{"id":88,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=88"},"modified":"2023-03-13T20:43:54","modified_gmt":"2023-03-13T23:43:54","slug":"da-contra-informacao-ao-pensamento-unico-neoliberal-conceitos-de-critica-a-industria-da-midia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=88","title":{"rendered":"Da contra-informa\u00e7\u00e3o ao pensamento \u00fanico neoliberal: conceitos de cr\u00edtica \u00e0 ind\u00fastria da m\u00eddia"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/capa.jpg\" title=\"Este Artigo foi originalmente publicado na revista Comunica\u00e7\u00e3o &#038; Pol\u00edtica \/ Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos. Vol. 25, n\u00ba 3. Rio de Janeiro: CEBELA, set.-dez. 2007. Corresponde \u00e0s p\u00e1ginas 25 \u00e0 47. - Foto:Revista Comunica\u00e7\u00e3o e Pol\u00edtica\" alt=\"Este Artigo foi originalmente publicado na revista Comunica\u00e7\u00e3o &#038; Pol\u00edtica \/ Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos. Vol. 25, n\u00ba 3. Rio de Janeiro: CEBELA, set.-dez. 2007. Corresponde \u00e0s p\u00e1ginas 25 \u00e0 47. - Foto:Revista Comunica\u00e7\u00e3o e Pol\u00edtica\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Este Artigo foi originalmente publicado na revista Comunica\u00e7\u00e3o &#038; Pol\u00edtica \/ Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos. Vol. 25, n\u00ba 3. Rio de Janeiro: CEBELA, set.-dez. 2007. Corresponde \u00e0s p\u00e1ginas 25 \u00e0 47.<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:Revista Comunica\u00e7\u00e3o e Pol\u00edtica<\/small><\/figure>\n<p>O trabalho (1) tem como objetivo apontar conceitos operacionais para a cr&iacute;tica da ind&uacute;stria midi&aacute;tica, fazendo uma aproxima&ccedil;&atilde;o entre duas &aacute;reas de an&aacute;lise politicamente opostas, embora com epistemes semelhantes. Trata-se do di&aacute;logo entre o conceito de fabrica&ccedil;&atilde;o do consenso toler&aacute;vel pelas regras hegem&ocirc;nicas, tendo como base as id&eacute;ias pens&aacute;veis de Noam Chomsky, e a an&aacute;lise estrat&eacute;gica em sentido pleno. Para trabalhar estrat&eacute;gia, parte-se dos conceitos de um operador militar cl&aacute;ssico, o general Golbery do Couto e Silva, dentro de seu modelo de an&aacute;lise com n&iacute;veis de incid&ecirc;ncia e subordina&ccedil;&atilde;o do m&eacute;todo ao objetivo finalista, onde as ind&uacute;strias culturais enquadram-se no n&iacute;vel psicossocial de atua&ccedil;&atilde;o. Tal paradigma ter&aacute; presen&ccedil;a ao longo do artigo. Destacam-se alguns conceitos b&aacute;sicos para discutir a cr&iacute;tica &agrave; m&iacute;dia hegem&ocirc;nica, partindo da caracteriza&ccedil;&atilde;o do n&iacute;vel e seus macroambientes de opera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial; mso-ansi-language: ES-UY\" lang=\"ES-UY\"><strong>Key-words<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial; mso-ansi-language: ES-UY\" lang=\"ES-UY\">criticizing of the media &#8211; production of the consensus &#8211; strategic analysis &#8211; analysis levels &#8211; incidence &#8211; intelligence &#8211; counterintelligence<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial; mso-ansi-language: ES-UY\" lang=\"ES-UY\"><strong>Abstract<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial; mso-ansi-language: ES-UY\" lang=\"ES-UY\">The paper has its goals in the use of operational concepts for criticizing the media industry, making an approach among two analysis areas politically opposed, although with epistemological similarities. This is the dialogue among the concept of producing the tolerable consensus buy the powers that be, based on the ideas of Noam Chomsky, and the strategic analysis in full sense. To the strategy concepts, the paper goes trough the studies of a classic military operator, the general Golbery do Couto e Silva, and his analysis model with incidence levels and subordinating the method to the final point. In this method the cultural industries are framed in the level psychological-social level of analysis. Such paradigm will have presence along the article. Also, are stand out some basic concepts to discuss the critic for media hegemony, starting with the characterization of the level and their operational spaces. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Introdu&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>O trabalho desenvolve-se tomando como refer&ecirc;ncia principal a estrat&eacute;gia geral em sentido pleno, o n&iacute;vel psicossocial, onde se encontra a ind&uacute;stria da comunica&ccedil;&atilde;o, que a este se subordina em termos te&oacute;ricos. Trabalha as evid&ecirc;ncias de cr&iacute;tica da ind&uacute;stria midi&aacute;tica, tendo como suporte no mecanismo de &ldquo;id&eacute;ias pens&aacute;veis&rdquo;, exposto por Chomsky. Quanto &agrave; teoria, nesse sentido, &eacute; compreendida como uma s&eacute;rie de conceitos expostos sobre um tabuleiro de hip&oacute;teses e comprovados no mundo real. Assim, os conceitos trabalhados neste texto foram destacados com esta mesma inten&ccedil;&atilde;o, munir-se de ferramentas de trabalho (no caso, a an&aacute;lise) para ter o potencial de operar a interfer&ecirc;ncia neste n&iacute;vel (o psicossocial), inserido nos macroambientes da vida em uma sociedade de classes.<\/p>\n<p>Portanto, os conceitos destacados s&oacute; se encontram v&aacute;lidos exclusivamente dentro do mundo real e concreto. &Eacute; dentro deste universo emp&iacute;rico que &eacute; buscada a elei&ccedil;&atilde;o de ferramentas para analisar (e potencialmente interferir nos resultados e produtos) a este enorme volume de significa&ccedil;&otilde;es, representa&ccedil;&otilde;es, bens simb&oacute;licos e gera&ccedil;&otilde;es de sentido, onde a m&iacute;dia tem um papel crescentemente destacado, embora n&atilde;o encerre a discuss&atilde;o. Os conceitos se desenvolvem desde a caracteriza&ccedil;&atilde;o do n&iacute;vel at&eacute; a manipula&ccedil;&atilde;o pura e simples, fruto da hegemonia ideol&oacute;gica sobre uma categoria de trabalhadores, no caso, os da comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Progressivamente, o trabalho parte da premissa de que estrat&eacute;gia &eacute; a disciplina do estudo e aplica&ccedil;&atilde;o da luta, em todos os n&iacute;veis e formas, e pugna de interesses, tendencialmente irreconcili&aacute;veis. Difere assim estrat&eacute;gia de concerta&ccedil;&atilde;o ou planejamento, embora se relacione com este. Visto que a estrat&eacute;gia s&oacute; existe na intera&ccedil;&atilde;o de agentes em oposi&ccedil;&atilde;o ou coopera&ccedil;&atilde;o, assume-se como arena de luta no ocidente, envolvendo oposi&ccedil;&atilde;o de interesses, os quais, em sua totalidade, conformam interesses de classes. &Eacute; neste quadro que se constr&oacute;i e refor&ccedil;a o pensamento &uacute;nico, como no caso da hegemonia neoliberal.<\/p>\n<p>As pr&oacute;prias no&ccedil;&otilde;es de &ldquo;id&eacute;ias pens&aacute;veis&rdquo; e &ldquo;fabrica&ccedil;&atilde;o do consenso&rdquo; atravessam por um sutil fio de pensamento, onde a concatena&ccedil;&atilde;o de m&uacute;ltiplas informa&ccedil;&otilde;es termina por n&atilde;o oportunizar a a&ccedil;&atilde;o direta das partes mais atingidas. Isso pode ser observado tanto na propaganda interna, respons&aacute;vel por levar a opini&atilde;o p&uacute;blica dos Estados Unidos a apoiar a 1&ordf; Guerra Mundial, em 1916, como na desinforma&ccedil;&atilde;o fruto da sobrecarga de informa&ccedil;&atilde;o desconexa de um sistema de id&eacute;ias que possa interpret&aacute;-las. Estas observa&ccedil;&otilde;es s&atilde;o expostas atrav&eacute;s do texto, tomando por base o pensamento formulado por operadores da direita, cr&iacute;ticos dos operadores da direita e cr&iacute;ticos da m&iacute;dia como ind&uacute;stria e n&atilde;o como servi&ccedil;o.<\/p>\n<p><strong>Estrat&eacute;gia e controle<\/strong><\/p>\n<p>O denominado n&iacute;vel psicossocial torna-se operacional a partir da incid&ecirc;ncia sobre o fluxo de informa&ccedil;&atilde;o, que colabora na forma&ccedil;&atilde;o do consenso de elite. Os meios de comunica&ccedil;&atilde;o, trabalhando de forma mais sofisticada do que um regime de exce&ccedil;&atilde;o, forjam este consenso com a soma das vontades submetidas da m&atilde;o de obra das reda&ccedil;&otilde;es e assessorias, recorrendo &agrave; autocensura, mecanismo de pr&eacute;-sele&ccedil;&atilde;o dos trabalhadores para estes postos. N&atilde;o menos importante, al&eacute;m da sele&ccedil;&atilde;o de recursos humanos, &eacute; a pr&eacute;-edi&ccedil;&atilde;o das informa&ccedil;&otilde;es, linguagem, formatos, conceitos e sistemas de pensamento, incutidos na autocensura. A partir da&iacute;, os setores dominantes (que n&atilde;o necessariamente atuam em articula&ccedil;&atilde;o, mas t&ecirc;m interesses comuns, de rentabiliza&ccedil;&atilde;o direta e expans&atilde;o do sistema) t&ecirc;m constru&iacute;do historicamente os consensos, com destaque para o pensamento &uacute;nico neoliberal.<\/p>\n<p>Em dire&ccedil;&atilde;o ao consenso, o capitalismo &ndash; como processo civilizat&oacute;rio, al&eacute;m de modo de produ&ccedil;&atilde;o &ndash; n&atilde;o s&oacute; vende seu modo de vida como assimila outros, desde que estes n&atilde;o o descaracterizem em sua ess&ecirc;ncia e permitam tal incorpora&ccedil;&atilde;o, visando a pr&oacute;pria expans&atilde;o do sistema. Neste movimento, onde o papel da m&iacute;dia &eacute; fundamental (como boa vendedora de imagens, posicionamentos, valores e produtos) s&atilde;o constru&iacute;dos consensos planet&aacute;rios (com restri&ccedil;&otilde;es m&iacute;nimas, ganhando ades&atilde;o at&eacute; mesmo de partidos de esquerda), como o que substitui a no&ccedil;&atilde;o de sociedade pela de mercado e a de cidad&atilde;o pela de consumidor. Emiliano Jos&eacute; mostra que, agindo como propagandista de um novo modelo e vanguarda de um projeto para a sociedade, a m&iacute;dia, notadamente a imprensa, antecipou-se e converteu-se num ator pol&iacute;tico-ideol&oacute;gico significativo na difus&atilde;o e afirma&ccedil;&atilde;o do neoliberalismo no Brasil. (2)<\/p>\n<p>O papel da m&iacute;dia no capitalismo &eacute; estrat&eacute;gico, conclui-se. &Eacute; sempre prudente lembrar que a estrat&eacute;gia &eacute; uma ci&ecirc;ncia de conflito, guerra como extens&atilde;o da pol&iacute;tica, segundo Clausewitz, e seus n&iacute;veis de an&aacute;lise simultaneamente s&atilde;o n&iacute;veis de interfer&ecirc;ncia.(3) Segundo Golbery, a ind&uacute;stria da m&iacute;dia deve ser inclu&iacute;da dentro de um plano estrat&eacute;gico que, para facilitar a interven&ccedil;&atilde;o dos agentes de uma doutrina, &eacute; dividido em quatro n&iacute;veis (pol&iacute;tico, militar, econ&ocirc;mico e psicossocial).(4) Este &uacute;ltimo tem uma distin&ccedil;&atilde;o mais imprecisa, pois &eacute; composto tamb&eacute;m pelo ideol&oacute;gico, o social e o cultural. &Eacute; mais f&aacute;cil captar a defini&ccedil;&atilde;o de Golbery sobre este n&iacute;vel em seu coment&aacute;rio no marco da realidade e tens&otilde;es vividas pela sociedade, tratando de estrat&eacute;gia e pol&iacute;tica: &ldquo;Nunca deixou, em verdade, o fator ideol&oacute;gico de fazer-se presente em qualquer dos conflitos humanos, seja em formula&ccedil;&atilde;o n&iacute;tida, coerente e altamente sugestiva, seja apenas de forma fluida e quase, por assim dizer, inarticulada e ing&ecirc;nua&rdquo;. (5)<\/p>\n<p>Tratando do momento p&oacute;s-golpe de 1964, Golbery avan&ccedil;a em seu racioc&iacute;nio:<\/p>\n<p>Numa fase de centraliza&ccedil;&atilde;o acelerada que iria permear todos os campos e setores da atividade do Estado, do pol&iacute;tico ao econ&ocirc;mico e deste ao primeiro em refor&ccedil;o rec&iacute;proco, extravasando-se, aos poucos, a todos os recantos da sociedade nacional em manifesta&ccedil;&otilde;es psicossociais telecondicionadas, sen&atilde;o at&eacute; mesmo comandadas, desde o Governo central.<\/p>\n<p>O campo visivelmente mais retardado e onde surgiriam, desde cedo, rea&ccedil;&otilde;es at&eacute; mesmo inspiradas ideologicamente ante o alvo f&aacute;cil do autoritarismo crescente e indisfar&ccedil;ado seria o campo pol&iacute;tico, sobretudo em seu setor fronteiri&ccedil;o da comunica&ccedil;&atilde;o social. A censura &agrave; imprensa, de dific&iacute;limo, quase imposs&iacute;vel manejo, que se requeira ao mesmo tempo inteligente e eficaz, atrairia a press&atilde;o quase insuport&aacute;vel dos ataques mais veementes, mobilizadores de generosas simpatias e m&uacute;ltiplos apoios, donde contundentes e produtivos. (6)<\/p>\n<p>Assinala assim Golbery ao agente (o Poder Militar &agrave; frente do Estado), que, por suas pr&oacute;prias medidas, consideradas como centralizadoras, geraram uma s&eacute;rie de efeitos, onde s&atilde;o conceituados o econ&ocirc;mico, o pol&iacute;tico, o ideol&oacute;gico e os efeitos no psicossocial, dando &ecirc;nfase na comunica&ccedil;&atilde;o social. &Eacute; ressaltada a figura central do agente, o Estado, e as rea&ccedil;&otilde;es em cadeia a partir de suas medidas e forma de condu&ccedil;&atilde;o de governo. Discorda-se do general quando ele considera independente o agente com o Poder Moderador (as For&ccedil;as Armadas) em sua condu&ccedil;&atilde;o. De acordo com Dreifuss, o golpe foi uma articula&ccedil;&atilde;o org&acirc;nica da direita modernizadora brasileira. (7)<\/p>\n<p>O primeiro objeto de an&aacute;lise especificamente de m&iacute;dia &eacute; o enunciado pol&iacute;tico. A forma de produ&ccedil;&atilde;o do que &eacute; dito em p&uacute;blico, o quadro conjuntural onde se encontra este enunciado e at&eacute; mesmo os temas abordados s&atilde;o fruto de correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as. Um dos mitos do capitalismo sob regime jur&iacute;dico-democr&aacute;tico &eacute; o da transpar&ecirc;ncia pol&iacute;tica e a fun&ccedil;&atilde;o fiscalizadora do chamado quarto poder. Supostamente, a liberdade de imprensa seria um dos fatores b&aacute;sicos da democracia moderna. A afirma&ccedil;&atilde;o conceitual do professor N&iacute;lson Lage esclarece este mito e oferece uma vis&atilde;o precisa do assunto:<\/p>\n<p>O que &eacute; dito em p&uacute;blico depende de enunciados que se resguardam em pap&eacute;is secretos e conversas reservadas; s&atilde;o acordos, conchavos e acertos que justificam o elevado investimento em espionagem, tornam a lealdade virtude cara. Em todo caso, a pol&iacute;tica obedece a regras: uma &eacute; que nela interessa, mais que qualquer discurso, o quadro que se altera permanentemente (da&iacute; existir a cr&ocirc;nica ao lado do notici&aacute;rio, a informa&ccedil;&atilde;o &ndash; no sentido estrat&eacute;gico-militar do termo: relato consistente, vers&atilde;o n&atilde;o-contradit&oacute;ria &ndash; depois do informe); outra, que os temas dominantes s&atilde;o os dispostos pelo poder, de modo que impor um assunto representa prova de for&ccedil;a. (8)<\/p>\n<p>A informa&ccedil;&atilde;o, portanto, consiste no relato, na an&aacute;lise, e n&atilde;o no enunciado discursivo e nos informes de not&iacute;cias (que apresentam simplesmente nuances, indicativos do conjunto do conte&uacute;do). Entende-se, ent&atilde;o, que o discurso pol&iacute;tico p&uacute;blico (ou qualquer outro com implica&ccedil;&atilde;o semelhante ao exposto no destaque) &eacute; apenas a parte (vis&iacute;vel) de um total de medidas e an&aacute;lise apurada de conjuntura e correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as.<\/p>\n<p>Neste sentido, a atual Ag&ecirc;ncia Brasileira de Intelig&ecirc;ncia (Abin) e o seu controlador institucional, o Gabinete de Seguran&ccedil;a Institucional (GSI), ambos herdeiros do Servi&ccedil;o Nacional de Informa&ccedil;&otilde;es (SNI), este por sinal cabe&ccedil;a de rede do antigo Sistema Nacional de Informa&ccedil;&otilde;es (Sisni), em tese, s&atilde;o aparelhos de Estado que protagonizaram a estabilidade, a no&ccedil;&atilde;o de vigil&acirc;ncia para permanecer tudo o que est&aacute; no seu lugar. Sua an&aacute;lise prev&ecirc; a dissid&ecirc;ncia, contabilizando poss&iacute;veis furos de reportagem, que geram constrangimentos p&uacute;blicos, declara&ccedil;&otilde;es serenas das autoridades, medidas punitivas contra os abusos dos servidores do &oacute;rg&atilde;o e outros temas afins, muito presentes no jornalismo brasileiro que cobre o setor desde os tempos da abertura do regime militar, iniciada no Governo Ernesto Geisel (1974-1979).<\/p>\n<p>O que muito poucos autores e pesquisadores observam &eacute; que o mito aumenta com as conjecturas conspirat&oacute;rias produzidas pelos rep&oacute;rteres com acesso a fontes seguras, mesmo nos momentos sombrios. Em &uacute;ltima an&aacute;lise, n&atilde;o importa necessariamente este ou aquele esc&acirc;ndalo, ainda que incomode e altere o plano conjuntural e t&aacute;tico. O debate pontual ou o pseudo-descort&iacute;nio de um esc&acirc;ndalo n&atilde;o atinge as bases do sistema, como as seguidas den&uacute;ncias promovidas no Brasil desde o final do s&eacute;culo XX comprovam.<\/p>\n<p>As estruturas de fundo, somente pass&iacute;veis de serem denunciadas se expostas sistematicamente atrav&eacute;s de rigorosa an&aacute;lise, comp&otilde;em o tema que importa. A pr&oacute;pria passividade das posi&ccedil;&otilde;es da esquerda institucional, que aceita a exist&ecirc;ncia dos &oacute;rg&atilde;os de intelig&ecirc;ncia para controle interno, embora acuse seus &ldquo;desvios&rdquo;, aponta a toler&acirc;ncia do regime e de seus parceiros da governabilidade com uma oposi&ccedil;&atilde;o t&aacute;tica. No plano da opini&atilde;o p&uacute;blica, tal fato n&atilde;o &eacute; nenhuma novidade, sob nenhum regime de classes conhecido:<\/p>\n<p>A descoberta de que a unanimidade n&atilde;o precisa ser total &ndash; isso &eacute;, de que numa situa&ccedil;&atilde;o tida como de unanimidade preserva-se alguma dissid&ecirc;ncia &ndash; &eacute; a grande contribui&ccedil;&atilde;o do pensamento liberal para a teoria de controle de opini&atilde;o p&uacute;blica. Mesmo no mais totalit&aacute;rio dos regimes (digamos, no auge de poder do nazismo), h&aacute; discord&acirc;ncia marginal; em tempos normais e nos estados modernos, ela pouco importa. (9)<\/p>\n<p>Esta suposta diversidade de opini&otilde;es se configura atrav&eacute;s de mecanismos de consentimento, quando a parte majorit&aacute;ria de uma popula&ccedil;&atilde;o, mesmo sob regime liberal-democr&aacute;tico, &eacute; levada a refletir atrav&eacute;s de uma s&eacute;rie de premissas id&ecirc;nticas. Noam Chomsky exemplifica este mecanismo (chamado de engenharia de produ&ccedil;&atilde;o do consentimento, engineering of consent) analisando a pr&oacute;pria sociedade estadunidense, tida como basti&atilde;o da liberdade do indiv&iacute;duo &ndash; entrevistado a respeito desta forma de censura, o militante (ling&uuml;ista de profiss&atilde;o) considerado por muitos como o principal advers&aacute;rio do governo dos EUA no campo dos intelectuais, d&aacute; o exemplo retornando ao momento da entrada dos Estados Unidos da Am&eacute;rica (EUA) na 1a Guerra Mundial:<\/p>\n<p>Nesse momento (1916), os Estados Unidos criaram sua primeira ag&ecirc;ncia de propaganda governamental. Acredito que foi a primeira ag&ecirc;ncia de propaganda estatal de todo o mundo. Seu objetivo era criar um sentimento guerreiro numa popula&ccedil;&atilde;o que, de modo geral, n&atilde;o queria guerra. Os intelectuais, especialmente os liberais, aderiram entusiasmados &agrave; causa &ndash; e na verdade ficaram com o cr&eacute;dito. Isso mostra como a orienta&ccedil;&atilde;o (management) social pode ser conduzida pelos intelectuais, pelas pessoas que chamamos de &ldquo;comiss&aacute;rios&rdquo; quando falamos de nossos inimigos, embora o fen&ocirc;meno aqui seja essencialmente o mesmo. (10)<\/p>\n<p>Prosseguindo, Chomsky centra a cr&iacute;tica no surgimento dos servi&ccedil;os de rela&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas nos Estados Unidos, servi&ccedil;o que tinha como meta primeira, a &ldquo;fabrica&ccedil;&atilde;o do consenso nacional&rdquo;, sobre uma sociedade poliglota, multi-&eacute;tnica, com forte presen&ccedil;a de movimento oper&aacute;rio organizado na Industrial Workers of the World (IWW) (11) e opositores da entrada daquele pa&iacute;s na 1&ordf; Guerra Mundial:<\/p>\n<p>Edward Guernays, uma das figuras mais importantes da ind&uacute;stria de rela&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas, talvez sua figura mais importante, fazia parte desse comit&ecirc; de propaganda governamental e aprendeu bem suas li&ccedil;&otilde;es. Foi ele quem mais tarde criaria a express&atilde;o engineering of consent, afirmando que a produ&ccedil;&atilde;o do consentimento &eacute; a ess&ecirc;ncia da democracia. A mesma id&eacute;ia surgiu em meio &agrave; comunidade intelectual. Walter Lippman, o decano dos jornalistas americanos, falou em 1921, logo ap&oacute;s a guerra, e &agrave; luz da experi&ecirc;ncia da guerra, do que chamava de manufacture of consent (fabrica&ccedil;&atilde;o do consentimento): a popula&ccedil;&atilde;o em geral n&atilde;o entende o que &eacute; bom para ela, os &uacute;nicos que entendem o que &eacute; bom para ela s&atilde;o os membros da elite, que, portanto, precisam fabricar o consentimento. A id&eacute;ia que paira por tr&aacute;s disso, do s&eacute;culo XVII aos nossos dias, &eacute; que, se o governo &eacute; capaz de controlar a popula&ccedil;&atilde;o pela for&ccedil;a, ele n&atilde;o se importa muito com o que ela venha a pensar, mas se n&atilde;o for capaz de control&aacute;-la pela for&ccedil;a, se a voz das pessoas puder se manifestar &eacute; preciso certificar-se de que esta voz estar&aacute; dizendo as coisas certas. Assim, quanto mais livre for uma sociedade, mais ser&atilde;o necess&aacute;rios a doutrina&ccedil;&atilde;o e o controle. (12)<\/p>\n<p>A voz popular somente dir&aacute; as coisas certas se o pensamento for gerado atrav&eacute;s de premissas v&aacute;lidas. &Eacute; &oacute;bvio que esta validade &eacute; concedida (ou n&atilde;o) pelos poderes hegem&ocirc;nicos da sociedade, atrav&eacute;s de algo que Chomsky denomina de doutrina de limita&ccedil;&atilde;o dos pensamentos pens&aacute;veis, excluindo as diverg&ecirc;ncias de fundo como pensamentos impens&aacute;veis (unthinkable thoughts). (13) Somente dentro do espectro de pensamentos formulados atrav&eacute;s de premissas v&aacute;lidas &eacute; que s&atilde;o permitidas de fato as diverg&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>A respeito deste tema, a citada entrevista com Chomsky tr&aacute;s a pergunta sobre o real significado de express&otilde;es m&aacute;ximas do liberalismo, como free choice (liberdade de escolha), free press (liberdade de imprensa) e free access to information (liberdade de acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o):<\/p>\n<p>Numa sociedade livre, n&atilde;o se pode impedir que as pessoas votem. Assim, o que se faz &eacute; assegurar que n&atilde;o haja nada em que elas possam votar. O an&aacute;logo disso no sistema de informa&ccedil;&otilde;es &eacute; que n&atilde;o se pode evitar que as pessoas comprem o jornal que quiserem, e tamb&eacute;m n&atilde;o se pode proibir os jornais de publicarem o que quiserem; assim, &eacute; necess&aacute;rio assegurar-se de que os jornais v&atilde;o publicar as coisas certas. E isso acontece automaticamente, devido &agrave; concentra&ccedil;&atilde;o do poder. Os meios de comunica&ccedil;&atilde;o s&atilde;o grandes empresas. As tr&ecirc;s redes nacionais de televis&atilde;o s&atilde;o grandes empresas, controladas por empresas ainda maiores, como a General Electric, a Westinghouse etc. Os grandes jornais s&atilde;o empresas ligadas a bancos e conglomerados financeiros. Nos Estados Unidos, os meios de comunica&ccedil;&atilde;o s&atilde;o simplesmente empresas que vendem um produto para um mercado. O mercado s&atilde;o os anunciantes, que os sustentam. E o produto &eacute; a audi&ecirc;ncia. (14)<\/p>\n<p>A produ&ccedil;&atilde;o do consentimento se d&aacute; tamb&eacute;m atrav&eacute;s dos dom&iacute;nios dos meios que produzem a maior parte da informa&ccedil;&atilde;o e dos bens simb&oacute;licos circulantes. Mais uma vez retorna-se ao tema do estigma dos &oacute;rg&atilde;os de intelig&ecirc;ncia e informa&ccedil;&atilde;o. Num campo (como o jornal&iacute;stico), onde seus meios fazem parte da mesma hegemonia de classe que sustenta o regime para o qual o aparelho de Estado serve, parece uma absurda ingenuidade atribuir &ldquo;preconceito contra os arapongas&rdquo; partindo de quem produz a informa&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica.<\/p>\n<p><strong>Concentra&ccedil;&atilde;o e campo<\/strong><\/p>\n<p>Ainda que n&atilde;o seja a causa &uacute;nica para todas as quest&otilde;es de censura e manipula&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica, a crescente concentra&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; essencial para o controle da opini&atilde;o p&uacute;blica e a pr&oacute;pria governabilidade. Como, em &uacute;ltima an&aacute;lise, a governabilidade &eacute; a atividade-fim dos organismos de intelig&ecirc;ncia, estes servem e correspondem aos interesses dos conglomerados transnacionais, detentores da hegemonia mundial na atualidade.<\/p>\n<p>Esta hegemonia articula-se globalmente, de forma que os capitais criam sistemas capazes de enfrentar governos, amea&ccedil;ando-os quando estes contrariam seus interesses. Isso tudo sem afastar-se do discurso da objetividade, marca essencial da atua&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia, j&aacute; que a credibilidade &eacute; fundamental no neg&oacute;cio. A hegemonia se d&aacute; tanto no produto jornal&iacute;stico como tamb&eacute;m na propriedade e controle da ind&uacute;stria da comunica&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>&Eacute; importante saber que a NBC &eacute; propriedade da General Electric (o que significa dizer que, caso ela se aventure a fazer entrevistas com os vizinhos de uma usina nuclear, &eacute; prov&aacute;vel que &#8230; ali&aacute;s, isso n&atilde;o passaria pela cabe&ccedil;a de ningu&eacute;m &#8230;), que a CBS &eacute; propriedade da Westinghouse, que a ABC &eacute; da Disney, que a TF1 &eacute; propriedade de Bouygues, o que tem conseq&uuml;&ecirc;ncias, atrav&eacute;s de toda uma s&eacute;rie de media&ccedil;&otilde;es. &Eacute; evidente que h&aacute; coisas que um governo n&atilde;o far&aacute; a Bouygues sabendo que a Bouygues est&aacute; por tr&aacute;s da TF1. Essas coisas t&atilde;o grossas e grosseiras que a cr&iacute;tica mais elementar as percebe, mas ocultam os mecanismos an&ocirc;nimos, invis&iacute;veis, atrav&eacute;s dos quais se exercem as censuras de toda ordem que fazem da televis&atilde;o um formid&aacute;vel instrumento de manuten&ccedil;&atilde;o da ordem simb&oacute;lica. (15)<\/p>\n<p>Compreende-se que o dom&iacute;nio leva a formas de censura pr&oacute;prias sobre o campo, sem necessidade de que este controle seja exercido por uma for&ccedil;a externa &agrave; pr&oacute;pria m&iacute;dia. Entrevistado por um estudante dos EUA, Noam Chomsky foi bastante direto a respeito do tema: &ldquo;&ndash; Gostaria de saber como a elite consegue controlar a m&iacute;dia?, pergunta o estudante. &ndash;Como &eacute; que ela (a elite) controla a General Motors? A pergunta n&atilde;o tem raz&atilde;o de ser. A elite n&atilde;o precisa controlar a General Motors, uma vez que &eacute; sua propriet&aacute;ria&rdquo;. (16)<\/p>\n<p>&Eacute; perfeitamente cab&iacute;vel afirmar que, no Brasil, a Rede Globo apoiou o regime de ditadura militar, fazendo parte da hegemonia de ent&atilde;o. Hoje este conglomerado simplesmente &eacute; o regime, onde exerce papel preponderante numa s&eacute;rie de setores, especialmente os que dizem respeito &agrave; estabilidade direta e &agrave; governabilidade.<\/p>\n<p>Mesmo que pertencendo a capitais nacionais, estes e seus ve&iacute;culos s&atilde;o aliados das transnacionais e do capital financeiro-especulativo e se coordenam na hegemonia de classe operada no e sobre o Brasil. Isso fica claro com a observa&ccedil;&atilde;o a quem pertencem os ve&iacute;culos de difus&atilde;o e os crit&eacute;rios governamentais para a concess&atilde;o na &aacute;rea de radiodifus&atilde;o. O controle da ind&uacute;stria, e os enlaces org&acirc;nicos desta com os poderes estabelecidos no pa&iacute;s, exercem influ&ecirc;ncias sobre as rotinas produtivas e os processos de pensamento no campo jornal&iacute;stico, de onde pode ser compreendida a forma&ccedil;&atilde;o (e aceita&ccedil;&atilde;o) do pensamento &uacute;nico neoliberal.<\/p>\n<p>Descrevendo um campo, Bourdieu formula e analisa: &ldquo;Um campo &eacute; um espa&ccedil;o social estruturado, um campo de for&ccedil;as &ndash; h&aacute; dominantes e dominados, h&aacute; rela&ccedil;&otilde;es constantes, permanentes, de desigualdade, que se exercem no interior desse espa&ccedil;o &ndash; que &eacute; tamb&eacute;m um campo de lutas para transformar ou conservar esse campo de for&ccedil;as&rdquo;. (17) Com autonomia relativa com rela&ccedil;&atilde;o aos demais, um campo tamb&eacute;m &eacute; dotado de l&oacute;gica pr&oacute;pria, pois a domina&ccedil;&atilde;o exerce efeitos em sua &aacute;rea espec&iacute;fica de atua&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>As premissas poss&iacute;veis (pensamentos pens&aacute;veis) destacadas antes com Chomsky manifestam-se sobre as pessoas que operam neste campo. Estas premissas s&atilde;o apenas uma parte daquilo que &eacute; vis&iacute;vel na ind&uacute;stria de comunica&ccedil;&atilde;o, sendo este mecanismo (o gerado pela hegemonia de classe com o dom&iacute;nio dos instrumentos da m&iacute;dia) absolutamente sist&ecirc;mico:<\/p>\n<p>Quanto mais se avan&ccedil;a na an&aacute;lise de um meio, mais se &eacute; levado a isentar os indiv&iacute;duos de sua responsabilidade &ndash; o que n&atilde;o quer dizer que se justifique tudo o que se passa ali &ndash;, e quanto melhor se compreende como ele funciona, mais se compreende tamb&eacute;m que aqueles que dele participam s&atilde;o t&atilde;o manipulados quanto manipuladores. Manipulam mesmo tanto melhor, bem freq&uuml;entemente, quanto mais manipulados s&atilde;o eles pr&oacute;prios e mais inconscientes de s&ecirc;-lo. [&#8230;] a corrup&ccedil;&atilde;o das pessoas mascara essa esp&eacute;cie de corrup&ccedil;&atilde;o estrutural (mas ainda se deve falar de corrup&ccedil;&atilde;o?) que se exerce sobre o conjunto do jogo atrav&eacute;s de mecanismos como a concorr&ecirc;ncia pelas fatias de mercado, que quero tanto analisar. (18)<\/p>\n<p>Sobre este campo, alguns agentes operam deformando os demais, na medida em que as rela&ccedil;&otilde;es de classe reproduzem-se no seu &acirc;mbito. Assim, denomina-se m&iacute;dia oficiosa os grandes grupos de comunica&ccedil;&atilde;o que controlam esta ind&uacute;stria e o mercado, angariam as fatias mais significativas das receitas publicit&aacute;rias, t&ecirc;m o maior alcance da audi&ecirc;ncia e disp&otilde;em de n&iacute;veis de credibilidade superiores. A partir do dom&iacute;nio dessas condi&ccedil;&otilde;es, tornam suas vers&otilde;es como oficiosas do governo de plant&atilde;o e oficiais da hegemonia dominante.<\/p>\n<p>Embora o soci&oacute;logo franc&ecirc;s n&atilde;o utilize o conceito de m&iacute;dia oficiosa, considera-se v&aacute;lida a leitura sobre agentes econ&ocirc;micos (e, por conseq&uuml;&ecirc;ncia, pol&iacute;ticos) que atuam hegemonizando o campo onde operam: &ldquo;No campo dos empreendimentos econ&ocirc;micos, por exemplo, uma empresa muito poderosa tem o poder de deformar o espa&ccedil;o econ&ocirc;mico quase na totalidade; ela pode, baixando os pre&ccedil;os, impedir a entrada de novas empresas, pode instaurar uma esp&eacute;cie de barreira &agrave; entrada. Esses efeitos n&atilde;o s&atilde;o necessariamente produto de vontades&rdquo;. (19)<\/p>\n<p>Seguindo este mesmo racioc&iacute;nio, o exemplo se torna ainda mais direto quando aborda o campo jornal&iacute;stico:<\/p>\n<p>O que conta em um campo s&atilde;o os pesos relativos: um jornal pode permanecer absolutamente id&ecirc;ntico, n&atilde;o perder nenhum leitor, n&atilde;o mudar em nada e ser no entanto profundamente transformado porque seu peso e sua posi&ccedil;&atilde;o relativa no espa&ccedil;o se acham transformados. Por exemplo, um jornal deixa de ser dominante quando seu poder de deformar o espa&ccedil;o &agrave; sua volta diminui e ele j&aacute; n&atilde;o dita a lei. Pode-se dizer que, no universo do jornalismo escrito, Le Monde ditava a lei. Havia j&aacute; um campo, com a oposi&ccedil;&atilde;o, estabelecida por todos os historiadores do jornalismo, entre os jornais que d&atilde;o views, pontos de vista, an&aacute;lises etc.; entre os jornais de grande tiragem, como o France Soir, e os jornais de tiragem relativamente mais restrita mas dotados de uma autoridade semi-oficial. Le Monde estava bem situado sob os dois aspectos: era suficientemente grande por sua tiragem para ser um poder do ponto de vista dos anunciantes e suficientemente dotado de capital simb&oacute;lico para ser uma autoridade. Acumulava os dois fatores do poder nesse campo. (20)<\/p>\n<p>A fun&ccedil;&atilde;o de principal m&iacute;dia oficiosa, no Brasil, certamente cabe &agrave;s Organiza&ccedil;&otilde;es Globo e seus muitos ve&iacute;culos, tratando-se de um agente econ&ocirc;mico dotado n&atilde;o s&oacute; de volume de capital superior aos demais, mas que, a partir dessa condi&ccedil;&atilde;o, desenvolveu, em praticamente todos os setores onde atua um enorme capital simb&oacute;lico, respons&aacute;vel por fatias de audi&ecirc;ncia superiores aos concorrentes, decorrentes das barreiras &agrave; entrada inerentes da oligopoliza&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o se trata de expor nenhuma concep&ccedil;&atilde;o de &ldquo;tramas obscuras sobre o grande irm&atilde;o global&rdquo;, mas sim de compreender o que vem a ser a m&iacute;dia oficiosa, uma vez que esta tem os tra&ccedil;os deformadores que exp&otilde;e Bourdieu.<\/p>\n<p>Al&eacute;m do dom&iacute;nio direto, o propriet&aacute;rio dos meios tamb&eacute;m exerce seu controle atrav&eacute;s das id&eacute;ias pens&aacute;veis, as premissas v&aacute;lidas que a hegemonia capitalista contempor&acirc;nea d&aacute; o nome gen&eacute;rico de neoliberalismo, estrutura de pensamento &uacute;nico precisamente descrito por Halimi em seu estudo:<\/p>\n<p>O pensamento &uacute;nico n&atilde;o &eacute; neutro, nem mut&aacute;vel; al&eacute;m disso, n&atilde;o h&aacute; outro como ele. Traduz em &ldquo;termos ideol&oacute;gicos com pretens&atilde;o universal os interesses do capital internacional&rdquo; (Ramonet) daqueles que s&atilde;o denominados mercados financeiros, isto &eacute;, os grandes acumuladores de fundos. Tem sua origem nas institui&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas internacionais &ndash; entre outras, Banco Mundial, FMI, OCDE, GATT e depois OMC, Banque de France &ndash; que usam e abusam do cr&eacute;dito e da reputa&ccedil;&atilde;o de imparcialidade que lhes s&atilde;o atribu&iacute;dos. Pretende submeter os candidatos eleitos &agrave;s suas T&aacute;buas da Lei, &agrave; &uacute;nica pol&iacute;tica poss&iacute;vel. A que seria incontorn&aacute;vel (pensamento pens&aacute;vel, obs. do autor) e tem o aval dos ricos. O pensamento &uacute;nico sonha com um debate democr&aacute;tico destitu&iacute;do de sentido uma vez que deixaria de ser juiz entre os dois termos uma alternativa. Ceder a esse pensamento &eacute; aceitar que, por toda parte, a rentabilidade tome o lugar da utilidade social, &eacute; encorajar o desprezo pelo pol&iacute;tico e submeter-se ao reino do dinheiro. (21)<\/p>\n<p>O pensamento &uacute;nico descrito por Halimi &eacute; composto pelas premissas v&aacute;lidas, os pensamentos pens&aacute;veis e as bases de elabora&ccedil;&atilde;o de hip&oacute;teses em concord&acirc;ncia com os poderes de fato. Estes poderes, os mesmos que s&atilde;o propriet&aacute;rios dos instrumentos de produ&ccedil;&atilde;o da ind&uacute;stria da m&iacute;dia, permitem a reprodu&ccedil;&atilde;o dos debates que geram diverg&ecirc;ncias contorn&aacute;veis e, atrav&eacute;s de distintas maneiras, abafam as diverg&ecirc;ncias sist&ecirc;micas, nevr&aacute;lgicas por suas pr&oacute;prias premissas.<\/p>\n<p><strong>Censura e informa&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>A vis&atilde;o de mundo, a carga conceitual, a trajet&oacute;ria de vida e o n&iacute;vel de informa&ccedil;&atilde;o estabelecem, dentre outros elementos, as bases de qualquer debate e cr&iacute;tica poss&iacute;vel. O imediatismo dos meios gera justamente o oposto a esse debate. Al&eacute;m do fato emp&iacute;rico destes meios serem propriedade (e, portanto, sob controle) dos poderes hegem&ocirc;nicos da etapa neoliberal do capitalismo, a ind&uacute;stria exerce sobre o campo jornal&iacute;stico suas pr&oacute;prias formas de censura (com a mesma intensidade que, contraditoriamente, acusam de censura toda tentativa de controle p&uacute;blico de um servi&ccedil;o que &eacute; tratado como neg&oacute;cio privado).<\/p>\n<p>Estas formas s&atilde;o facilmente percebidas quando o tema &eacute; o servi&ccedil;o de intelig&ecirc;ncia. Mais uma vez, exprimem-se &ldquo;os mitos e mist&eacute;rios das sombras&rdquo;, atmosferas cinicamente cruas, como as relatadas por autores como John Le Carr&eacute; e seu anti-her&oacute;i George Smiley, constituindo centenas de documentos que provam algo, mas n&atilde;o explicam, &agrave; base da perman&ecirc;ncia da ignor&acirc;ncia do grande p&uacute;blico a respeito da atividade de intelig&ecirc;ncia, quando divulgada pela m&iacute;dia.<\/p>\n<p>Em seu excelente trabalho sobre os meios de comunica&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;neos, Ignacio Ramonet, um dos ativistas do jornal de oposi&ccedil;&atilde;o Le Monde Diplomatique e da ONG Attac Internacional (cujo programa &eacute; a taxa&ccedil;&atilde;o dos capitais flutuantes especulativos globais), aponta quatro formas b&aacute;sicas de censura jornal&iacute;stica. Estas s&atilde;o promovidas pela din&acirc;mica da rotina produtiva, modo de produ&ccedil;&atilde;o que acoberta sob bases t&eacute;cnicas as censuras exercidas pela hegemonia de classe sobre a maioria receptora do produto informativo.<\/p>\n<p>A primeira censura remete &agrave;quela j&aacute; citada, quando o governo dos EUA criou sua primeira ag&ecirc;ncia de rela&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas e propaganda estatal. O controle sobre o que &eacute; emitido a partir de um determinado &oacute;rg&atilde;o e a posterior difus&atilde;o destas mensagens seria a maior profus&atilde;o de censuras por institui&ccedil;&otilde;es hoje. De t&atilde;o difusa, Ramonet a caracteriza pelo cinismo de ser &ldquo;censura democr&aacute;tica&rdquo;:<\/p>\n<p>A maioria dos &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos ou privados, com a mesma lucidez, dotaram-se rigorosamente de pessoas ligadas &agrave; imprensa e de assessores de comunica&ccedil;&atilde;o, cuja fun&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; outra sen&atilde;o praticar a vers&atilde;o moderna, &ldquo;democr&aacute;tica&rdquo;, da censura.<\/p>\n<p>Desde sempre, o conceito de censura &eacute; assimilado ao poder autorit&aacute;rio, do qual ela &eacute;, de fato, um elemento constitutivo importante. Censura significa supress&atilde;o, interdi&ccedil;&atilde;o, proibi&ccedil;&atilde;o, corte e reten&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&atilde;o. A autoridade tem plena certeza de que um atributo forte de seu poder consiste em controlar a express&atilde;o e a comunica&ccedil;&atilde;o de todos aqueles que est&atilde;o sob sua tutela. &Eacute; assim que procedem os ditadores, os d&eacute;spotas ou os ju&iacute;zes da Inquisi&ccedil;&atilde;o. (22)<\/p>\n<p>A amplia&ccedil;&atilde;o desta forma de censura se d&aacute;, na verdade, a partir do pr&oacute;prio funcionamento dos agentes econ&ocirc;micos, tomando como exemplo mais gritante uma empresa transnacional. Qualquer um que j&aacute; tenha tido a oportunidade de trabalhar ou ao menos circular em uma organiza&ccedil;&atilde;o deste porte, ir&aacute; perceber um organograma de responsabilidades e fluxograma produtivo t&atilde;o vertical como o de qualquer For&ccedil;a Armada. O mesmo se repete com o fluxo informativo, incluindo as emiss&otilde;es ou respostas, ou seja, a parte pr&oacute;-ativa e reativa deste agente com os organismos de m&iacute;dia, muitos destes sendo propriedade de uma mesma corpora&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mico-financeira.<\/p>\n<p>Elevando o exemplo &agrave; sua escala m&aacute;xima, observa-se que esta &ldquo;censura democr&aacute;tica&rdquo; encontra-se por todo o circuito e ind&uacute;stria de comunica&ccedil;&atilde;o de massa. Recorda-se o destaque do professor N&iacute;lson Lage, que os enunciados pol&iacute;ticos (ou oficiais) s&atilde;o apenas parte de uma atua&ccedil;&atilde;o conjuntural, onde o que importa &eacute; a mudan&ccedil;a ou n&atilde;o do quadro geral. N&iacute;veis de controle de circula&ccedil;&atilde;o informativa (onde o fato revelado ou a cole&ccedil;&atilde;o de documentos impressos em p&aacute;ginas e p&aacute;ginas de jornais) s&atilde;o negociados junto dos n&iacute;veis de descontrole, sempre e desde quando n&atilde;o alterem o quadro conjuntural. O Poder Executivo capitalista se reproduz em &oacute;rg&atilde;os e institui&ccedil;&otilde;es de todos os tipos, sejam estes estatais, privados, nacionais, transnacionais, cient&iacute;ficos, sociais ou acad&ecirc;micos. Como visto antes, o modelo produtivo &eacute; acompanhado das premissas v&aacute;lidas conformadoras do pensamento &uacute;nico (neoliberal), exercendo influ&ecirc;ncia sobre as institui&ccedil;&otilde;es, consolidando ainda mais a &ldquo;censura democr&aacute;tica&rdquo;.<\/p>\n<p>Outra forma de censura descrita por Ramonet &eacute; muito parecida com a exercida em regimes ditatoriais mais grosseiros, a chamada &ldquo;censura e propaganda&rdquo;: trata-se da constru&ccedil;&atilde;o de sentido dos fatos a partir de sua revela&ccedil;&atilde;o ou n&atilde;o, considerando que aquilo que n&atilde;o &eacute; mostrado, n&atilde;o seria importante, sendo um caso de ideologia da informa&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua a CNN, onde o registro instant&acirc;neo ou n&atilde;o determina de antem&atilde;o boa parte dos sentidos poss&iacute;veis de serem atribu&iacute;dos &agrave; situa&ccedil;&atilde;o. (23) A informa&ccedil;&atilde;o instant&acirc;nea &eacute;, portanto, an&aacute;loga da informa&ccedil;&atilde;o de propaganda, embora esta &uacute;ltima seja mais grosseira, monol&iacute;tica, criando os fatos e permitindo a circula&ccedil;&atilde;o das vers&otilde;es oficiais. A informa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o anunciada, por vezes quando h&aacute; muita censura, chega a ser percebida como uma aberra&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia, um autoritarismo estatal operando sobre o campo.<\/p>\n<p>Mas, quando o fen&ocirc;meno se d&aacute; por sobrecarga informacional, torna-se mais dif&iacute;cil de perceber a informa&ccedil;&atilde;o ocultada:<\/p>\n<p>Entretanto, n&atilde;o &eacute; por fatalidade que a informa&ccedil;&atilde;o seja desta natureza &ndash; uma informa&ccedil;&atilde;o-den&uacute;ncia espet&aacute;culo &ndash; em nossas sociedades democr&aacute;ticas, como tamb&eacute;m n&atilde;o existe uma solu&ccedil;&atilde;o &uacute;nica de substitui&ccedil;&atilde;o que seria a informa&ccedil;&atilde;o de propaganda, como funcionou e ainda funciona hoje, nas ditaduras e nos regimes autocr&aacute;ticos. Um discurso de propaganda &eacute; um discurso que tenta, criando fatos, ou ent&atilde;o ocultando-os, construir um tipo de verdade falsa, o que est&aacute; longe de ser o des&iacute;gnio de nossos pr&oacute;prios sistemas informacionais. At&eacute; mesmo porque a censura que neles existe efetivamente n&atilde;o tem o mesmo aspecto e n&atilde;o possui este tipo de informa&ccedil;&otilde;es. Propriamente falando, o discurso de propaganda &eacute; um discurso de censura, mas a censura, em compensa&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o &eacute; necessariamente da ordem da propaganda. Esta consiste em suprimir, amputar, proibir um certo n&uacute;mero de aspectos dos fatos, ou mesmo o conjunto dos fatos, em ocult&aacute;-los, <st1:personname w:st=\"on\" productid=\"em escond&ecirc;-los. Como\">em escond&ecirc;-los. Como<\/st1:personname> se oculta a informa&ccedil;&atilde;o hoje em dia? Por uma adi&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es: a informa&ccedil;&atilde;o &eacute; dissimulada ou truncada porque h&aacute; informa&ccedil;&atilde;o em abund&acirc;ncia para consumir. E sequer se chega a perceber aquela que falta. (24)<\/p>\n<p>A adi&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es a que se refere o destaque pode ser aplicada com facilidade em rela&ccedil;&atilde;o a uma cobertura jornal&iacute;stica acerca da atividade de intelig&ecirc;ncia. Como atesta o exemplo de jornalismo de revela&ccedil;&atilde;o, a sobrecarga informativa n&atilde;o permite que um determinado tema, ou melhor, aspecto delicado desse mesmo tema, seja assim abordado. Em regimes mais explicitamente autorit&aacute;rios, o assunto n&atilde;o circula e pronto. Nos tempos atuais de democracias formais sob regime jur&iacute;dico de direito, isto se torna mais complicado. Deste modo, um receptor atento pode perceber a dist&acirc;ncia entre um &acirc;ncora de TV clamando por mais &ldquo;trabalho de intelig&ecirc;ncia&rdquo; para prevenir, por exemplo, a chamada lavagem de dinheiro, mas apenas em momentos muito raros esta mesma emissora comentar&aacute; quais bancos executam esta lavagem de dinheiro, o circuito por onde o dinheiro trafega, o que significa o capital flutuante e um ataque especulativo.<\/p>\n<p>Uma m&iacute;dia mais cr&iacute;tica, ou ao menos a exist&ecirc;ncia de ve&iacute;culos assumidamente vinculados a uma posi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica n&atilde;o-neoliberal (como o raro exemplo do Le Monde Diplomatique franc&ecirc;s ou a Caros Amigos brasileira), poderia gerar cr&iacute;ticas em s&eacute;rie &agrave; falta de profundidade da ind&uacute;stria da comunica&ccedil;&atilde;o. &Eacute; &oacute;bvio e de f&aacute;cil constata&ccedil;&atilde;o que a cr&iacute;tica entre os ve&iacute;culos, e mais ainda entre os jornalistas, muito raramente ocorre. Assim processa-se o conceito chamado pelo soci&oacute;logo Patrick Champagne de &ldquo;censura jornal&iacute;stica&rdquo;, que vem a constituir uma das quatro formas de censura apontadas por Ramonet. (25)<\/p>\n<p>Esta forma de censura &eacute; um reflexo de dois sintomas. &Eacute; a derrota ideol&oacute;gica de boa parte da categoria dos trabalhadores da comunica&ccedil;&atilde;o, que incorporam uma carga cada vez maior de valores hegem&ocirc;nicos do pensamento &uacute;nico. N&atilde;o por coincid&ecirc;ncia, este pensamento &eacute; estruturante dos princ&iacute;pios das corpora&ccedil;&otilde;es dominantes da pr&oacute;pria ind&uacute;stria. Tamb&eacute;m &eacute; uma carga bastante significativa de corporativismo, o mesmo verificado em outros ramos de profiss&otilde;es, em especial aqueles onde h&aacute; alguma carga hier&aacute;rquica por tempo de profiss&atilde;o ou curr&iacute;culo de forma&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Nesta modalidade de censura, Ramonet tamb&eacute;m observa a intoler&acirc;ncia dos jornalistas em condi&ccedil;&atilde;o de poder para com aqueles que os criticam, incapacidade esta que n&atilde;o permitiria um debate a respeito do pr&oacute;prio trabalho da m&iacute;dia, tendo como porta-vozes oficiosos da ind&uacute;stria seus profissionais mais bem remunerados: &ldquo;A isto se acrescenta aquela pr&aacute;tica t&atilde;o comum no meio midi&aacute;tico, chamada &lsquo;censura jornal&iacute;stica&rsquo; pelo soci&oacute;logo Patrick Champagne, que consiste, para todo jornalista que quer normalmente fazer carreira na profiss&atilde;o, em n&atilde;o criticar as pr&aacute;ticas critic&aacute;veis de seus colegas&rdquo;. (26)<\/p>\n<p>Todas estas tr&ecirc;s formas de censura gerariam uma quarta, chamada por Ramonet de censura invis&iacute;vel, uma tela que acobertaria a busca pela informa&ccedil;&atilde;o certa.27 Descartando teorias conspirativas de &ldquo;grande irm&atilde;o&rdquo;, complexificando a realidade da m&iacute;dia, com os profissionais mais bem remunerados tornando-se porta-vozes oficiosos da pr&oacute;pria ind&uacute;stria, espetacularizando ao m&aacute;ximo &ldquo;a divers&atilde;o de informar&rdquo;, todos estes fatores operam sobre mecanismos ainda mais complexos para identificar as formas contempor&acirc;neas de censura:<\/p>\n<p>Tudo isto cria uma esp&eacute;cie de tela, uma tela que oculta, opaca, que torna talvez mais dif&iacute;cil do que nunca, para o cidad&atilde;o, a busca da informa&ccedil;&atilde;o certa. Pelo menos no sistema anterior a censura era escancarada, sabia-se que imagens e informa&ccedil;&otilde;es eram dissimuladas. [&#8230;] Atualmente n&atilde;o &eacute; mais assim, isto &eacute;, a censura n&atilde;o &eacute; mais t&atilde;o vis&iacute;vel. Grandes esfor&ccedil;os de reflex&atilde;o s&atilde;o necess&aacute;rios para chegar a compreender sobre que mecanismos novos ela funciona. N&atilde;o &eacute; mais poss&iacute;vel contentar-se em acreditar na tese do compl&ocirc;, onde um comit&ecirc; secreto tra&ccedil;aria todos os artif&iacute;cios; a realidade midi&aacute;tica &eacute; muito mais complexa. (28)<\/p>\n<p>A censura exercida pela m&iacute;dia trabalha com qualificativos de confus&atilde;o proposital, na constru&ccedil;&atilde;o dos produtos comunicacionais, atingindo seus objetivos a partir da pr&oacute;pria falta de recursos dos cidad&atilde;os para avaliar corretamente tal postura. Isso vem na contram&atilde;o do chamado direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o, de quarta gera&ccedil;&atilde;o, que considera uma prerrogativa de todo ser humano n&atilde;o s&oacute; ser corretamente informado sobre os fatos sociais, mas tamb&eacute;m acessar a m&iacute;dia para levar suas reivindica&ccedil;&otilde;es, posicionamentos e identidades. Se a censura das ind&uacute;strias culturais &eacute; explicitamente um antidireito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o, pode-se questionar se tal avan&ccedil;o &eacute; poss&iacute;vel na sua totalidade, no &acirc;mbito dos desequil&iacute;brios estruturais do capitalismo.<\/p>\n<p><strong>Considera&ccedil;&otilde;es conclusivas<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o se identifica conclus&atilde;o l&oacute;gica poss&iacute;vel, sen&atilde;o que s&atilde;o imposs&iacute;veis mudan&ccedil;as estruturais na sociedade sem a afirma&ccedil;&atilde;o de outras premissas, geradoras de id&eacute;ias v&aacute;lidas, em oposi&ccedil;&atilde;o &agrave;s id&eacute;ias-guia e pens&aacute;veis dentro da l&oacute;gica hegem&ocirc;nica vivida. Portanto, precisa-se de uma m&iacute;dia de servi&ccedil;o e interesse coletivo, tratando a informa&ccedil;&atilde;o como um bem p&uacute;blico e n&atilde;o como privil&eacute;gio de interpreta&ccedil;&atilde;o. Para tanto, a normativa das comunica&ccedil;&otilde;es encontra-se muito distante desta meta, num sistema de neo-regulamenta&ccedil;&atilde;o, onde a edi&ccedil;&atilde;o legislativa &eacute; cont&iacute;nua, mas a partir dos objetivos mercadol&oacute;gicos.<\/p>\n<p>Destarte, o avan&ccedil;o de qualquer proposta de regulamenta&ccedil;&atilde;o que ataque o cerne do problema da comunica&ccedil;&atilde;o &ndash; concentra&ccedil;&atilde;o, falta de controle p&uacute;blico sobre os atos de midiatiza&ccedil;&atilde;o, aus&ecirc;ncia de incentivo &agrave; m&iacute;dia alternativa e inexist&ecirc;ncia de um sistema p&uacute;blico comprometido com a sociedade &ndash; vai no contra-fluxo do desenvolvimento do capitalismo, particularmente no atual modelo, globalizado e incentivado pela pol&iacute;tica neoliberal. Tal dificuldade &eacute; agravada considerando-se que, por n&atilde;o serem via de regra midiatizados, os temas comunicacionais fundamentais para o exerc&iacute;cio da cidadania tamb&eacute;m n&atilde;o entram na agenda de grande parte da popula&ccedil;&atilde;o, que considera a quest&atilde;o t&eacute;cnica e de dom&iacute;nio exclusivo de especialistas.<\/p>\n<p>N&atilde;o havendo um horizonte de democratiza&ccedil;&atilde;o, que permita a gera&ccedil;&atilde;o de outros sentidos, a m&iacute;dia tem poucos obst&aacute;culos para continuar seu papel de porta-voz de um capitalismo digital, uma economia l&iacute;quida cujo lastro perde-se entre as compensa&ccedil;&otilde;es banc&aacute;rias em alta velocidade e globais, onde a busca pelo lucro financeiro corr&oacute;i organiza&ccedil;&otilde;es e mercados, repercutindo no mundo da vida dos trabalhadores. A cr&iacute;tica da ind&uacute;stria passa tamb&eacute;m pela gera&ccedil;&atilde;o, a partir da pr&oacute;pria cria&ccedil;&atilde;o-destrui&ccedil;&atilde;o da l&oacute;gica hegem&ocirc;nica, de outras m&iacute;dias, capazes de superar o utilitarismo e, concomitantemente, controlar os interesses privados, dando margem &agrave;s distintas interpreta&ccedil;&otilde;es, mas n&atilde;o censurando a dura verdade factual.<\/p>\n<p>1 Trabalho apresentado como pon&ecirc;ncia no &ldquo;IX Semin&aacute;rio de Comunica&ccedil;&atilde;o da PUCRS&rdquo;, GT de Comunica&ccedil;&atilde;o Pol&iacute;tica, Porto Alegre, 7 e 8 de novembro de 2007.<\/p>\n<p>2 JOS&Eacute;, Emiliano. De Sarney a FHC: a atua&ccedil;&atilde;o partid&aacute;ria da imprensa na constru&ccedil;&atilde;o do neoliberalismo. Textos de comunica&ccedil;&atilde;o e cultura, Salvador, n. 39, p. 131-146, dez. 1998. p. 133.<\/p>\n<p>3 CLAUSEWITZ, Carl Von. Da guerra. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes, 1996. p. 870.<\/p>\n<p>4 SILVA, Golbery do Couto e. Conjuntura pol&iacute;tica nacional, o poder executivo &amp; geopol&iacute;tica do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria Jos&eacute; Olympio, 1981. p. 97. Estes e outros conceitos aqui trabalhados servem de base para a apostila de forma&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica dirigida a organiza&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas inseridas em movimentos populares oferecida pelo portal Estrat&eacute;gia &amp; An&aacute;lise. Ver ESTRAT&Eacute;GIA &amp; AN&Aacute;LISE. Introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; an&aacute;lise estrat&eacute;gica em sentido pleno. . Acesso em: 12 ago. 2007.<\/p>\n<p>5 SILVA, Golbery do Couto e, op. cit., p. 97.<\/p>\n<p>6 Ibid., p. 22, 24.<\/p>\n<p>7 DREIFUSS, Ren&eacute; Armand. 1964: a conquista do Estado, a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, poder e golpe de classe. Petr&oacute;polis: Vozes, 1981. p. 71.<\/p>\n<p>8 LAGE, Nilson. Controle da opini&atilde;o p&uacute;blica. Petr&oacute;polis: Vozes, 1998. p. 38.<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial; mso-ansi-language: ES-UY\" lang=\"ES-UY\">9 LAGE, N&iacute;lson, op. cit., p. 352.<\/span><\/p>\n<p>10 CHOMSKY, Noam. Am&eacute;rica: depoimentos. S&atilde;o Paulo: Cia. das Letras, 1989. p. 43, 44.<\/p>\n<p><st1:metricconverter w:st=\"on\" productid=\"11 A\">11 A<\/st1:metricconverter> Industrial Workers of the World corresponde &agrave; central sindical dos Estados Unidos, cujo per&iacute;odo auge foi entre os anos 1905 e 1924. Opunha-se tenazmente &agrave; entrada dos Estados Unidos na 1&ordf; Grande Guerra e, simultaneamente, teve participa&ccedil;&atilde;o na Revolu&ccedil;&atilde;o Mexicana (1910-1917), tanto no suporte material, como no envio de uma coluna de milicianos que tomara o estado da Baja Calif&oacute;rnia. Tinha &agrave; frente desta coluna um militante conhecido como Joe Hill, um dos primeiros desaparecidos pol&iacute;ticos no s&eacute;culo XX naquele pa&iacute;s. Ver KORNBLUH, Joyce L. Rebel voices: an IWW anthology. Chicago: Charles Kerr Publishing, 1988.<\/p>\n<p>12 CHOMSKY, Noam, op. cit, p. 43, 44.<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial; mso-ansi-language: ES-UY\" lang=\"ES-UY\">13 Ibid., p. 43, 44.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial; mso-ansi-language: ES-UY\" lang=\"ES-UY\">14 Ibid., p. 43, 44.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial; mso-ansi-language: ES-UY\" lang=\"ES-UY\">15 BOURDIEU, Pierre. Sobre a televis&atilde;o. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. p. 20.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial; mso-ansi-language: ES-UY\" lang=\"ES-UY\">16 CHOMSKY, Noam. Les medias et les illusions necessaries. Paris: Editions K Films, 1993.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial; mso-ansi-language: ES-UY\" lang=\"ES-UY\">17 BOURDIEU, Pierre, op. cit., p. 57.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial; mso-ansi-language: ES-UY\" lang=\"ES-UY\">18 Ibid., p. 21, 22.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial; mso-ansi-language: ES-UY\" lang=\"ES-UY\">19 Ibid., p. 56, 57.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial; mso-ansi-language: ES-UY\" lang=\"ES-UY\">20 Ibid., p. 60, 61.<\/span><\/p>\n<p>21 HALIMI, S&eacute;rgio. Os novos c&atilde;es de guarda. Petr&oacute;polis: Vozes, 1998. p. 67, 68.<\/p>\n<p>22 RAMONET, Ign&aacute;cio. A tirania da comunica&ccedil;&atilde;o. Petr&oacute;polis: Vozes, 1999. p. 28.<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial; mso-ansi-language: ES-UY\" lang=\"ES-UY\">23 RAMONET, Ign&aacute;cio, op. cit., p. 47, 48.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial; mso-ansi-language: ES-UY\" lang=\"ES-UY\">24 Ibid., p. 47, 48.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial; mso-ansi-language: ES-UY\" lang=\"ES-UY\">25 Ibid., p. 49.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial; mso-ansi-language: ES-UY\" lang=\"ES-UY\">26 Ibid., p. 49.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial; mso-ansi-language: ES-UY\" lang=\"ES-UY\">27 Ibid., p. 50.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial; mso-ansi-language: ES-UY\" lang=\"ES-UY\">28 Ibid., p. 50.<\/span><\/p>\n<p>Refer&ecirc;ncias<\/p>\n<p>BOURDIEU, Pierre. Sobre a televis&atilde;o. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.<\/p>\n<p>CHOMSKY, Noam. Am&eacute;rica: depoimentos. S&atilde;o Paulo: Cia. das Letras, 1989.<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial; mso-ansi-language: ES-UY\" lang=\"ES-UY\">_____. Les medias et les illusions necessaries. Paris: Editions K Films, 1993.<\/span><\/p>\n<p>CLAUSEWITZ, Carl Von. Da guerra. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes, 1996.<\/p>\n<p>DREIFUSS, Ren&eacute; Armand. 1964: a conquista do Estado, a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, poder e golpe de classe. Petr&oacute;polis: Vozes, 1981.<\/p>\n<p>ESTRAT&Eacute;GIA &amp; AN&Aacute;LISE. Introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; an&aacute;lise estrat&eacute;gica em sentido pleno. . Acesso em: 12 ago. 2007.<\/p>\n<p>HALIMI, S&eacute;rgio. Os novos c&atilde;es de guarda. Petr&oacute;polis: Vozes, 1998.<\/p>\n<p>JOS&Eacute;, Emiliano. De Sarney a FHC: a atua&ccedil;&atilde;o partid&aacute;ria da imprensa na constru&ccedil;&atilde;o do neoliberalismo. Textos de comunica&ccedil;&atilde;o e cultura, Salvador, n. 39, p. 131-146, dez. 1998.<\/p>\n<p>KORNBLUH, Joyce L. Rebel voices: an IWW anthology. <span style=\"font-family: Arial; mso-ansi-language: ES-UY\" lang=\"ES-UY\">Chicago: Charles Kerr Publishing Co., 1988.<\/span><\/p>\n<p>LAGE, Nilson. Controle da opini&atilde;o p&uacute;blica. Petr&oacute;polis: Vozes, 1998.<\/p>\n<p>RAMONET, Ign&aacute;cio. A tirania da comunica&ccedil;&atilde;o. Petr&oacute;polis: Vozes, 1999.<\/p>\n<p>SILVA, Golbery do Couto e. Conjuntura pol&iacute;tica nacional, o poder executivo &amp; geopol&iacute;tica do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria Jos&eacute; Olympio, 1981.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este Artigo foi originalmente publicado na revista Comunica\u00e7\u00e3o &#038; Pol\u00edtica \/ Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos. Vol. 25, n\u00ba 3. Rio de Janeiro: CEBELA, set.-dez. 2007. Corresponde \u00e0s p\u00e1ginas 25 \u00e0 47. 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