantes rela\u00e7\u00f5es com as matrizes culturais dos povos origin\u00e1rios e com as popula\u00e7\u00f5es urbanas em fun\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es socioespaciais mantidas entre as cidades com o altiplano. <\/p>\n<p >O melhor exemplo disso \u00e9 a popula\u00e7\u00e3o de El Alto, cidade onde est\u00e1 localizado o aeroporto que d\u00e1 acesso \u00e0 capital <st1:PersonName ProductID=\"La Paz\" w:st=\"on\">La Paz<\/st1:PersonName>, que dos seus 90 mil habitantes, em 1976, tem, hoje, aproximadamente 900 mil habitantes, em sua grande maioria ind\u00edgena, que mant\u00eam fortes v\u00ednculos com o vasto altiplano boliviano onde os ayllus, unidades territorial tradicional, mant\u00e9m-se enquanto propriedade familiar-comunit\u00e1ria e estrutura s\u00f3cio-pol\u00edtica vigente (bin\u00f4mio tupus-ayllus). Na pr\u00f3pria cidade de El Alto \u00e9 marcante a reinven\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es dos povos origin\u00e1rios como \u00e9 o caso das Juntas Vecinales, estruturas de perfil organizativo onde s\u00e3o n\u00edtidas as mem\u00f3rias dessa cultura organizacional. <\/p>\n<p >Um hibridismo explosivo ent\u00e3o se configura quando uma cultura pol\u00edtico-sindical oper\u00e1ria &#8211; como a rica tradi\u00e7\u00e3o dos mineiros bolivianos &#8211; se encontra com a coca e, assim, com uma hist\u00f3ria de longu\u00edssima dura\u00e7\u00e3o que remete \u00e0 ancestralidade ind\u00edgena atualizada por meio desse campesinato cocalero que, por sua vez, est\u00e1 frente a frente com a interven\u00e7\u00e3o imperialista estadunidense que, desde os anos oitenta, tenta impor a erradica\u00e7\u00e3o da coca. Uma declara\u00e7\u00e3o do ent\u00e3o embaixador estadunidense Manuel Rocha, em abril de 2001, d\u00e1 o tom da interven\u00e7\u00e3o: \u201cBol\u00edvia es el pa\u00eds em la regi\u00f3n (andina) que mejor cumpli\u00f3 en la lucha contra el narcotr\u00e1fico; (en Washington) est\u00e1n admirados de lo que pas\u00f3 em estos tres a\u00f1os en Bol\u00edvia\u201d (<st1:PersonName ProductID=\"La Raz\u00f3n\" w:st=\"on\">La Raz\u00f3n<\/st1:PersonName>, 18\/04\/2001, p.Pol\u00edtica, 3-A). Admiraci\u00f3n esta que n\u00e3o s\u00f3 ignora as rela\u00e7\u00f5es ancestrais dos povos andinos com a folha de coca, como se mostra especialmente insens\u00edvel \u00e0s dram\u00e1ticas conseq\u00fc\u00eancias dos programas de erradica\u00e7\u00e3o para o campesinato chapare\u00f1o. A exig\u00eancia estadunidense por \u201cCoca Cero\u201d, negando a reivindica\u00e7\u00e3o do indigenato cocalero que exigia a legalidade de parte do cultivo de coca que alegava n\u00e3o se vincular aos circuitos da narcoburguesia boliviano-estadunidense, mas sim \u00e0 cultura ancestral qu\u00e9chua\/aymara e aos h\u00e1bitos tradicionais de consumo, ensejar\u00e1 uma resposta de Evo Morales que afirmar\u00e1 que \u201ccuando hablan de Coca Cero es como si estuvieran hablando de cero de quechuas-aymaras. Es el genoc\u00eddio!\u201d. Num pa\u00eds em que mais de 60% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 ind\u00edgena pode-se dizer que a arrogante declara\u00e7\u00e3o do embaixador dos EEUU adicionava um elemento imperialista a um movimento j\u00e1 em si contundente, e come\u00e7ava-se, a\u00ed, a construir uma lideran\u00e7a nacional em torno do ind\u00edgena na Bol\u00edvia com forte car\u00e1ter anti-imperialista. <\/p>\n<p >Acompanhando um processo em curso em toda a Am\u00e9rica Latina onde a resist\u00eancia contra as pol\u00edticas neoliberais acabou por derrubar cerca de 20 governos desde <st1:metricconverter ProductID=\"1989, a\" w:st=\"on\">1989, a<\/st1:metricconverter> Bol\u00edvia ter\u00e1 num original movimento ind\u00edgena o eixo em torno do qual um longo e exitoso processo de resist\u00eancia se ensejar\u00e1. O movimento ind\u00edgena boliviano \u00e9 original na medida em que se mostra vis\u00edvel antes do grande 1\u00b0 de janeiro Zapatista de 1994, pois j\u00e1 em 1990 organiza, desde as Terras Baixas do Oriente, a Marcha pela Dignidade e pelo Territ\u00f3rio. \u00c9 interessante notar que at\u00e9 mesmo a palavra dignidade que ter\u00e1 grande for\u00e7a no ide\u00e1rio zapatista constava explicitamente nos cartazes do movimento ind\u00edgena boliviano, ali\u00e1s mesmo t\u00edtulo dado pelos ind\u00edgenas equatorianos que tamb\u00e9m organizam sua Marcha pela Dignidade e pelo Territ\u00f3rio em 1990. O movimento ind\u00edgena boliviano n\u00e3o s\u00f3 foi o primeiro a se manifestar, tornando-se nacionalmente vis\u00edvel, como ser\u00e1 o primeiro a dar forma nacional \u00e0s suas lutas elegendo Evo Morales em 2005. <\/p>\n<p >A trucul\u00eancia hist\u00f3rica da classe\/etnia dominante na Bol\u00edvia se encarregaria de oferecer os ingredientes de sofrimento com os massacres que se seguiram \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es callejeras pela reapropria\u00e7\u00e3o social do g\u00e1s em 2003 com dezenas de bolivianos sendo assassinados pelas for\u00e7as militares a mando do ent\u00e3o Presidente Goni de Lozada.<\/p>\n<p >Desde 2006, quando Evo Morales tomou posse e, sobretudo depois que o amplo movimento social conseguiu maioria na Constituinte atrav\u00e9s de seu \u201cInstrumento para <st1:PersonName ProductID=\"la Soberan\u00eda\" w:st=\"on\">la Soberan\u00eda<\/st1:PersonName> de los Pueblos\u201d \u2013 que \u00e9 o MAS \u2013 Movimento Al Socialismo \u2013 que os setores retr\u00f3grados das classes\/etnias dominantes bolivianas v\u00eam fazendo de tudo para inviabilizar o processo democr\u00e1tico de mudan\u00e7a em curso no pa\u00eds, seja por meio de autonomias separatistas, seja com quest\u00f5es como a mudan\u00e7a da capital e a conseq\u00fcente inviabiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhos da Constituinte, mas tamb\u00e9m, sobretudo, com o maci\u00e7o uso da m\u00e1quina midi\u00e1tica que desqualifica todos os dias, o dia todo, toda e qualquer medida governamental. <\/p>\n<p >Cabe aqui recordar o fato de que um dos impasses cruciais nas discuss\u00f5es na Assembl\u00e9ia Constituinte foi a exig\u00eancia, pela oposi\u00e7\u00e3o, da necessidade de um m\u00ednimo de 2\/3 dos votos dos constituintes para a aprova\u00e7\u00e3o da Carta Magna, como requisito supostamente essencial para um resultado democr\u00e1tico que contemplasse a vontade das minorias e aprovasse a nova constitui\u00e7\u00e3o amplamente discutida. Essa mesma oposi\u00e7\u00e3o, em um passado n\u00e3o muito distante no qual o papel oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhes cabia, se regozijava no parlamento aplicando aquilo que ficou conhecido como \u201crodillo parlament\u00e1rio\u201d, um sistema de composi\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as esdr\u00faxulas e\/ou improv\u00e1veis para a composi\u00e7\u00e3o de 50% mais um dos votos das c\u00e2maras no parlamento, aprovando o que lhes fosse de interesse. Num interessante sinal dos tempos, hoje, quando j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mais capazes de compor uma maioria simples que lhes atenda os desejos, tornaram-se ardorosos defensores da democracia das minorias. <\/p>\n<p >Por\u00e9m, mesmo com todo o apoio da m\u00eddia para tentar desestabilizar o governo durante o referendum revocat\u00f3rio, Evo Morales conseguiu ampliar seu apoio popular tendo passado de 53% dos votos com que se elegeu, em dezembro de 2005, para 67%, em agosto de 2008! Mesmo assim, e tendo convidado os seus oponentes ao di\u00e1logo, no que foi contestado por parte de algumas lideran\u00e7as populares que exigiam mano dura, as classes\/etnias dominantes acantonadas na Meia Lua, agora Minguante com a derrota em Chuquisaca, resistem e exigem que o Presidente abra m\u00e3o de uma gest\u00e3o nacional dos recursos origin\u00e1rios &#8211; justamente dos hidrocarbunetos &#8211; tendo inclusive desencadeado a\u00e7\u00f5es terroristas contra instala\u00e7\u00f5es da empresa que com tanto sacrif\u00edcio foi nacionalizada pelas lutas e mortes recentes de bolivianos e bolivianas no ainda vivo Outubro Sangrento da Guerra do G\u00e1s de 2003. <\/p>\n<p >O interessante \u00e9 que as classes\/etnias dominantes capitaneadas por Santa Cruz tentam se reapropriar do g\u00e1s, o elemento de uma unidade nacional que vem se constituindo a partir do ind\u00edgena num pa\u00eds profundamente fragmentado social e territorialmente, parte do car\u00e1ter abigarrado da sociedade boliviana, como nos ensina Ren\u00e9 Zabaleta Mercado: um \u201cEstado aparente\u201d, incapaz de articular as diferentes temporalidades\/territorialidades existentes no pa\u00eds.<\/p>\n<p >A unidade nacional que se tenta construir a partir da reapropria\u00e7\u00e3o do g\u00e1s natural, fruto das lutas e do sangue derramado nas ruas de El Alto, tem sua l\u00f3gica subvertida pela elite lun\u00e1tica ao definir os hidrocarbonetos como recurso praticamente exclusivo daqueles departamentos de onde \u00e9 extra\u00eddo, discurso que logra obter um n\u00edtido apoio popular nessas regi\u00f5es, sem que se apercebam de uma l\u00f3gica inerente a esse processo, qual seja, a de um saudosismo pela inger\u00eancia estrangeira na administra\u00e7\u00e3o desse recurso, afora seu anti-indigenismo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p >A postura de n\u00e3o-enfrentamento direto com que o comandante em chefe das For\u00e7as Armadas vem conduzindo o processo, abdicando de prerrogativas legais diante de uma clara tentativa de secess\u00e3o, deve ser entendida como parte do profundo aprendizado pol\u00edtico democr\u00e1tico que o movimento ind\u00edgena-campon\u00eas boliviano experimentou, onde 1952 n\u00e3o \u00e9 uma data qualquer. A recusa a aplicar as mesmas medidas de for\u00e7a com as quais foram sucessivamente reprimidos ao longo da hist\u00f3ria boliviana tem seu fundamento na compreens\u00e3o da import\u00e2ncia da constru\u00e7\u00e3o de um n\u00facleo comum, apropriando-nos aqui da formula\u00e7\u00e3o do polit\u00f3logo Luis Tapia, que seja resultado do di\u00e1logo entre os diferentes setores.<\/p>\n<p >Que n\u00e3o se confunda a disposi\u00e7\u00e3o incessante ao di\u00e1logo com fraqueza. Este governo \u00e9 herdeiro e tribut\u00e1rio de uma luta que bem come\u00e7ou h\u00e1 alguns s\u00e9culos, quando as botas dos irm\u00e3os Cort\u00e9s tocaram estas terras pela primeira vez. \u00c9 essa mem\u00f3ria radicalizada \u2013 n\u00e3o o radicalismo midi\u00e1ticamente condenado, extremista e inconseq\u00fcente \u2013 mas o de uma luta que tem ra\u00edzes profundas, que se expressam na defesa firme que o governo Evo Morales faz daqueles que tiveram sua hist\u00f3ria negada. E que o exemplo de El Alto insiste teimosamente em n\u00e3o nos deixar esquecer.<\/p>\n<p >Jallalla Bolivia!<\/p>\n<p >* Professor (Dr.) do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Geografia da Universidade Federal Fluminense e Pesquisador do LEMTO \u2013 Laborat\u00f3rio de Estudos de Movimentos Sociais e Territorialidades.<\/p>\n<p >** Mestre em Geografia pela UFRGS e Pesquisador do LEMTO &#8211; Laborat\u00f3rio de Estudos de Movimentos Sociais e Territorialidades.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este cartaz da COB \u00e9 um exemplo da auto imagem do indigentao para as maiorias ind\u00edgenas e trabalhadoras de Bol\u00edvia. 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