{"id":90,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=90"},"modified":"2023-03-13T20:43:54","modified_gmt":"2023-03-13T23:43:54","slug":"entre-o-colonizador-e-a-feitoria-intelectual-contradicoes-centrais-da-sociologia-latino-americana-no-periodo-do-estado-desenvolvimentista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=90","title":{"rendered":"Entre o colonizador e a feitoria intelectual: contradi\u00e7\u00f5es centrais da sociologia latino-americana no per\u00edodo do Estado-desenvolvimentista"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/cordobazo.bmp\" title=\"\n\n<p >Paso, paso, paso paso paso, C\u00f3rdoba se move <?xml:namespace prefix = st2 ns =  - Foto:\" alt=\"\n\n<p >Paso, paso, paso paso paso, C\u00f3rdoba se move <?xml:namespace prefix = st2 ns =  - Foto:\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">\n<p >Paso, paso, paso paso paso, C\u00f3rdoba se move <?xml:namespace prefix = st2 ns = <\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:<\/small><\/figure>\n<p>Vila Setembrina dos Farrapos, mar&ccedil;o de 2003;<\/p>\n<p>1) Introdu&ccedil;&atilde;o tem&aacute;tica e da base te&oacute;rica<\/p>\n<p><span style=\"mso-tab-count: 1\">A Introdu&ccedil;&atilde;o deste trabalho parte de um pressuposto de <st3:sinonimos>questionamento<\/st3:sinonimos>, profundo e franco, realizado por qualquer pesquisador ao longo de semin&aacute;rios tem&aacute;ticos, encontrado em autores e obras abordados durante a pesquisa para este texto. O rigor necess&aacute;rio &eacute; <st3:sinonimos>acompanhado<\/st3:sinonimos> da (ousadia( tamb&eacute;m mandat&oacute;ria para <st2:hm>realizar<\/st2:hm> tal obra. Assim, &eacute; a pr&oacute;pria constru&ccedil;&atilde;o das ci&ecirc;ncias sociais na Am&eacute;rica Latina, o tema geral do trabalho e diz respeito &agrave; quest&atilde;o central nessa realiza&ccedil;&atilde;o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"mso-tab-count: 1\">Estariam as elites conformadoras das ci&ecirc;ncias sociais no continente, alargando seu papel e penetra&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica dentro do pr&oacute;prio Estado, atrav&eacute;s de suas formula&ccedil;&otilde;es enquanto simultaneamente ocupam postos-chave no pa&iacute;s? Estariam estas mesmas elites mais como reprodutoras de pensamento sociol&oacute;gico (e de forma mais ampla das chamadas ci&ecirc;ncias humanas) gerado nos pa&iacute;ses centrais, incorporando bases e matrizes te&oacute;ricas cujas demandas e precedentes s&atilde;o t&iacute;picas de outras sociedades bem diferente das latino-americanas? E, atrav&eacute;s destas, viriam temas com alguma semelhan&ccedil;a, mas com exist&ecirc;ncia real totalmente distinta, tal &eacute; o caso dos temas &eacute;tnicos, no Brasil, citamos particularmente a tem&aacute;tica do negro? Por fim, veriam a estas elites, dentro de par&acirc;metros dos pa&iacute;ses centrais, as convuls&otilde;es sociais e as rela&ccedil;&otilde;es reais de tensionamento entre classes (em sentido mais amplo) como uma &quot;anomalia&quot;, dotando-se esta intelectualidade de capacidade prescritiva visando a &quot;solu&ccedil;&atilde;o&quot; de determinados problemas?<\/span><\/p>\n<p>Estes questionamentos s&atilde;o os centrais do artigo, e &eacute; a <st2:hm>partir<\/st2:hm> destes que se estrutura a base te&oacute;rica. Antes de entrarmos nela, entretanto, &eacute; necess&aacute;rio <st2:hm>abordar<\/st2:hm> os temas espec&iacute;ficos do trabalho. Entendendo que ambos se relacionam, estes s&atilde;o: a exist&ecirc;ncia e o desenvolvimento de ci&ecirc;ncias sociais subordinadas aos pa&iacute;ses centrais e com matrizes te&oacute;rico-epistemol&oacute;gicas da&iacute; derivadas. Para este tema, as obras citadas respectivamente de Guerreiro Ramos e Ot&aacute;vio Ianni nos fornecem o eixo de an&aacute;lise, observando nestes autores suas reflex&otilde;es e apontamentos do tema, e tamb&eacute;m o quanto foram repelidos, em seu momento, pela (hegemonia( do campo no per&iacute;odo. O segundo tema, que reconhecemos <st2:hm>ser<\/st2:hm> um pouco mais difuso, trata-se: do apontamento e busca de solu&ccedil;&otilde;es nacionais (o <st2:hm>ser<\/st2:hm> nacional, a realidade nacional, as problem&aacute;ticas nacionais), a <st2:hm>partir<\/st2:hm> do <st2:hm>saber<\/st2:hm> das ci&ecirc;ncias humanas e sociais, para os problemas de fundo dos pa&iacute;ses latino-americanos. Para este tema faremos um breve recorrido pelo desenvolvimento das ci&ecirc;ncias sociais no M&eacute;xico e da obra de S&iacute;lvia Sigal, a respeito do papel dos intelectuais e o <st2:hm>poder<\/st2:hm> na Argentina (centrado este trabalho na d&eacute;cada de 1960). Na Conclus&atilde;o, apontamos uma poss&iacute;vel linha cont&iacute;nua entre ambos blocos de temas, tomando por base nossa pr&oacute;pria refer&ecirc;ncia te&oacute;rica e poucas mas precisas afirma&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas de Celso Furtado que expomos a <st2:hm>seguir<\/st2:hm>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"mso-tab-count: 1\">Embora aborde um per&iacute;odo contempor&acirc;neo, da globaliza&ccedil;&atilde;o e quase unilateralidade mundial, nos pareceu de maior precis&atilde;o, <st2:hm>assumir<\/st2:hm> para nossa cr&iacute;tica a procura de uma nova <st4:sinonimos>episteme<\/st4:sinonimos> elaborada pelo soci&oacute;logo portugu&ecirc;s Boaventura de Souza Santos. Sua contemporaneidade n&atilde;o invalida a cr&iacute;tica regressa ao momento hist&oacute;rico amplo que abordamos (quase que inteiramente centrado no p&oacute;s 2&ordf; (guerra e da bipolaridade do s&eacute;culo XX). A primeira cr&iacute;tica que incorporamos diz respeito &agrave; suposta generaliza&ccedil;&atilde;o universal da ci&ecirc;ncia dita moderna. Segundo o autor portugu&ecirc;s, este universalismo &eacute; posicional, trata-se da capacidade do ocidente central de <st2:hm>taxar<\/st2:hm> e <st2:hm>classificar<\/st2:hm> como local, particular e contextual a todas as formas de conhecimento que com ela rivalizam (Santos, 2002, p.14). Seguindo este racioc&iacute;nio, &eacute; o <st2:hm>poder<\/st2:hm> de <st2:hm>taxar<\/st2:hm>, de <st2:hm>dar<\/st2:hm> o nome, de <st2:hm>localizar<\/st2:hm>, de <st2:hm>gerar<\/st2:hm> uma conven&ccedil;&atilde;o a respeito de X conhecimento ou Y tema, que equivale para os meios cient&iacute;fico-acad&ecirc;micos a mesma rela&ccedil;&atilde;o de centro-periferia que se v&ecirc; em outras &aacute;reas. Seria, segundo Santos (p.15), a capacidade de um conhecimento <st2:hm>tornar<\/st2:hm> o outro em mat&eacute;ria-prima ou recurso para sua realiza&ccedil;&atilde;o, o que faz de um cient&iacute;fico e moderno e o outro particular e local.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"mso-tab-count: 1\">Reconhecendo como verdadeira a afirma&ccedil;&atilde;o de Santos (p.16), s&atilde;o os cientistas sociais, de formas mais ou menos relutantes, herdeiros e portadores dos paradigmas cient&iacute;ficos hegem&ocirc;nicos. Fica uma d&uacute;vida: a ci&ecirc;ncia social que abordamos neste trabalho, &eacute; ela mesma reprodutora deste paradigma, geradora de uma contra-hegemonia ou teria as condi&ccedil;&otilde;es potenciais de <st2:hm>gerar<\/st2:hm> uma nova hegemonia? Embora Santos tenha formulado estas quest&otilde;es no tempo presente, entendemos que elas valem para o per&iacute;odo que estudamos no trabalho.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A dicotomia entre Centro-Periferia, 1( e 3( Mundo, se verifica tamb&eacute;m no interior das ci&ecirc;ncias humanas e sociais. Observamos especificamente nas obras que s&atilde;o abordadas neste artigo, vivia-se um momento cujo tema do desenvolvimento, da independ&ecirc;ncia-interdepend&ecirc;ncia, das possibilidades de autodetermina&ccedil;&atilde;o nacional dos pa&iacute;ses latino-americanos eram temas centrais para boa parte dos cientistas sociais. As formas e buscas para <st2:hm>atingir<\/st2:hm> este objetivo diferiam profundamente, mas estavam dentro destes marcos. Boaventura de Souza Santos aponta hoje a dicotomia entre ci&ecirc;ncia-mercen&aacute;ria (e\/ou consultoria-mercen&aacute;ria, dentro do paradigma hegem&ocirc;nico e centralizada por esta hegemonia) X ci&ecirc;ncia-a&ccedil;&atilde;o (p.18). Fazemos uma analogia entre um rigorismo cient&iacute;fico com supostas inten&ccedil;&otilde;es neutrais e cujas matrizes epistemol&oacute;gicas vinham de pa&iacute;ses centrais e a busca por uma <st4:sinonimos>episteme<\/st4:sinonimos> e metodologia aplic&aacute;vel e capaz de <st2:hm>apontar<\/st2:hm> solu&ccedil;&atilde;o para as grandes quest&otilde;es nacionais (como &eacute; o caso da obra de Guerreiro Ramos que abordaremos no pr&oacute;ximo t&oacute;pico).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Segundo a classifica&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;nea de Santos, haveria uma divis&atilde;o entre Centro -Semi-Periferia &#8211; Periferia, substituindo a classifica&ccedil;&atilde;o do per&iacute;odo bi-polar, entre 1(, 2( e 3( mundo. Vamos <st2:hm>reconhecer<\/st2:hm>, desde nosso ponto de vista, a exist&ecirc;ncia de pa&iacute;ses latino-americanos com bom n&iacute;vel de desenvolvimento industrial e cient&iacute;fico, posicionando-se nesta escala, de cima para baixo, Brasil, M&eacute;xico e num per&iacute;odo recente Argentina. Feito este coment&aacute;rio, citamos ao cubano Roberto Retamar (apud Santos, p.20) quando este afirma (N&atilde;o h&aacute; ningu&eacute;m que conhe&ccedil;a melhor a literatura dos pa&iacute;ses centrais do que o leitor da periferia.( O soci&oacute;logo portugu&ecirc;s faz uma analogia com os cientistas sociais da semi-periferia, afirmando serem estes os melhores conhecedores das bases te&oacute;rico-epistemol&oacute;gicas e daquilo que &eacute; produzido nos pa&iacute;ses centrais.<\/p>\n<p>Se hoje reconhecemos <st2:hm>ser<\/st2:hm> esta uma afirma&ccedil;&atilde;o verdadeira, ent&atilde;o se conclui que o esfor&ccedil;o das ci&ecirc;ncias sociais (se n&atilde;o de toda, de boa parte dela) no per&iacute;odo do Estado-desenvolvimentista, n&atilde;o se fez <st2:hm>concretizar<\/st2:hm>. Nos parece l&oacute;gica a analogia entre depend&ecirc;ncia econ&ocirc;mica, crise de soberania e desenvolvimento cient&iacute;fico aut&ocirc;nomo, ci&ecirc;ncias humanas e sociais inclu&iacute;das. Um fator l&oacute;gico como, quem financia imp&otilde;e parcial ou totalmente o tema estudado, &eacute; uma afirma&ccedil;&atilde;o mais que satisfat&oacute;ria e suficiente. Como afirma Santos, a correla&ccedil;&atilde;o entre depend&ecirc;ncia e (ci&ecirc;ncia moderna( &eacute; fator de muito epistemic&iacute;dio a favor do <st2:hm>poder<\/st2:hm> imperial (p.14). Uma vez que nossa realidade e trabalho abordam justamente uma &aacute;rea de <st2:hm>saber<\/st2:hm> cient&iacute;fico em pa&iacute;ses da periferia do ocidente chamada Am&eacute;rica Latina, este passa a <st2:hm>ser<\/st2:hm> um tema central.<\/p>\n<p><span style=\"mso-tab-count: 1\">Por fim, nossa base de an&aacute;lise se centrar&aacute; sobre os temas apresentados pelos pr&oacute;prios autores estudados. Reconhecemos que os temas mais gritantes daquele momento hist&oacute;rico, ao menos para os cientistas sociais abordados, s&atilde;o os relacionados com a moderniza&ccedil;&atilde;o institucional, desenvolvimento industrial, cria&ccedil;&atilde;o de um universo cient&iacute;fico pr&oacute;prio e soberania nacional. &Eacute; a <st2:hm>partir<\/st2:hm> das afirma&ccedil;&otilde;es de Santos que faremos a cr&iacute;tica ao alcance que estas id&eacute;ias e inten&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas tiveram no momento de sua realiza&ccedil;&atilde;o. E ainda sob este ponto de vista, faremos a cr&iacute;tica da conforma&ccedil;&atilde;o de uma elite intelectual e suas preocupa&ccedil;&otilde;es mais prementes. <\/span><\/p>\n<p>2) Uma sociologia brasileira e latino-americana<\/p>\n<p>Tomando por base a obra cl&aacute;ssica de Guerreiro Ramos, (Introdu&ccedil;&atilde;o Cr&iacute;tica &agrave; Sociologia Brasileira (1957), vemos uma s&eacute;rie de cr&iacute;ticas, coment&aacute;rios, muitas vezes em forma de recorte ensa&iacute;stico e artigo de batalha. Polemizando contra seus cr&iacute;tico-opositores, tecendo alian&ccedil;as, afirmando pressupostos para <st2:hm>compor<\/st2:hm> um campo de simpatia, um conjunto de temas, que relativizados com o tempo e per&iacute;odo hist&oacute;rico de sua produ&ccedil;&atilde;o, bastariam para todo o tema pretendido neste trabalho. Ressaltamos, de forma descont&iacute;nua e de acordo com nosso interesse, a tem&aacute;ticas que nos pareceram mais contundentes e gostar&iacute;amos de <st2:hdm>aprofundar<\/st2:hdm>.<\/p>\n<p>O fundamento <st2:hm>complementar<\/st2:hm> &eacute; a obra de Octavio Ianni (1971), (Sociologia da Sociologia Latino-Americana(, ao nosso <st2:hm>ver<\/st2:hm> t&atilde;o ampla e contundente quanto a primeira. Uma das diferen&ccedil;as entre as obras, consideramos <st2:hm>ser<\/st2:hm> a motiva&ccedil;&atilde;o da cr&iacute;tica e a afirma&ccedil;&atilde;o da sociologia v&aacute;lida para <st2:hm>apontar<\/st2:hm> os problemas identificados, por respectivos autores, como os de maior envergadura.. Na sua abertura, Ianni aponta duas grandes correntes sociol&oacute;gicas no continente latino-americano. Uma corrente ele observa como sendo posta (fora-da-lei(, justo por <st2:hm>ser<\/st2:hm> a que melhor contribuiria (para o conhecimento das condi&ccedil;&otilde;es de exist&ecirc;ncia social das diferentes classes sociais na Am&eacute;rica Latina( (p.1). Sua produ&ccedil;&atilde;o aponta para <st2:hm>reconhecer<\/st2:hm> e <st2:hm>interpretar<\/st2:hm> o modo de acomoda&ccedil;&atilde;o, tens&atilde;o e nega&ccedil;&atilde;o rec&iacute;proca entre as classes. No que diz respeito da estrutura, aponta as dimens&otilde;es de apropria&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica e domina&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, nos distintos Estados e regi&otilde;es do continente (p.2). O elogio metodol&oacute;gico tamb&eacute;m se encontra, pois Ianni afirma <st2:hm>ser<\/st2:hm> esta corrente cr&iacute;tica tanto na produ&ccedil;&atilde;o &#8211; a interpreta&ccedil;&atilde;o dos problemas sociais &#8211; como nos m&eacute;todos de pesquisa empregados (p.2).<\/p>\n<p>O contraponto de Ianni &eacute; bastante contundente. Afirma <st2:hm>ser<\/st2:hm> a corrente hegem&ocirc;nica uma produtora de conhecimento sobre os problemas sociais propostos pelas classes dominantes. Entendemos que o emprego da categoria de classe dominante e n&atilde;o setores de elite econ&ocirc;mica e\/ou pol&iacute;tica &eacute; empregada constantemente, objetivando ao nosso <st2:hm>ver<\/st2:hm>, ao menos uma an&aacute;lise tamb&eacute;m estrutural do bin&ocirc;mio domina&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e apropria&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica. Retornando a cr&iacute;tica, a finalidade desta corrente &eacute; <st2:hm>colaborar<\/st2:hm> com o status quo, e <st2:hm>assegurar<\/st2:hm> a manuten&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es sociais vigentes. Observa por fim, que o pressuposto (cient&iacute;fico( desta corrente &eacute; que a sociedade seja normalmente est&aacute;vel, sendo as crises e convuls&otilde;es vistas como uma (anomalia( (p.2). Assim, para a sociologia vinculada &agrave; classe dominante, o tensionamento e nega&ccedil;&atilde;o rec&iacute;proca de atores coletivos que mobilizam e polarizam as classes, em especial os setores das classes despossu&iacute;das, seriam uma &ldquo;doen&ccedil;a daquela sociedade&rdquo;1. Nas duas primeiras p&aacute;ginas de seu livro, aponta serem estas duas correntes as que geram a contradi&ccedil;&atilde;o principal, sobre a qual ir&aacute; <st2:hm>discorrer<\/st2:hm> ao longo de sua obra.<\/p>\n<p>J&aacute; Guerreiro Ramos (1957) parte do pressuposto que n&atilde;o se produz conhecimento sociol&oacute;gico sem uma compreens&atilde;o objetiva da sociedade nacional. Esta compreens&atilde;o &eacute; fruto de um processo hist&oacute;rico, gerador de uma objetitividade distinta daquela visada nas ci&ecirc;ncias ditas duras (da natureza e f&iacute;sicas), e onde se interpenetram objeto e observador. A objetividade nas ci&ecirc;ncias humanas tem natureza m&uacute;ltipla, e sempre se afirma em fun&ccedil;&atilde;o da perspectiva da produ&ccedil;&atilde;o dos autores, considerando o leque e complexidade desta abrang&ecirc;ncia (p.1). &Eacute; desta condi&ccedil;&atilde;o que deriva o pensamento sociol&oacute;gico produzido.<\/p>\n<p>Ramos afirma que a sociologia ent&atilde;o praticada no pa&iacute;s &eacute; fruto de uma indu&ccedil;&atilde;o de processos e de tend&ecirc;ncias na sociedade brasileira. A disciplina, ainda carente das press&otilde;es reais que possibilitem o fato da tomada de consci&ecirc;ncia das condi&ccedil;&otilde;es dadas para a pr&oacute;pria produ&ccedil;&atilde;o sociol&oacute;gica, torna-se incapaz de <st3:infinitivo>efetivar<\/st3:infinitivo> uma interpreta&ccedil;&atilde;o objetiva de nossa sociedade (p.18). A raz&atilde;o disto, segundo Ramos, &eacute; a l&oacute;gica da situa&ccedil;&atilde;o colonial, onde historicamente o pa&iacute;s vem alterando apenas em grau, mas sem nunca <st2:hm>alterar<\/st2:hm> a natureza mesma da condi&ccedil;&atilde;o de col&ocirc;nia. Vale um coment&aacute;rio nosso; poder&iacute;amos <st2:hm>estabelecer<\/st2:hm> um di&aacute;logo deste autor tamb&eacute;m em termos de semi-col&ocirc;nia, ou Semi-Periferia, pa&iacute;s perif&eacute;rico dotado de desenvolvimento e autonomias relativas comparado &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es de sua regi&atilde;o, como afirma Santos. Esta condi&ccedil;&atilde;o colonial &eacute; um complexo de situa&ccedil;&otilde;es e rela&ccedil;&otilde;es, somadas &agrave; explora&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica, a depend&ecirc;ncia, a assimila&ccedil;&atilde;o, a acultura&ccedil;&atilde;o e a associa&ccedil;&atilde;o com o colonizador.<\/p>\n<p>Guerreiro Ramos aponta a necessidade da inten&ccedil;&atilde;o do soci&oacute;logo em <st2:hm>romper<\/st2:hm> com sua d&uacute;bia condi&ccedil;&atilde;o, para somente assim <st2:hdm>produzir<\/st2:hdm> um conhecimento sociol&oacute;gico voltado para sua sociedade, a <st2:hm>partir<\/st2:hm> de sua pr&oacute;pria realidade. Na Am&eacute;rica Latina, segundo o autor, o conhecimento produzido pelos soci&oacute;logos passa muito mais por <st2:hm>informar<\/st2:hm> aos nativos da produ&ccedil;&atilde;o (cient&iacute;fica( produzida na metr&oacute;pole &ndash; isto considerando a condi&ccedil;&atilde;o de col&ocirc;nia do Brasil, segundo o pr&oacute;prio Ramos &#8211; do que <st2:hm>gerar<\/st2:hm> o conhecimento para e a <st2:hm>partir<\/st2:hm> da pr&oacute;pria terra (p.19). Isto deriva de uma dupla domina&ccedil;&atilde;o, sutil e complexa, onde o intelectual n&atilde;o se identifica e n&atilde;o se posiciona na condi&ccedil;&atilde;o do colonizado. O acesso ao idioma do colonizador (o bilinguismo), gerando o culto pelo <st2:hdm>falar<\/st2:hdm> bem, <st2:hdm>falar<\/st2:hdm> bonito; a duplicidade psicol&oacute;gica de colonizador-colonizado (e\/ou de colonizado aceito e com tr&acirc;nsito na metr&oacute;pole, ousar&iacute;amos <st2:hm>dizer<\/st2:hm> que dotado de habitus da metr&oacute;pole) n&atilde;o permitiria, em definitivo, a este intelectual se <st2:hm>posicionar<\/st2:hm> a <st2:hm>partir<\/st2:hm> de uma identifica&ccedil;&atilde;o com a condi&ccedil;&atilde;o objetiva e dotada de mecanismo complexa que ele mesmo sofre, a de domina&ccedil;&atilde;o colonizadora (p.18).<\/p>\n<p>Gostar&iacute;amos de <st2:hm>observar<\/st2:hm> a extrema vitalidade de ambas afirma&ccedil;&otilde;es, tomando como par&acirc;metro os pressupostos te&oacute;ricos apontados por Santos, por n&oacute;s utilizados na Introdu&ccedil;&atilde;o. Citando a Guerreiro Ramos, podemos <st2:hm>fazer<\/st2:hm> a primeira premissa. A de que na constitui&ccedil;&atilde;o das elites produtoras das ci&ecirc;ncias sociais latino-americanas em geral e brasileiras em espec&iacute;fico, variou o grau de coloniza&ccedil;&atilde;o, mas n&atilde;o a natureza de col&ocirc;nia e de produtores de conhecimento a <st2:hm>partir<\/st2:hm> de uma condi&ccedil;&atilde;o de duplicidade. A segunda premissa tamb&eacute;m passa por Ramos, e se d&aacute; sobre uma base de inten&ccedil;&atilde;o. &Eacute; a carga de intencionalidade o primeiro passo (objetivo( para <st2:hm>alterar<\/st2:hm> a condi&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m objetiva do posicionamento e da identifica&ccedil;&atilde;o do soci&oacute;logo com o seu objeto de an&aacute;lise (sua pr&oacute;pria sociedade). A terceira premissa, passa por Ianni. Se o soci&oacute;logo &#8211; ou o intelectual membro de uma elite produtora das ci&ecirc;ncias humanas &#8211; parte de uma base que a sociedade est&aacute; em equil&iacute;brio e suas condi&ccedil;&otilde;es vigentes s&atilde;o dadas; se este mesmo intelectual observa aos problemas sociais (prefer&iacute;amos <st2:hm>afirmar<\/st2:hm> quest&otilde;es sociais) a <st2:hm>partir<\/st2:hm> de uma perspectiva das classes dominantes e dirigentes, toda e qualquer convuls&atilde;o e tensionamento ser&aacute; vista como an&ocirc;mala, e seu receitu&aacute;rio ser&aacute; o de cura para esta anomalia. Os m&eacute;todos de trabalho, as premissas e pressupostos partir&atilde;o deste mesmo prop&oacute;sito, <st2:hm>corrigir<\/st2:hm> uma anomalia, <st2:hdm>acomodar<\/st2:hdm> as tens&otilde;es de acordo com a perspectiva deste intelectual. Sendo que este trabalhador especializado, j&aacute; est&aacute; hegemonicamente posicionado a <st2:hm>partir<\/st2:hm> das classes dominantes, al&ccedil;ado &agrave; categoria de t&eacute;cnico do status quo, especialista em <st2:hm>prescrever<\/st2:hm> esta acomoda&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Estruturalmente, no per&iacute;odo do Estado-desenvolvimentista e da bipolaridade, ambos autores afirmam <st2:hm>haver<\/st2:hm> a rela&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua de situa&ccedil;&atilde;o colonial do Brasil, e da estrutura complexa de domina&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e apropria&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica. Como parte das elites locais, ou sendo mais preciso, na constitui&ccedil;&atilde;o de sua pr&oacute;pria elite intelectual com fun&ccedil;&otilde;es neste Estado semi-colonizado, os intelectuais das ci&ecirc;ncias humanas teriam uma posi&ccedil;&atilde;o no m&iacute;nimo d&uacute;bia (ao menos enquanto produtores de <st2:hm>saber<\/st2:hm> e conhecimento sobre sua pr&oacute;pria sociedade) e s&oacute; romperiam com esta duplicidade se exercessem a inten&ccedil;&atilde;o de <st2:hm>romper<\/st2:hm> com a pr&oacute;pria condi&ccedil;&atilde;o. Toda a produ&ccedil;&atilde;o, metodologia e escolha de temas derivariam desta condi&ccedil;&atilde;o e destas tens&otilde;es:<\/p>\n<p>&#8211; col&ocirc;nia X na&ccedil;&atilde;o (Ramos)<\/p>\n<p>&#8211; cr&iacute;tica X hegemonia dominante (Ianni).<\/p>\n<p><span style=\"mso-tab-count: 1\">A continuidade da cr&iacute;tica de Ramos se debru&ccedil;a sobre o fen&ocirc;meno do soci&oacute;logo brasileiro produzindo a <st2:hm>partir<\/st2:hm> do referencial da metr&oacute;pole. O autor tipifica, para a &eacute;poca de sua obra, os seguintes fen&ocirc;menos: simetria <st4:sinonimos>conceitual<\/st4:sinonimos> e sincretismo a <st2:hm>partir<\/st2:hm> do referencial dos pa&iacute;ses centrais; dogmatismo na aceita&ccedil;&atilde;o de argumentos de autoridade (desde o centro emitidos e por eles reproduzido) e\/ou na reprodu&ccedil;&atilde;o de textos de autores consagrados; dedutivismo , fruto do dogmatismo, tomando os pressupostos estrangeiros como ponto de partida explicativo para os fen&ocirc;menos locais-nacionais, assim a conting&ecirc;ncia hist&oacute;rica2 fica abstra&iacute;da substitu&iacute;da esta por categorias absolutizadas e geradas fora desta mesma conting&ecirc;ncia; aliena&ccedil;&atilde;o sendo vinda do fato dos estudos aqui produzidos n&atilde;o serem fruto de intencionalidade, de <st2:hdm>fortalecer<\/st2:hdm> ou <st2:hm>promover<\/st2:hm> a autodetermina&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s dependente (obs. nossa, contradi&ccedil;&atilde;o que o autor coloca como essencial e priorit&aacute;ria); inautenticidade como resultante das categorias listadas anteriormente, uma vez que o soci&oacute;logo brasileiro n&atilde;o &eacute; produtor das categorias que utiliza, e pouco maneja estas mesmas categorias e processos empregados (Ramos, 1957, pp.19-23).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"mso-tab-count: 1\">Tal listagem, tipifica e aponta com vigor, o fen&ocirc;meno da dupla condi&ccedil;&atilde;o (de colonizado com mentalidade gerada e voltada para a metr&oacute;pole), da maioria dos produtores de estudos sociol&oacute;gicos daquele momento hist&oacute;rico. Redundante seria <st2:hm>afirmar<\/st2:hm>, segundo o pr&oacute;prio, que o mesmo recebeu cr&iacute;ticas de v&aacute;rios lados, encaixando o perfil em muitos de seus colegas. Pol&ecirc;micas &agrave; parte, somente as condi&ccedil;&otilde;es de intento de progresso, intencionalidade de busca de autodetermina&ccedil;&atilde;o (mesmo que restritas ao plano econ&ocirc;mico) nacional, &eacute; que gerariam as condi&ccedil;&otilde;es de possibilidade para o <st2:hm>emergir<\/st2:hm> de uma (sociologia em mangas de camisa(.Seria absurdo <st2:hm>taxar<\/st2:hm> esta premissa de (estruturalista(, mesmo porque Ramos ressalta permanentemente o papel da perspectiva e da intencionalidade (profanamente poder&iacute;amos <st2:hm>chamar<\/st2:hm> de vontade pol&iacute;tica), como essencial na produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica. Esta premissa tem fundamentos de <st2:hm>romper<\/st2:hm> com a estrutura da natureza das rela&ccedil;&otilde;es de depend&ecirc;ncia, a varia&ccedil;&atilde;o de grau na natureza colonial permanente em nosso pa&iacute;s. Uma vez que este autor n&atilde;o ressalta a perspectiva de classe como contradi&ccedil;&atilde;o priorit&aacute;ria, &eacute; ent&atilde;o a intencionalidade de autodetermina&ccedil;&atilde;o nacional o fator que precede a possibilidade de uma produ&ccedil;&atilde;o sociol&oacute;gica brasileira e com autenticidade.<\/span><\/p>\n<p>A divis&atilde;o de correntes da sociologia latino-americana, j&aacute; no plano te&oacute;rico-cient&iacute;fico, passa, segundo Ianni, pela intencionalidade do ator (neste caso, o produtor cient&iacute;fico brasileiro ou de algum outro pa&iacute;s da regi&atilde;o). O que posteriormente, com olhos de hoje, poder&iacute;amos <st2:hm>constatar<\/st2:hm> como a forma&ccedil;&atilde;o de uma elite de cientistas sociais (com passado ensa&iacute;sta e al&ccedil;ado &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de cient&iacute;fica pela incorpora&ccedil;&atilde;o de m&eacute;todos e premissas de pa&iacute;ses centrais), elite esta surgindo e se desenvolvendo dividida, de acordo com as contradi&ccedil;&otilde;es mais gritantes naquele momento hist&oacute;rico. Estas contradi&ccedil;&otilde;es em v&aacute;rios pa&iacute;ses (o nosso, em parte, inclusive),entre uma oposi&ccedil;&atilde;o direta de uma parte desta (elite( para com os mandat&aacute;rios de regime de for&ccedil;a (fra&ccedil;&atilde;o de classe dirigente) &agrave; frente do Estado-nacional.<\/p>\n<p>Ianni discorre com precis&atilde;o a respeito da institucionaliza&ccedil;&atilde;o definitiva da sociologia em nosso continente. Come&ccedil;a pela periodiza&ccedil;&atilde;o convencionada, cujas distin&ccedil;&otilde;es entre fases pr&eacute;-cient&iacute;fica, de institucionaliza&ccedil;&atilde;o e propriamente cient&iacute;fica s&atilde;o como um artif&iacute;cio descritivo, que muitas vezes reduziriam o pensamento criador da ci&ecirc;ncia (Ianni, 1971,p.18). Se o autor afirma que o ato da descoberta &eacute; um ato de imagina&ccedil;&atilde;o criadora (p.20), perguntamos como este pode <st2:hm>ser<\/st2:hm> exercido e desenvolvido, se os argumentos de autoridade classificam como ensa&iacute;sticos, especulativos, pr&eacute; ou para-cient&iacute;ficos e de filosofia social (p.19) a modelos desvalorizados? E como podem jovens na profiss&atilde;o (ao menos jovens na &eacute;poca), <st2:hm>desenvolver<\/st2:hm> uma intelig&ecirc;ncia criadora se aquilo que os baliza metodologicamente os impede de <st2:hdm>exercer<\/st2:hdm> responsavelmente a imagina&ccedil;&atilde;o sociol&oacute;gica? Reiteramos a d&uacute;vida, de como se faz poss&iacute;vel <st2:hm>romper<\/st2:hm> com a depend&ecirc;ncia cient&iacute;fica se as regras de (ci&ecirc;ncia(, o <st2:hm>poder<\/st2:hm> de <st2:hm>taxar<\/st2:hm> de local-parcial-ensa&iacute;stico e\/ou especulativo prov&ecirc;m (e na &eacute;poca provinham) de categorias, modelos, m&eacute;todos e premissas alien&iacute;genas da realidade latino-americana? Caso ocorresse a intencionalidade do produtor, mesmo que dotado destes modelos e m&eacute;todos, a contradi&ccedil;&atilde;o entre vontade e instrumental de realiza&ccedil;&atilde;o seria gritante.<\/p>\n<p>Seguindo al&eacute;m, na &uacute;ltima fase de <st2:hm>tornar<\/st2:hm> este <st2:hm>saber<\/st2:hm> cient&iacute;fico definitivamente, entra o tema do soci&oacute;logo como t&eacute;cnico. &Eacute; este o trabalho que ir&aacute;, em &uacute;ltima an&aacute;lise, <st2:hm>validar<\/st2:hm> ou <st2:hdm>invalidar<\/st2:hdm> uma configura&ccedil;&atilde;o social (p.20). Posteriormente, &eacute; este t&eacute;cnico, funcion&aacute;rio com responsabilidades em projetos governamentais ou privados, a <st2:hm>implementar<\/st2:hm> determinadas medidas e <st2:hm>gerenciar<\/st2:hm> sua execu&ccedil;&atilde;o. Enfim, a sociedade n&atilde;o abrindo m&atilde;o do instrumental sociol&oacute;gico, o qualifica como tecnico-cient&iacute;fico, o profissionaliza, ressaltando assim a preocupa&ccedil;&atilde;o com o aumento das tens&otilde;es e antagonismos complexos dos pa&iacute;ses latino-americanos. Entramos em um problema de rela&ccedil;&atilde;o-integra&ccedil;&atilde;o entre sujeito e objeto, e tamb&eacute;m de produtor de conhecimento e destino da produ&ccedil;&atilde;o (lembrando a categoria de ci&ecirc;ncia-consultoria empregada por Santos). Compreendemos portanto que o tipo de produ&ccedil;&atilde;o derivada da integra&ccedil;&atilde;o sujeito-objeto varia tanto conforme o tipo de estudo e o tipo de ator que o encomenda (e tamb&eacute;m o executa), assim como a carga de intencionalidade de contratante e contratado. O objeto e o tema escolhido reflete esta inten&ccedil;&atilde;o, tanto dos produtores dotados de alguma autonomia (supondo isto em um pa&iacute;s que passou pela reforma universit&aacute;ria) como da composi&ccedil;&atilde;o de centros\/redes de centros de pesquisa e excel&ecirc;ncia (como a CLACSO &#8211; Conselho Latino-Americano de Ci&ecirc;ncias Sociais3<\/p>\n<p>Nos parece &oacute;bvio que o per&iacute;odo, o momento hist&oacute;rico cujos textos aqui citados de Ramos (1957) e Ianni (1971), tenham sido de intensa disputa e vontade pol&iacute;tica de <st2:hm>poder<\/st2:hm> <st2:hm>estudar<\/st2:hm> os temas latino-americanos, atrav&eacute;s de categorias de rigor mas pr&oacute;prias, geradas desde a realidade onde se quer <st2:hm>incidir<\/st2:hm> sobre. &Eacute; &oacute;bvio que sendo este artigo a respeito das ci&ecirc;ncias sociais na Am&eacute;rica Latina e sua institucionaliza&ccedil;&atilde;o, ficam automaticamente exclu&iacute;dos os conhecimentos e categorias de rigor gerados com esta mesma carga de inten&ccedil;&otilde;es (<st2:hm>incidir<\/st2:hm> sobre a pr&oacute;pria realidade), mas que n&atilde;o pertencem ao universo acad&ecirc;mico-oficial e muitas vezes estatal (que &eacute; este sobre o qual discorremos). Ainda assim vale a lembran&ccedil;a que o desejo de <st2:hm>incidir<\/st2:hm> sobre uma determinada realidade empregando m&eacute;todos e categorias de rigor (neste caso sociol&oacute;gicas,mas poderiam <st2:hm>ser<\/st2:hm> de outra natureza, inclusive das ci&ecirc;ncias f&iacute;sicas e materiais) &eacute; o exerc&iacute;cio de vontade pol&iacute;tica, aplic&aacute;vel a qualquer coletividade humana dotada desta vontade e de relativa capacidade para sua execu&ccedil;&atilde;o4.<\/p>\n<p>Considerando o momento hist&oacute;rico vivido, a institucionaliza&ccedil;&atilde;o das ci&ecirc;ncias sociais acompanhava um momento de crescimento econ&ocirc;mico, de desenvolvimento para <st2:hm>romper<\/st2:hm> com a depend&ecirc;ncia, de (motiva&ccedil;&atilde;o nacionalista, suscitam as transforma&ccedil;&otilde;es de super-estrutura em nosso pa&iacute;s( (Ramos, p.33). Este mesmo autor ressalta antes a import&acirc;ncia da historicidade no pensamento, chegando portanto o momento hist&oacute;rico de <st2:hm>romper<\/st2:hm> com a depend&ecirc;ncia, se institucionalizando em uma economia expansiva, uma gera&ccedil;&atilde;o de soci&oacute;logos profissionais em sintonia com a inten&ccedil;&atilde;o de <st2:hdm>conhecer<\/st2:hdm> e <st2:hdm>transformar<\/st2:hdm> a pr&oacute;pria realidade. Ou seja, seria a contradi&ccedil;&atilde;o maior na forma de <st2:hm>contribuir<\/st2:hm> com a autodetermina&ccedil;&atilde;o e desenvolvimento, <st2:hm>romper<\/st2:hm> com o bin&ocirc;mio de ci&ecirc;ncia-depend&ecirc;ncia cient&iacute;fica.<\/p>\n<p>No que diz respeito &agrave; &ldquo;cultura da depend&ecirc;ncia&rdquo;, Ianni aponta algumas caracter&iacute;sticas limitadoras da sociologia latino-americana de ent&atilde;o: o car&aacute;ter externo de grande parte da problem&aacute;tica apresentada; implica&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas inerentes &agrave; ado&ccedil;&atilde;o, de problem&aacute;tica muitas vezes mal conceitualizada, secund&aacute;ria ou simplesmente externa; interpreta&ccedil;&atilde;o insatisfat&oacute;ria, superficial ou err&ocirc;nea de nossas sociedades, fruto da ado&ccedil;&atilde;o de problem&aacute;ticas externas e\/ou de falta de esp&iacute;rito cr&iacute;tico; e por fim, as rela&ccedil;&otilde;es mesmo entre ci&ecirc;ncia e pol&iacute;tica, conforme expressas na produ&ccedil;&atilde;o sociol&oacute;gica (p.40). Segundo este autor, estas caracter&iacute;sticas seriam tamb&eacute;m resultantes da flutua&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica de acordo com o (prest&iacute;gio acad&ecirc;mico( de intelectuais em voga nos pa&iacute;ses de capitalismo central. Uma afirma&ccedil;&atilde;o quase impressionista, revela a fundo uma (cultura de depend&ecirc;ncia(, onde o posicionamento duplo se expressa desde a fonte de estudo, o <st2:hm>apresentar<\/st2:hm> de temas e problem&aacute;ticas, o instrumental te&oacute;rico-metodol&oacute;gico utilizado e a execu&ccedil;&atilde;o posterior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para n&atilde;o cairmos num universo de redund&acirc;ncia, onde apresentar&iacute;amos uma s&eacute;rie de argumentos destes dois autores, al&eacute;m dos j&aacute; apresentados, apenas para <st2:hm>ilustrar<\/st2:hm> um ponto de vista assemelhado entre Ramos e Ianni (ao menos no texto destas obras), e por n&oacute;s compartilhado, gostar&iacute;amos de <st2:hm>tecer<\/st2:hm> alguns coment&aacute;rios, fruto de racioc&iacute;nio l&oacute;gico, e que podem <st2:hm>contribuir<\/st2:hm> para o tipo de estudo onde este artigo se enquadra. No processo de inaugura&ccedil;&atilde;o, fase ensa&iacute;stica pr&eacute;-cient&iacute;fica, institucionaliza&ccedil;&atilde;o e al&ccedil;amento &agrave; categoria de profissionalismo cient&iacute;fico, e todas estas etapas, ambos autores afirmam premissas para a constru&ccedil;&atilde;o de uma ci&ecirc;ncia aut&oacute;ctone e independente.<\/p>\n<p>Primeiro e antes de nada, a inten&ccedil;&atilde;o, a vontade pol&iacute;tica de <st2:hdm>exercer<\/st2:hdm> esta colabora&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica para o desenvolvimento nacional. A intencionalidade pode <st2:hm>ser<\/st2:hm> um corretor dos problemas de perspectiva apresentado a esta elite. Explico, &eacute; a posi&ccedil;&atilde;o d&uacute;bia dos intelectuais da col&ocirc;nia, o fato de muitos serem dotados de habitus da metr&oacute;pole, n&atilde;o os posiciona a <st2:hm>partir<\/st2:hm> do ponto de vista e de vida cotidiana do objeto. Sendo o objeto a sua pr&oacute;pria sociedade, uma certa &ldquo;miopia&rdquo; exercem os poderes coloniais por sobre o produtor de pensamento cient&iacute;fico-sociol&oacute;gico. Seria ent&atilde;o a intencionalidade o primeiro fator para <st2:hm>gerar<\/st2:hm> a perspectiva apropriada, a inten&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m de <st2:hm>estar<\/st2:hm> no esfor&ccedil;o de autodetermina&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o apenas como reprodutor de uma ci&ecirc;ncia desinteressada, de matriz ocidental e por condi&ccedil;&otilde;es de hegemonia, auto proclamada universal (conforme as premissas de Santos que incorporamos). Dentro deste universo, as transforma&ccedil;&otilde;es estruturais gerariam as condi&ccedil;&otilde;es m&iacute;nimas para que esta intencionalidade se manifeste, e a <st2:hm>partir<\/st2:hm> desta, instrumental te&oacute;rico e metodologia de pesquisa apropriada.<\/p>\n<p>O que diferenciaria a interpreta&ccedil;&atilde;o de Ianni para a de Ramos, &eacute; a carga de contradi&ccedil;&otilde;es que ambos priorizam. Ramos ressalta a quest&atilde;o da depend&ecirc;ncia e o rompimento com a natureza de condi&ccedil;&atilde;o de col&ocirc;nia (onde se varia, historicamente, apenas o grau e n&atilde;o a natureza das rela&ccedil;&otilde;es de submiss&atilde;o); Ianni n&atilde;o nega estas condi&ccedil;&otilde;es mas entra no tema da complexifica&ccedil;&atilde;o social da Am&eacute;rica Latina, no <st2:hm>efervescer<\/st2:hm> e da tens&atilde;o entre as classes despossu&iacute;das e elites locais-nacionais possuidoras e aponta dois movimentos simult&acirc;neos: a domina&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e a apropria&ccedil;&atilde;o (explora&ccedil;&atilde;o) econ&ocirc;mica. Tamb&eacute;m posiciona a esta elite econ&ocirc;mica e dirig&ecirc;ncia pol&iacute;tica como alinhada com a depend&ecirc;ncia, e questiona qual o papel do soci&oacute;logo como (t&eacute;cnico(, a servi&ccedil;o de quem est&aacute; o instrumental sociol&oacute;gico gerado, mesmo que aut&oacute;ctone e apropriado pelos latino-americanos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por fim, nesta parte do artigo, chegamos ao ponto rupturista, ao menos de ruptura de <st4:sinonimos>episteme<\/st4:sinonimos>. Mesmo que tamb&eacute;m fruto da &eacute;poca, do momento hist&oacute;rico vivido (como, ali&aacute;s, todo o pensamento), Ramos afirma uma sociologia militante, uma sociologia a servi&ccedil;o e como instrumental de autodetermina&ccedil;&atilde;o (p.88). Questiona a transplanta&ccedil;&atilde;o de estruturas pol&iacute;ticas (assim como fez com as teorias sociol&oacute;gicas importadas) e as divide entre &agrave;quelas predat&oacute;rias (como a base institucional que fez a independ&ecirc;ncia dos pa&iacute;ses latino-americanos) e as acelerativas (como classifica a Comiss&atilde;o Econ&ocirc;mica para a Am&eacute;rica Latina e Caribe, CEPAL5, &oacute;rg&atilde;o de consultoria da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, ONU). Ianni de sua parte, afirma concluindo a necessidade do estudo da sociologia da depend&ecirc;ncia. Nesta &aacute;rea, observa a necessidade de <st2:hdm>aprofundar<\/st2:hdm> o modo como se constitui e desenvolve a depend&ecirc;ncia estrutural (p.183), e avan&ccedil;a em dire&ccedil;&atilde;o aos estudos sobre o <st2:hm>acionar<\/st2:hm> imperialista. &Eacute; o imperialismo que produz as condi&ccedil;&otilde;es de depend&ecirc;ncia estrutural, e simultaneamente, dialeticamente, cria as condi&ccedil;&otilde;es de sua nega&ccedil;&atilde;o (p.183). Se pelo racioc&iacute;nio l&oacute;gico de ambos autores, o qual compartilhamos nesta premissa, &eacute; a intencionalidade e a vontade pol&iacute;tica que geram as condi&ccedil;&otilde;es pr&eacute;vias de busca por um instrumental apropriado, &eacute; por tanto a inten&ccedil;&atilde;o de opor-se ao imperialismo e <st2:hm>compreender<\/st2:hm> os mecanismos de nossa depend&ecirc;ncia o gerador as condi&ccedil;&otilde;es de perspectiva do soci&oacute;logo enquanto t&eacute;cnico-cient&iacute;fico dotado desta tarefa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Assim, engajamento e posi&ccedil;&atilde;o individual de acordo com os interesses coletivos, seriam os passos necess&aacute;rios para a cria&ccedil;&atilde;o de uma ci&ecirc;ncia aut&ocirc;noma e nacional. O posicionamento interno, em suas pr&oacute;prias sociedades, destas elites (n&atilde;o apenas a nacional, mas em dois exemplos latino-americanos), veremos em parte na segunda metade do artigo, que &eacute; o tema a <st2:hm>seguir<\/st2:hm>.<\/p>\n<p>3) Acercamento e afastamento dos poderes centrais<\/p>\n<p>Esta segunda parte do artigo visa <st2:hdm>expor<\/st2:hdm> o posicionamento de duas elites intelectuais latino-americanas, a argentina e a mexicana, especialmente dos produtores de pensamento sociol&oacute;gico. Nos referimos a este posicionamento tanto nas estruturas de <st2:hm>poder<\/st2:hm> formal, como de grau de institucionaliza&ccedil;&atilde;o e autonomia universit&aacute;ria. Assim, a estabilidade levaria a uma maior profissionaliza&ccedil;&atilde;o, mas a fun&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnico-cient&iacute;fica estaria a servi&ccedil;o das premissas expostas por Ianni acima. Resultante de tudo isto, o produto destes intelectuais, que s&atilde;o os estudos e pesquisas a respeito de suas sociedades.<\/p>\n<p>J&aacute; na parte conclusiva, arremataremos com trechos breves de Celso Furtado, quando este economista exp&otilde;e a base central de nossa argumenta&ccedil;&atilde;o: o posicionamento de uma elite somado &agrave;s premissas te&oacute;ricas influencia de modo decis&oacute;rio a exist&ecirc;ncia ou n&atilde;o de teorias e projetos de execu&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, macro-econ&ocirc;micas e de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Dos casos pelos quais passamos rapidamente, Argentina e M&eacute;xico, observamos alguns temas de fundo que afloram destes exemplos hist&oacute;ricos. Tomando por base as afirma&ccedil;&otilde;es da parte 2 deste artigo, reconhecemos a duplicidade de papel e de perspectiva do intelectual latino-americano. Estando este duplamente posicionado, bil&iacute;ngue em rela&ccedil;&atilde;o ao colonizador, com habitus da metr&oacute;pole; reconhecendo tamb&eacute;m que este conceito remete &agrave; uma estrutura que tamb&eacute;m &eacute; estruturante, ainda que n&atilde;o totalizante, apontamos algumas quest&otilde;es:<\/p>\n<p>&#8211; Seria neste caso, a estabilidade do sistema universit&aacute;rio, uma certa neutralidade do mesmo, caracter&iacute;sticas ressaltadas como positivas e necess&aacute;rias pela maioria dos autores, tamb&eacute;m uma forma de <st2:hm>manter<\/st2:hm> esta dubiedade fora do alcance das press&otilde;es nacionais?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o seriam os conceitos de rigor e profissionalismo levados &agrave; confus&atilde;o, como uma certa defesa de um campo intelectual com grau de autonomia, ou ao menos de campo perif&eacute;rico, onde estas contradi&ccedil;&otilde;es do produtor de ci&ecirc;ncia humana e suas matrizes te&oacute;rico-epistemol&oacute;gicas (importadas, ex&oacute;genas), estariam a salvo das press&otilde;es advindas das contradi&ccedil;&otilde;es de Centro-Periferia?<\/p>\n<p>&#8211; Supondo que uma contra-hegemonia intelectual seja gestada no seio de uma rede nacional e aut&ocirc;noma de universidades. Supondo o reconhecimento desta amea&ccedil;a da parte do Estado, agente desta dubiedade como pol&iacute;tica central e submissa aos des&iacute;gnios centrais. N&atilde;o seria mais que &oacute;bvio <st2:hm>esperar<\/st2:hm> a perda desta autonomia e elevados graus de repress&atilde;o de acordo com o n&iacute;vel de amea&ccedil;a representado por esta contra-hegemonia?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entendemos estas quest&otilde;es como fundamentais para a compreens&atilde;o da institucionaliza&ccedil;&atilde;o ou n&atilde;o das ci&ecirc;ncias sociais em alguns pa&iacute;ses latino-americanos. Nos exemplos argentinos, a diferen&ccedil;a &eacute; gritante. Ainda que n&atilde;o venhamos a nos <st2:hdm>aprofundar<\/st2:hdm> nestes processos, vemos dois fatores de <st4:sinonimos>sobreviv&ecirc;ncia<\/st4:sinonimos> da autonomia universit&aacute;ria e da consequente estabilidade necess&aacute;ria para o desenvolvimento cumulativo destas ci&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>A primeira &eacute; posicional, do papel dos intelectuais nos postos-chave do Estado argentino e mexicano. Ainda que no pa&iacute;s vizinho foi a gera&ccedil;&atilde;o de 1870, de grandes ensa&iacute;stas e intelectuais uma das mais importantes da rep&uacute;blica, os intelectuais n&atilde;o chegaram a se <st2:hm>afirmar<\/st2:hm> como fra&ccedil;&atilde;o de classe dirigente. O mesmo n&atilde;o se pode <st2:hm>dizer<\/st2:hm> do M&eacute;xico e muito menos do caso brasileiro. Tanto aqui como no pa&iacute;s vizinho dos Estados Unidos da Am&eacute;rica, os intelectuais v&ecirc;m assegurando seu papel de dirigentes da rep&uacute;blica, em distintos n&iacute;veis. No M&eacute;xico inaugurado pelo regime do Partido Revolucion&aacute;rio Institucional (PRI), o Estado, o Partido e a constru&ccedil;&atilde;o social se tornam necessidades centrais para este modelo de domina&ccedil;&atilde;o. A dicotomia e o afastamento entre os intelectuais, o corpo universit&aacute;rio priista, viria a se <st2:hm>dar<\/st2:hm> a <st2:hm>partir<\/st2:hm> dos anos 1960, voltando depois a aproximar-se, novamente com a valoriza&ccedil;&atilde;o e dota&ccedil;&atilde;o de verbas para este mesmo setor. Poder&iacute;amos <st2:hm>ousar<\/st2:hm> <st2:hm>dizer<\/st2:hm> que o movimento do Estado de aproximar-se, pode hipoteticamente, <st2:hm>gerar<\/st2:hm> uma acomoda&ccedil;&atilde;o do tensionamento entre as classes dominantes e dirigentes e esta fra&ccedil;&atilde;o de classe que uma vez revalorizada, torna-se dirigente tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>A segunda quest&atilde;o aborda um tema de fundo, permanente desde as fases ensa&iacute;sticas, tanto do pensamento hist&oacute;rico como do sociol&oacute;gico. Nota-se tanto no M&eacute;xico como na Argentina, que o afastamento em rela&ccedil;&atilde;o aos poderes centrais e os intelectuais de sociologia, &eacute; tamb&eacute;m o fruto de um novo per&iacute;odo de estudos. A obra cl&aacute;ssica de Pablo Gonz&aacute;lez Casanova, La democracia en Mexico, inaugura e abre a perspectiva para demandas de estudos n&atilde;o mais sobre o (<st2:hm>ser<\/st2:hm> nacional( mas sim sobre a realidade nacional. Substitui a abstra&ccedil;&atilde;o por pesquisa te&oacute;rica aplicada na realidade, munida de dados emp&iacute;ricos. Enfim, de realidade lida e constru&iacute;da a <st2:hm>partir<\/st2:hm> da vontade de <st2:hm>compreender<\/st2:hm> a pr&oacute;pria sociedade. O mesmo ocorre com os intelectuais argentinos. &Eacute; a aproxima&ccedil;&atilde;o com o nacionalismo popular (ainda que de cunho peronista de esquerda), que faz a metodologia de pesquisa voltar-se para a (descoberta( do pa&iacute;s interior. O (<st2:hm>ser<\/st2:hm> nacional( passa a <st2:hm>ser<\/st2:hm> redescoberto na intelectualidade argentina defensora da autonomia universit&aacute;ria, pelo corpo intelectual que seria o pr&oacute;prio partido da reforma. Veremos a <st2:hm>seguir<\/st2:hm> estas duas quest&otilde;es de forma um pouco mais precisa.<\/p>\n<p>A obra de S&iacute;lvia Sigal (2002), (Intelectuais e <st2:hm>Poder<\/st2:hm> na Argentina. A d&eacute;cada de sessenta( (tradu&ccedil;&atilde;o nossa), &eacute; a que tomamos como refer&ecirc;ncia. Esta argentina radicada na Fran&ccedil;a apresenta como problema central de pesquisa a representa&ccedil;&atilde;o do discurso dos intelectuais do pa&iacute;s, a reconvers&atilde;o dos temas gerais e do sujeito coletivo, para o retorno aos interesses individuais. Aprofundando, os defensores e portadores-geradores dos discursos da realidade nacional, interpreta&ccedil;&atilde;o concreta da busca do (<st2:hm>ser<\/st2:hm> nacional( (e sua consequente emancipa&ccedil;&atilde;o), seriam atendidos pelo espa&ccedil;o que a democracia legal os concede. Assim, reconverteriam seu discurso de Povo, Na&ccedil;&atilde;o e Revolu&ccedil;&atilde;o para os interesses do indiv&iacute;duo numa sociedade liberal: a Lei, os Direitos Humanos e a Consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>O que distinguiria o processo argentino para outras sociedades do ocidente (que abordamos como Periferia ou Semi-Periferia, ou seja, de ocidente perif&eacute;rico), foi a ades&atilde;o de intelectuais de s&oacute;lida forma&ccedil;&atilde;o marxista aos temas nacionais, afiliando-se ao nacionalismo popular em sua vers&atilde;o peronista de esquerda em sua maioria. Uma outra marca deste processo foi a ades&atilde;o desta gera&ccedil;&atilde;o de intelectuais &agrave; uma op&ccedil;&atilde;o rupturista, e muitas das vezes n&atilde;o apenas em discurso, mas de fato. A associa&ccedil;&atilde;o de intelectuais ao seu povo, sem retic&ecirc;ncias (segundo a autora), e, por conseq&uuml;&ecirc;ncia, aos seus projetos de emancipa&ccedil;&atilde;o. A representa&ccedil;&atilde;o do pol&iacute;tico na Argentina, seria t&atilde;o ou mais concreta do que a pr&oacute;pria pol&iacute;tica efetiva. A viol&ecirc;ncia como linguagem pol&iacute;tica, tamb&eacute;m foi largamente incorporada por estes intelectuais.<\/p>\n<p>No que diz respeito da universidade argentina, e das ci&ecirc;ncias sociais propriamente ditas, a quest&atilde;o chave seriam as garantias da Reforma de C&oacute;rdoba e a consequente estabilidade que geraria profissionaliza&ccedil;&atilde;o e institucionaliza&ccedil;&atilde;o. Um paralelo torna-se imperativo de <st2:hm>ser<\/st2:hm> feito com o sistema pol&iacute;tico. Estabilidade institucional tanto no Legislativo como no Executivo (p.1), estabilidade para o exerc&iacute;cio da profiss&atilde;o de t&eacute;cnico-cient&iacute;fico de humanidades. O retorno da democracia em 1983, a derrota do peronismo nas urnas e o fato de tanto a Uni&atilde;o C&iacute;vica Radical (UCR) como o Partido Justicialista (com hegemonia do peronista de direita) apresentarem espa&ccedil;os em postos-centrais em seus partidos e governos eleitos, inauguraria assim uma nova fase da rela&ccedil;&atilde;o entre intelectuais e a pol&iacute;tica no pa&iacute;s vizinho. Se a (nova fase( &eacute; a incorpora&ccedil;&atilde;o e a estabilidade, por associa&ccedil;&atilde;o l&oacute;gica, a fase anterior, anterior mesmo ao regime de 1976, &eacute; a instabilidade e afastamento dos intelectuais das estruturas formais de <st2:hm>poder<\/st2:hm>.<\/p>\n<p>Uma vez afastados do <st2:hm>poder<\/st2:hm> central, a autora pergunta, qual foi o papel do pol&iacute;tico para os intelectuais argentinos (p.2)? E, como e porque a uma fra&ccedil;&atilde;o destes, conservadores &eacute; certo, lhes cabia a difus&atilde;o de uma determinada vis&atilde;o da hist&oacute;ria argentina que ganhava propor&ccedil;&otilde;es de programa de governo (p.2)? Uma primeira conclus&atilde;o que se pode <st2:hdm>ter<\/st2:hdm> &eacute; que o papel de reconstru&ccedil;&atilde;o permanente da hist&oacute;ria do pa&iacute;s, ganhando contornos de programa de a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tico (n&atilde;o apenas de governos, mas de regimes, partidos e organiza&ccedil;&otilde;es pol&iacute;tico-militares), &eacute; um papel central para os intelectuais argentinos. A constru&ccedil;&atilde;o de mitos unificadores e a elabora&ccedil;&atilde;o de identidade coletiva, para todos os distintos matizes da pol&iacute;tica argentina, a fun&ccedil;&atilde;o de grupos de escritores em um pa&iacute;s alfabetizado, estas seriam e s&atilde;o formas da sociedade <st2:hm>compreender<\/st2:hm> e <st2:hm>fazer<\/st2:hm> a releitura de si mesma (p.3).<\/p>\n<p>Assim, o modus operandi de grande parte da intelectualidade argentina &eacute; a dota&ccedil;&atilde;o de um sentido pol&iacute;tico a algo vagamente especializado como o manejo do discurso e da cultura. Ganha assim um car&aacute;ter misto entre o cultural e o pol&iacute;tico (p.9), isto permite <st2:hm>apontar<\/st2:hm> fatores explicativos para o itiner&aacute;rio ideol&oacute;gico e pol&iacute;tico de grupos de intelectuais deste pa&iacute;s. Pela negativa, deduz-se o impacto e a rejei&ccedil;&atilde;o entre os intelectuais de uma motiva&ccedil;&atilde;o anti intelectual como a peronista do primeiro governo ((alpargatas sim, livros n&atilde;o() e o mesmo ocorrendo no interior deste campo perif&eacute;rico, com a metodologia de maior precis&atilde;o e cient&iacute;fica de Germani, sua (objetividade( e inclusive as pol&ecirc;micas de financiamento externo para pesquisas. A progress&atilde;o desta dicotomia levou a uma associa&ccedil;&atilde;o j&aacute; preconizada por Ramos, a dos m&eacute;todos com os intuitos, das premissas te&oacute;rico-epistemol&oacute;gicas e a sociedade colonial onde se produz. Tal enfrentamento, de contornos pol&iacute;ticos mas com uma pauta te&oacute;rico-epistemol&oacute;gica e de funcionamento da Universidade, chegaria ao seu auge em 1966 (&agrave;s v&eacute;speras do golpe de Ongan&iacute;a), quando o movimento estudantil combate simultaneamente aos subs&iacute;dios privados para pesquisas e o <st4:sinonimos>cientificismo<\/st4:sinonimos> preconizado pelos professores (p.84).<\/p>\n<p>Esta disputa dos sessenta tem suas ra&iacute;zes nas afilia&ccedil;&otilde;es dos intelectuais, n&atilde;o somente a partidos pol&iacute;ticos, mas tamb&eacute;m &agrave;s formas de <st2:hm>tentar<\/st2:hm> <st2:hdm>construir<\/st2:hdm> uma Na&ccedil;&atilde;o ou uma Civiliza&ccedil;&atilde;o. A dicotomia se d&aacute; entre civiliza&ccedil;&atilde;o liberal (incluindo a&iacute; os primeiros partid&aacute;rios da reforma) e o nacionalismo. Este, o nacionalismo, se subdivide entre popular e reacion&aacute;rio. Como a id&eacute;ia de destino tamb&eacute;m tem origem em uma reconstru&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica, &eacute; este revisionismo hist&oacute;rico fun&ccedil;&atilde;o essencial do conjunto da intelectualidade (p.11). Poder&iacute;amos, for&ccedil;osamente, <st2:hm>enquadrar<\/st2:hm> no campo de civiliza&ccedil;&atilde;o liberal a primeira e segunda gera&ccedil;&atilde;o de soci&oacute;logos argentinos, especialmente tamb&eacute;m por sua condi&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o-peronistas e banidos no primeiro governo. N&atilde;o por coincid&ecirc;ncia, a chamada fase de ouro da Universidade de Buenos Aires (UBA, dir&iacute;amos de import&acirc;ncia quase que da mesma dimens&atilde;o da Universidade Nacional Aut&ocirc;noma do M&eacute;xico, UNAM) foi entre 1955 (ano da derrubada do primeiro governo peronista) e 1966, ano do golpe de Ongan&iacute;a; quando as universidades sofrem interven&ccedil;&atilde;o e professores s&atilde;o demitidos. Uma vez atingida a fase &ldquo;cient&iacute;fica&rdquo; das ci&ecirc;ncias do homem, superando a Sociologia acad&ecirc;mica (parcial e temporalmente) a dita por Germani &ldquo;para-sociologia Argentina&rdquo; (apud Sigal, p.90), o intelectual &iacute;talo-argentino apregoa <st2:hm>come&ccedil;ar<\/st2:hm> do zero, inaugurando na sociologia um esfor&ccedil;o sistem&aacute;tico, mas tamb&eacute;m deixando de lado n&atilde;o apenas uma tradi&ccedil;&atilde;o ensa&iacute;stica, mas como um conjunto de conhecimentos. O &ldquo;curioso&rdquo; descarte &eacute; citado como deixando de lado inclusive as influ&ecirc;ncias que a dita fase pr&eacute;-cient&iacute;fica, ensa&iacute;stica, teve sobre o pr&oacute;prio pensamento sociol&oacute;gico. A autora faz uma analogia entre o peso de Sartre para a Fran&ccedil;a, Gramsci para a It&aacute;lia e Mari&aacute;tegui6 para o Per&uacute; (p.91), como um exemplo das influ&ecirc;ncias que ocorreram por toda Am&eacute;rica Latina.<\/p>\n<p>O processo de institucionaliza&ccedil;&atilde;o da sociologia na Universidade argentina, foi consequ&ecirc;ncia tamb&eacute;m do fim do governo peronista. A fase cient&iacute;fica marca tamb&eacute;m um tra&ccedil;o comum entre a intelectualidade de forma&ccedil;&atilde;o marxista, da esquerda acad&ecirc;mica que obviamente n&atilde;o estava dentro da tradi&ccedil;&atilde;o anti intelectual. N&atilde;o estudariam mais o <st2:hm>ser<\/st2:hm> nacional, ao menos n&atilde;o naquela fase (embora o fen&ocirc;meno se repita conforme veremos a <st2:hm>seguir<\/st2:hm>), mas sim a busca da realidade nacional (p.93). O chamado momento p&oacute;s-peronista inaugura portanto uma possibilidade de <st2:hm>estudar<\/st2:hm> a este mesmo fen&ocirc;meno, o populismo peronista sob o signo nacional-popular (p.94). O objeto de estudo viria a <st2:hm>aproximar<\/st2:hm> a perspectiva entre intelectuais, na medida que se politizavam e posteriormente com seu espa&ccedil;o institucional fechado pelo anti peronismo de Ongan&iacute;a e seus (objetos de estudo(: a realidade do pa&iacute;s, a capacidade mobilizadora do populismo, a autenticidade das massas e suas reais condi&ccedil;&otilde;es de vida e <st4:sinonimos>sobreviv&ecirc;ncia<\/st4:sinonimos>.<\/p>\n<p>Podemos <st2:hm>deduzir<\/st2:hm> esta soma de fatores como efeito mobilizador da pr&oacute;pria intelectualidade e seu objeto de estudo. A UBA fechada pelo regime <st2:hm>militar<\/st2:hm> de 1966, a capacidade associativa se eleva a uma pr&aacute;tica de (universidade das catacumbas(, onde se realizam mais de dois mil (2.000) grupos de estudo com uma m&eacute;dia de oito a dez participantes em cada um deles (p.70, KLIMOVSKY apud SIGAL). A batalha epistemol&oacute;gica da maioria da esquerda e do movimento estudantil era contra o (<st4:sinonimos>cientificismo<\/st4:sinonimos>( e do financiamento externo (e privado) &agrave;s pesquisas e investiga&ccedil;&otilde;es sociol&oacute;gicas. A motiva&ccedil;&atilde;o maior desta mesma jovem intelectualidade de esquerda &eacute; o estudo da realidade acional, e a aproxima&ccedil;&atilde;o em perspectiva com seu objeto de estudo. Compreende-se assim uma boa parte das raz&otilde;es explicativas do engajamento militante que estes mesmos intelectuais tiveram na resultante da realidade nacional somada ao nacionalismo popular. Isto &eacute;, a ado&ccedil;&atilde;o do sujeito coletivo e da miss&atilde;o de <st2:hm>ser<\/st2:hm> portador deste discurso e o apoio ou participa&ccedil;&atilde;o direta em organiza&ccedil;&otilde;es pol&iacute;tico-militares, hegemonicamente da esquerda peronista.<\/p>\n<p>Como um aspecto <st2:hm>complementar<\/st2:hm>, gostar&iacute;amos de <st2:hm>narrar<\/st2:hm> um trecho de aula inaugural ocorrido na Faculdade de Ci&ecirc;ncias Econ&ocirc;micas da UBA, no ano de 1973, logo ap&oacute;s a vit&oacute;ria para presidente de H&eacute;ctor C&aacute;mpora, candidato dos peronistas e em especial de sua esquerda. O encarregado da aula fora um jovem soci&oacute;logo, Horacio Gonzalez, membro da unidade dos Montoneros7 da UBA. Esta organiza&ccedil;&atilde;o ocupava espa&ccedil;o central na Universidade do peronismo progressista. No regime anterior, o nome da cadeira era Introdu&ccedil;&atilde;o ao conhecimento do Estado e Sociedade. Na hegemonia populista, e tamb&eacute;m nacionalista de esquerda, o t&iacute;tulo fora mudado para Hist&oacute;ria Nacional e Popular. O elemento b&aacute;sico era <st2:hdm>somar<\/st2:hdm> a agita&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica para 10.000 novos estudantes, baseado em um discurso de revis&atilde;o hist&oacute;rica, mais apropriadamente seria <st2:hm>dizer<\/st2:hm>, em uma interpreta&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica. Dizia o encarregado montonero que (a contradi&ccedil;&atilde;o principal sempre foi entre liberta&ccedil;&atilde;o e depend&ecirc;ncia, n&atilde;o importando quais sejam os atores pol&iacute;ticos em cada momento da hist&oacute;ria argentina(; em outro trecho do discurso, Gonz&aacute;lez retorna, (Ainda que os conflitos anteriores tenham recebido outras denomina&ccedil;&otilde;es, outras identidades culturais ou partid&aacute;rias, de toda maneira s&atilde;o antecedentes deste conflito maior que se revela n&iacute;tido no momento hist&oacute;rico que vivemos(. A justificativa da leitura e da validade ou n&atilde;o, de acordo com esta contradi&ccedil;&atilde;o, &eacute; o que faz os Montoneros de 1973 afiliarem-se ou n&atilde;o a unit&aacute;rios ou federalistas, aos caudilhos americanistas em contra da elite portenha, a um partido ou caudilho que mobilizasse de fato o pa&iacute;s interior (Gonz&aacute;lez apud Anguita y Caparr&oacute;s, 1998, pp.42-43).<\/p>\n<p>Observa-se assim um padr&atilde;o desta intelectualidade de forma&ccedil;&atilde;o marxista, que uma vez afiliada ao nacionalismo popular, reedita a fun&ccedil;&atilde;o de revisionismo hist&oacute;rico. Ou seja, a realidade nacional estudada necessita de um discurso do <st2:hm>ser<\/st2:hm> nacional como influ&ecirc;ncia dos fatores de motiva&ccedil;&atilde;o para o c&acirc;mbio social. J&aacute; a dita sociologia cient&iacute;fica, est&aacute; na base de argumenta&ccedil;&atilde;o de S&iacute;lvia Sigal, a qual concordamos, s&oacute; poderia se <st2:hm>valer<\/st2:hm> como tal, de acordo com suas pr&oacute;prias pretens&otilde;es de alguma neutralidade e profissionalismo, em um regime mais est&aacute;vel. Este se veria <st2:hm>chegar<\/st2:hm> a <st2:hm>partir<\/st2:hm> de 1983, mas ainda que sob o signo de fal&ecirc;ncia do Estado e suas sucessivas crises financeiras (obs. nossa, reconhecemos que este tema j&aacute; foge muito do abordado aqui neste artigo).<\/p>\n<p>A institucionaliza&ccedil;&atilde;o e escolha de temas no caso mexicano v&ecirc;m de um padr&atilde;o mais pr&oacute;ximo do brasileiro e &eacute; o tema onde adentramos agora, ainda que de forma breve. Os tr&ecirc;s autores que tomamos como base para esta parte do trabalho, Reyna (1979), Casta&ntilde;eda (1989) e Loyo (1982), concordam em <st2:hm>classificar<\/st2:hm> de modo linear a investiga&ccedil;&atilde;o sociol&oacute;gica no M&eacute;xico. Esta se subdividiria, classicamente em fase pr&eacute;-cient&iacute;fica, cient&iacute;fica e de institucionaliza&ccedil;&atilde;o. Derivada neste pa&iacute;s do Direito e da Antropologia (cuja problem&aacute;tica do ind&iacute;gena e da terra j&aacute; mobilizara a base da Revolu&ccedil;&atilde;o de 1910 e foi a primeira das ci&ecirc;ncias sociais em sentido estrito com desenvolvimento), a sociologia iniciaria sua fase chamada de cient&iacute;fica a <st2:hm>partir<\/st2:hm> de meados da d&eacute;cada de 1950.<\/p>\n<p>Mas segundo Reyna (pp.61-63), ainda que com aplica&ccedil;&otilde;es metodol&oacute;gica modernas, as investiga&ccedil;&otilde;es sociol&oacute;gicas de ent&atilde;o pouco ou nada teriam que <st2:hm>ver<\/st2:hm> com sua pr&oacute;pria problem&aacute;tica nacional. <st2:hm>Apontar<\/st2:hm> estas problem&aacute;ticas, que ali&aacute;s o regime priista n&atilde;o conseguia nem queria <st2:hm>dar<\/st2:hm> respostas, era o mesmo que <st2:hdm>questionar<\/st2:hdm> a legitimidade do regime. O sistema n&atilde;o estava (preparado( para cr&iacute;ticas (poder&iacute;amos <st2:hm>afirmar<\/st2:hm> tecnicamente que o regime era parcialmente fechado para uma oposi&ccedil;&atilde;o sistem&aacute;tica). Neste sentido, a obra cl&aacute;ssica de Casanova (1965), (La democracia en Mexico(, inaugura uma fase de metodologia cient&iacute;fica e problem&aacute;tica nacional. A resultante desta equa&ccedil;&atilde;o fora um <st4:sinonimos>questionamento<\/st4:sinonimos> cada vez mais sistem&aacute;tico do sistema pol&iacute;tico e do regime priista, desenvolvendo-se em rela&ccedil;&otilde;es de repress&atilde;o e viol&ecirc;ncia sistem&aacute;tica, culminando com o massacre de Tlatelolco em 1968, onde cifras de estimativas presumem em no m&iacute;nimo 5.000 estudantes mortos.<\/p>\n<p>N&atilde;o que a obra de Casanova por si s&oacute; tenha sido a raz&atilde;o para esta escalada, longe disso. Mas no que diz respeito da sociologia, inaugura sua fase cient&iacute;fica, de pesquisa emp&iacute;rica,de apontamento de realidade, questionando a problem&aacute;tica e encaminhando linhas de a&ccedil;&atilde;o nacionais. Desta obra, tamb&eacute;m sob incentivo de Gonz&aacute;lez Casanova, derivaram estudos de estratifica&ccedil;&atilde;o social, buscando as causas b&aacute;sicas da desigualdade social; assim como da estrutura agr&aacute;ria, setor campon&ecirc;s e a rela&ccedil;&atilde;o das sociedades ind&iacute;genas com as n&atilde;o-ind&iacute;genas.<\/p>\n<p>A progress&atilde;o dos temas e a problem&aacute;tica nacional, levaram ao tema central da d&eacute;cada de sessenta <st2:hm>ser<\/st2:hm> a depend&ecirc;ncia (p.72, obs. nossa, v&ecirc;-se que &eacute; um tema recorrente em v&aacute;rios pa&iacute;ses e &eacute; apontado como contradi&ccedil;&atilde;o central por v&aacute;rios autores). Com a acomoda&ccedil;&atilde;o vinda do mandato de (abertura pol&iacute;tica do PRI( de Lu&iacute;s Echeverria (primeira metade da d&eacute;cada de setenta), boa parte das problem&aacute;ticas nacionais e sociais levantadas pela Universidade passam a <st2:hm>ser<\/st2:hm> incorporadas como pol&iacute;ticas p&uacute;blicas (e assim reencontram o papel e a proximidade do <st2:hm>poder<\/st2:hm> com a intelectualidade e soci&oacute;logos mexicanos). Como se d&aacute; este movimento de tens&atilde;o e acomoda&ccedil;&atilde;o entre sociologia e Estado &eacute; o que continuamos a <st2:hm>ver<\/st2:hm> a <st2:hm>seguir<\/st2:hm>. Uma das deriva&ccedil;&otilde;es l&oacute;gicas &eacute; a aproxima&ccedil;&atilde;o da academia para temas como Estado e sociedade, passando a <st2:hm>ser<\/st2:hm> o mesmo Estado objeto de estudo. &Eacute; a&iacute; que autores como Gramsci recobram sua import&acirc;ncia (p.72), servindo como base te&oacute;rica das rela&ccedil;&otilde;es entre o Estado, o sistema pol&iacute;tico e a sociedade de classes.<\/p>\n<p>Retornando um pouco antes da obra de Casanova, Loyo (1982, p.327) afirma <st2:hm>ser<\/st2:hm> necess&aacute;rio para a atividade cient&iacute;fica, um espa&ccedil;o institucional prop&iacute;cio, dotado da estabilidade e autonomia necess&aacute;rias para se <st2:hm>conformar<\/st2:hm> se n&atilde;o como um campo, ao menos como um setor reconhecido e com parcelas de dirig&ecirc;ncia do pa&iacute;s. Este espa&ccedil;o institucional fora se consolidando e ganhando seu espa&ccedil;o de excel&ecirc;ncia na Universidade Nacional Aut&ocirc;noma de M&eacute;xico (UNAM). Considerando a natureza do regime do PRI, subentende-se que tamanha tranquilidade era tamb&eacute;m fruto de uma rela&ccedil;&atilde;o c&uacute;mplice e d&uacute;bia na carga de cr&iacute;ticas e no tipo de estudo realizado pela intelectualidade mexicana. Indo de encontro a esta afirma&ccedil;&atilde;o, Loyo (p.336), nos diz que fora a repress&atilde;o executada pelo Estado e o regime, a <st2:hm>partir<\/st2:hm> de movimentos aut&ocirc;nomos de trabalhadores do ano de 1958, culminando com a viol&ecirc;ncia sistem&aacute;tica, que mudara a posi&ccedil;&atilde;o dos intelectuais. At&eacute; ent&atilde;o este setor veria ao Estado mexicano como em ess&ecirc;ncia, herdeiro do processo insurrecional de 1910.<\/p>\n<p>Ambos movimentos te&oacute;rico-epistemol&oacute;gicos e pol&iacute;ticos, levou ao movimento estudantil e a vida acad&ecirc;mica em um determinado momento, a <st2:hm>desqualificar<\/st2:hm> tudo aquilo que n&atilde;o fosse deriva&ccedil;&atilde;o do marxismo (p.337). A politiza&ccedil;&atilde;o e a sindicaliza&ccedil;&atilde;o de categorias de trabalhadores e estudantes universit&aacute;rios levou a disputa ao n&iacute;vel te&oacute;rico tamb&eacute;m (p.331), e ao mesmo tempo a confronta&ccedil;&atilde;o e viol&ecirc;ncia f&iacute;sica tornavam inst&aacute;veis as possibilidades de trabalho e pesquisa desde um ponto de vista mais cient&iacute;fico e acad&ecirc;mico.<\/p>\n<p>Mais uma vez a pauta te&oacute;rico-epistemol&oacute;gica v&ecirc;-se marcada, segundo Loyo, pela obra fundamental de Casanova (j&aacute; v&aacute;rias vezes citada, aqui novamente, p.335), isto porque, segundo a autora, o trabalho contemplaria a tem&aacute;tica do <st2:hm>poder<\/st2:hm> e da domina&ccedil;&atilde;o. Vista sob uma &oacute;tica mais ampla, n&atilde;o necessariamente enquadrando os estudos advindos na ci&ecirc;ncia pol&iacute;tica, hist&oacute;ria, sociologia ou antropologia (p.334). Isto difere, e muito, do enquadramento mais r&iacute;gido que na &eacute;poca seria feito nos EUA e na Europa ocidental (ou seja, no Centro). A evolu&ccedil;&atilde;o das pautas te&oacute;rico-epistemol&oacute;gicas, somadas &agrave;s medidas repressivas e duras do governo de D&iacute;as Ordaz (o presidente quando do massacre de 1968), levou a um tensionamento contundente entre a intelectualidade e o Estado, o PRI e o regime (p.336).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O mandato seguinte, o de Echeverr&iacute;a, seria o oposto, levando a um processo de distensionamento e acomoda&ccedil;&atilde;o desta oposi&ccedil;&atilde;o dos intelectuais para com o Estado. O movimento do presidente foi de relaxamento dos n&iacute;veis repressivos, maior toler&acirc;ncia &agrave; cr&iacute;tica nos meios acad&ecirc;micos, fundos e financiamentos para centros de pesquisa, margem de manobra para oposi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e para o sindicalismo independente (isto &eacute;, independente dos bra&ccedil;os sindicais do PRI). No mandato seguinte, a pol&iacute;tica econ&ocirc;mica recessiva n&atilde;o viria acompanhada de um n&iacute;vel maior de repress&atilde;o pol&iacute;tica. Assim, a acomoda&ccedil;&atilde;o destes setores de intelectuais, apesar das contradi&ccedil;&otilde;es sociais, se completaria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Casta&ntilde;eda (1989) aborda em seu texto uma observa&ccedil;&atilde;o interessante a respeito das capacidades de interven&ccedil;&atilde;o do pensamento sociol&oacute;gico no M&eacute;xico. A primeira &aacute;rea &eacute; pr&oacute;xima e tamb&eacute;m abordada (inaugurada seria melhor) pela antropologia, que &eacute; o tema ind&iacute;gena e o campon&ecirc;s. Nesta &aacute;rea, coube &agrave; sociologia um papel de racionaliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica da problem&aacute;tica nacional (p.409). Mais uma vez reitera-se o papel da obra de Casanova, La Democracia en Mexico, onde se reafirma (e com dados, estat&iacute;sticas, pesquisa emp&iacute;rica) o car&aacute;ter dual da sociedade mexicana, o de processo revolucion&aacute;rio n&atilde;o conclu&iacute;do e a concentra&ccedil;&atilde;o de <st2:hm>poder<\/st2:hm> no Executivo (p.420). O que ressalta a obra &eacute; a nova totalidade articulada por Gonz&aacute;lez Casanova; n&atilde;o a totalidade abstrata, mas os conceitos e categorias que permitiriam <st2:hm>compreender<\/st2:hm> (ou melhor, <st2:hm>interpretar<\/st2:hm> e <st2:hm>incidir<\/st2:hm> sobre) a realidade mexicana. A no&ccedil;&atilde;o de fundo &eacute; a de estrutura. Um problema de fundo solucionado &eacute; o do compromisso do universit&aacute;rio para com a transforma&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s (p.421). O engajamento profissional somado com a identifica&ccedil;&atilde;o de um dos problemas estruturais, a centralidade do Executivo mexicano, este por sua vez agente e executor de colonialismo interno (tipo dom&iacute;nio de enclave) que &eacute; resultante de uma depend&ecirc;ncia estrutural, levaram a toda uma gera&ccedil;&atilde;o de jovens soci&oacute;logos e de &aacute;reas afins a <st2:hm>buscar<\/st2:hm> um rompimento com o modelo vigente. Mais uma vez a <st4:sinonimos>episteme<\/st4:sinonimos> ganha conota&ccedil;&otilde;es de import&acirc;ncia pol&iacute;tica dentro do &acirc;mbito acad&ecirc;mico-cient&iacute;fico.<\/p>\n<p>A institucionaliza&ccedil;&atilde;o das ci&ecirc;ncias sociais veio junto de um esfor&ccedil;o do Estado mexicano em tecnificar-se para <st2:hm>solucionar<\/st2:hm> sua crise (p.427), expandindo tamb&eacute;m sua pol&iacute;tica social. A transforma&ccedil;&atilde;o por dentro do Estado necessitava de uma vigorosa cr&iacute;tica e esta mesma foi fornecida pelos ex-opositores de 1968. A nova legitimidade n&atilde;o seria mais apenas a defesa da ordem p&uacute;blica, mas o reconhecimento da crise e do papel do Estado (lembramos, ainda que sob regime priista) como um agente externo da pr&oacute;pria crise e uma das formas de <st2:hm>intervir<\/st2:hm> para solucion&aacute;-la. O marxismo acad&ecirc;mico, avan&ccedil;ado epistemologicamente, sofre acomoda&ccedil;&atilde;o de seu antigo tensionamento, passando a <st3:infinitivo>dialogar<\/st3:infinitivo> com o Estado nacional, inaugurando uma nova esfera p&uacute;blica (p.428). Os anos 1980 viriam a <st2:hm>ser<\/st2:hm> a d&eacute;cada da crise financeira (chamada de d&eacute;cada perdida, a da crise da d&iacute;vida, mas &ldquo;menos perdida&rdquo; que a de &rsquo;90), com a pol&iacute;tica sendo transformada em t&eacute;cnica (p.429) e as elites das ci&ecirc;ncias sociais e do homem, ap&oacute;s se verem valorizadas para <st2:hm>superar<\/st2:hm> a contradi&ccedil;&atilde;o marcada em 1968, caem em segundo plano num ambiente (tecnificado( (segundo os par&acirc;metros de Ramos que esta t&eacute;cnica seria importada).<\/p>\n<p><span style=\"mso-tab-count: 1\">O tra&ccedil;o comum aos tr&ecirc;s autores citados &eacute; <st2:hm>ressaltar<\/st2:hm> a obra de Casanova como portadora de uma nova totalidade. Escapando assim do que consideramos um falso dilema, que &eacute; a dicotomia entre a pesquisa e a pr&aacute;tica pol&iacute;tica. Neste caso, a problem&aacute;tica nacional de concentra&ccedil;&atilde;o de poderes, sociedade dual, estrutura e depend&ecirc;ncia seria a contradi&ccedil;&atilde;o central para a gera&ccedil;&atilde;o de soci&oacute;logos de 1968. A <st4:sinonimos>episteme<\/st4:sinonimos> apresentada a <st2:hm>partir<\/st2:hm> deste posicionamento, for&ccedil;ara ao Estado mexicano a <st2:hdm>recuar<\/st2:hdm> e abrir-se. Ao <st2:hdm>incorporar<\/st2:hdm> a este setor, automaticamente muda a contradi&ccedil;&atilde;o central, embora a escolha dos problemas se mantenha semelhantes.<\/span><\/p>\n<p>4) Apontando conclus&otilde;es de <st4:sinonimos>episteme<\/st4:sinonimos> atrav&eacute;s de Celso Furtado<\/p>\n<p>Conforme vimos ao longo do trabalho, o argumento central por n&oacute;s levantado &eacute; que a afirma&ccedil;&atilde;o de uma base te&oacute;rico-epistemol&oacute;gica aut&oacute;ctone, &eacute; considerada como pr&eacute;-condi&ccedil;&atilde;o para o desenvolvimento da produ&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnico-cient&iacute;fica nacional. De sua parte, a institucionaliza&ccedil;&atilde;o das ci&ecirc;ncias sociais, necessita de uma rela&ccedil;&atilde;o de acomoda&ccedil;&atilde;o e estabilidade institucional para com o Estado, isto v&aacute;lido para os pa&iacute;ses latino-americanos. Se e quando o grau de cr&iacute;tica e de levantamento de problem&aacute;ticas e possibilidade de execu&ccedil;&atilde;o de solu&ccedil;&otilde;es apontados pelas ci&ecirc;ncias sociais, se contrap&otilde;em com os poderes de fato constitu&iacute;dos (a ordem colonial, as classes dominantes locais), justo a estabilidade institucional (que para tal, necessita <st2:hm>ser<\/st2:hm> cont&iacute;nua) &eacute; posta em risco.<\/p>\n<p>Observamos tamb&eacute;m que a tem&aacute;tica da depend&ecirc;ncia, e at&eacute; mesmo da depend&ecirc;ncia estrutural &eacute; um central e recorrente na etapa do Estado-desenvolvimentista, que &eacute; justo a abordada pelos autores nos textos base do artigo. Ningu&eacute;m teria mais autoridade para <st3:infinitivo>relacionar<\/st3:infinitivo> depend&ecirc;ncia com a <st4:sinonimos>episteme<\/st4:sinonimos> necess&aacute;ria para super&aacute;-la (ou sequer compreend&ecirc;-la) do que o economista brasileiro Celso Furtado. Justo por isso, e para n&atilde;o <st2:hm>escapar<\/st2:hm> da redund&ecirc;ncia, apontamos rapidamente dois pressupostos te&oacute;ricos de Furtado.<\/p>\n<p>O primeiro que ressaltamos &eacute; (cl&aacute;ssico(, diz respeito &agrave; pr&oacute;pria formula&ccedil;&atilde;o da categoria depend&ecirc;ncia e suas formas de an&aacute;lise econ&ocirc;mica. Em (Desenvolvimento e Subdesenvolvimento, Elementos de uma Teoria do Subdesenvolvimento( (FURTADO in BIELSCHOWSKY, 20008), o economista trata e discorre das condi&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias para compreens&atilde;o do fen&ocirc;meno hist&oacute;rico latino-americano. Podemos <st2:hm>realizar<\/st2:hm> um di&aacute;logo imagin&aacute;rio com Santos, quando este afirma a condi&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a, a correla&ccedil;&atilde;o que permite ao ocidente <st2:hm>universalizar<\/st2:hm> sua pr&oacute;pria experi&ecirc;ncia. O mesmo vale para a economia. Furtado diz textualmente que (a teoria do desenvolvimento que se limite a <st2:hm>reconstituir<\/st2:hm> em um modelo abstrato &#8211; derivado de uma experi&ecirc;ncia hist&oacute;rica limitada (grifo nosso) &#8211; as articula&ccedil;&otilde;es de uma determinada estrutura, n&atilde;o pode <st2:hdm>pretender<\/st2:hdm> elevado grau de generalidade( (p.241). Ou seja, &eacute; necess&aacute;rio um processo de pensamento derivado de um determinado momento hist&oacute;rico, pr&oacute;prio da sociedade (ou da regi&atilde;o geopol&iacute;tica) sobre a qual se quer <st2:hm>incidir<\/st2:hm> sobre.<\/p>\n<p>O subdesenvolvimento, como fen&ocirc;meno derivado da condi&ccedil;&atilde;o colonial e p&oacute;s-colonial, tem de <st2:hm>ser<\/st2:hm> visto como um fen&ocirc;meno espec&iacute;fico, e necessita de um esfor&ccedil;o de teoriza&ccedil;&atilde;o aut&ocirc;nomo (p.262). As simples analogias da parte dos economistas, de receitu&aacute;rio balizado pelas experi&ecirc;ncias das economias desenvolvidas, resultam em solu&ccedil;&otilde;es inaplic&aacute;veis para a <st4:sinonimos>supera&ccedil;&atilde;o<\/st4:sinonimos> da condi&ccedil;&atilde;o de subdesenvolvimento (p.262). V&ecirc;-se que a carga de cr&iacute;ticas feita por Ramos &eacute; reeditada por Furtado, tanto na formula&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica como na execu&ccedil;&atilde;o de programas derivados destas mesmas formula&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Dentro de um universo de ci&ecirc;ncias sociais e humanas abertas, incluindo a&iacute; a economia, podemos <st2:hm>observar<\/st2:hm> que esta cr&iacute;tica continua e permanecem mais de quarenta anos depois. Furtado em entrevista a revista Caros Amigos, reafirma a quest&atilde;o do pressuposto e do problema te&oacute;rico de cientistas sociais e economistas munidos de referencial te&oacute;rico inaplic&aacute;veis para nossa realidade. As solu&ccedil;&otilde;es aplicadas em n&iacute;vel de macroeconomia teriam suas origens, segundo Furtado (2003), na incapacidade dos economistas em <st2:hm>compreender<\/st2:hm> um sistema econ&ocirc;mico brasileiro com algum grau de autonomia. O (possibilismo( do receitu&aacute;rio econ&ocirc;mico de matrizes no Centro, n&atilde;o abre perspectiva de <st4:sinonimos>mudan&ccedil;a<\/st4:sinonimos> (p.30). De outra parte, a pr&oacute;pria reflex&atilde;o fica distante da execu&ccedil;&atilde;o, se reflete e n&atilde;o se desdobra em a&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o h&aacute; repercuss&atilde;o contundente a <st2:hm>partir<\/st2:hm> do esfor&ccedil;o reflexivo (p.31). Mais uma vez,, observamos um poss&iacute;vel di&aacute;logo entre ci&ecirc;ncia-a&ccedil;&atilde;o (Santos) e o que apregoa hoje Furtado. A identifica&ccedil;&atilde;o do objeto da economia, que segundo ele n&atilde;o &eacute; o n&iacute;vel econ&ocirc;mico, mas o social, levaria a uma outra condi&ccedil;&atilde;o de formula&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica e possibilidade de incid&ecirc;ncia sobre a realidade nacional.<\/p>\n<p>Conclu&iacute;mos portanto que as ci&ecirc;ncias sociais e humanas na Am&eacute;rica Latina, tem em seu processo de institucionaliza&ccedil;&atilde;o e na sua fase cient&iacute;fica em diante, duas contradi&ccedil;&otilde;es centrais ressaltadas ao longo de todo o trabalho. A primeira &eacute; a tem&aacute;tica te&oacute;rico-epistemol&oacute;gica, onde a intencionalidade e a perspectiva do cientista pode <st2:hm>habilitar<\/st2:hm> ao rompimento da depend&ecirc;ncia cient&iacute;fica e da dupla identidade (colonizador e colonizado). A segunda &eacute; quanto ao n&iacute;vel das rela&ccedil;&otilde;es desta elite intelectual com os poderes dirigentes e dominantes do pa&iacute;s. Esta ser&aacute; t&atilde;o ou mais tensa quanto mais contundentes forem as cr&iacute;ticas e in&aacute;bil for o Estado de <st2:hdm>absorver<\/st2:hdm> tanto estas cr&iacute;ticas como a m&atilde;o de obra cient&iacute;fica que a formulou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S&atilde;o as contradi&ccedil;&otilde;es de fundo de um pa&iacute;s, que quando aplicadas na pol&iacute;tica cient&iacute;fica e acad&ecirc;mica, filiam ou n&atilde;o este setor. Seja como elite que &eacute; fra&ccedil;&atilde;o de classe dirigente, ou setor de intelectuais de fora e em oposi&ccedil;&atilde;o aos pr&oacute;prios setores dirigentes e classes dominantes de um pa&iacute;s. Ao <st3:infinitivo>elencar<\/st3:infinitivo> a contradi&ccedil;&atilde;o e posicionar-se perante a mesma, o cientista social obt&ecirc;m sua perspectiva e proximidade\/afastamento do objeto. Aponta assim sua capacidade e\/ou vontade pol&iacute;tica de <st2:hm>incidir<\/st2:hm> sobre a sua pr&oacute;pria realidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>5) Bibliografia<\/p>\n<p>ANGUITA, Eduardo, CAPARR&Oacute;S, Mart&iacute;n. La Voluntad, tomo II, 1973-1976. Norma Editorial, Buenos Aires, 1998.<\/p>\n<p>CASTA&Ntilde;EDA, Fernando, (La Constituci&oacute;n de la Sociolog&iacute;a en Mexico( in BOLIO, Francisco (org.) Desarrollo y Organizaci&oacute;n de las Ciencias Sociales en Mexico. CIHI-UNAM\/Miguel Angel Porrua Grupo Editorial, Cidade do M&eacute;xico, 1989.<\/p>\n<p>FURTADO, Celso. (Desenvolvimento e Subdesenvolvimento( in BIELSCHOWSKY, Ricardo (org.)Cinquenta anos de pensamento na CEPAL. Record, S&atilde;o Paulo, 2000.<\/p>\n<p>FURTADO, Celso. (Entrevista com Celso Furtado(, Caros Amigos, No. 71, fevereiro de 2003, S&atilde;o Paulo.<\/p>\n<p>IANNI, Octavio. Sociologia da Sociologia Latino-Americana. Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira, Rio de Janeiro, 1971.<\/p>\n<p>LOYO, Aurora. (Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica e Sociedade no M&eacute;xico, 1951-1981&quot; in LAMOUNIER, Bol&iacute;var (org.), A Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica nos anos 80. UnB, Bras&iacute;lia, 1982.<\/p>\n<p>MARI&Aacute;TEGUI, Jos&eacute; Carlos, cap.III (pp.102-119), in L&Ouml;WY, Michael (org.), O Marxismo na Am&eacute;rica Latina. Perseu Abramo, S&atilde;o Paulo, 1999.<\/p>\n<p>RAMOS, Guerreiro. Introdu&ccedil;&atilde;o Cr&iacute;tica &agrave; Sociologia Brasileira. Editorial ANDES ltda., Rio de Janeiro, 1957.<\/p>\n<p>SANTOS, Boaventura de Souza. (Introdu&ccedil;&atilde;o Geral &agrave; Cole&ccedil;&atilde;o( in <st3:infinitivo>Democratizar<\/st3:infinitivo> a Democracia, os caminhos da democracia participativa. Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira, Rio de Janeiro, 2002.<\/p>\n<p>SIGAL, S&iacute;lvia. Intelectuales y <st2:hm>poder<\/st2:hm> en Argentina. La d&eacute;cada del sesenta. Siglo Veintiuno de Argentina Editores, Buenos Aires, 2002.<\/p>\n<p>Notas<\/p>\n<p>1 Nunca &eacute; demais <st2:hdm>lembrar<\/st2:hdm>, no Brasil, a &ldquo;quest&atilde;o social foi e continua sendo um caso de pol&iacute;cia&rdquo;.<\/p>\n<p>2 Ao <st2:hm>negar<\/st2:hm> a matriz hist&oacute;rico-estrutural, o intelectual colonizado parte da id&eacute;ia de normatiza&ccedil;&atilde;o oriunda dos pa&iacute;ses centrais. Nega sua pr&oacute;pria trajet&oacute;ria pois n&atilde;o se enxerga nela, mas c&ocirc;o um elemento de fora. Como se sabe, a &ldquo;civiliza&ccedil;&atilde;o&rdquo; ocidental chegou de caravela e n&atilde;o veio a passeio nem com raz&otilde;es altru&iacute;stas. N&atilde;o existe imp&eacute;rio nem imperialismo humanista, qualquer miss&atilde;o civilizat&oacute;ria &eacute; um conjunto de explora&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas e genoc&iacute;dios culturais e f&iacute;sicos.<\/p>\n<p>3 <st2:hm>Ver<\/st2:hm> a p&aacute;gina oficial da CLACSO na rede: clacso.org<\/p>\n<p>4 Apenas para manter-nos no intervalo hist&oacute;rico entre 1957 e 1971, muitas organiza&ccedil;&otilde;es pol&iacute;tico-militares, partidos de inten&ccedil;&atilde;o rupturista, e tamb&eacute;m conspira&ccedil;&otilde;es de direita, estruturas org&acirc;nicas no interior do aparelho de Estado, poderiam dotar-se de (t&eacute;cnicos), para <st2:hm>validar<\/st2:hm> e\/ou <st2:hdm>ajudar<\/st2:hdm> a <st2:hm>gerenciar<\/st2:hm> a aplica&ccedil;&atilde;o e conseq&uuml;&ecirc;ncia social de seus projetos pol&iacute;ticos. O t&eacute;cnico <st2:hdm>prestar<\/st2:hdm> servi&ccedil;os n&atilde;o significa, necessariamente, uma associa&ccedil;&atilde;o direta entre <st2:hm>saber<\/st2:hm> acad&ecirc;mico a servi&ccedil;o de projetos estatais ou privados dentro das normas democr&aacute;ticas. Ali&aacute;s, a instabilidade pol&iacute;tica &eacute; mais normativa na maioria dos pa&iacute;ses latino-americanos do que a &ldquo;estabilidade&rdquo;, premissa prescritiva de regimes liberais de pa&iacute;ses de capitalismo central, n&atilde;o verificada em nossa realidade.<\/p>\n<p>5 <st2:hm>Ver<\/st2:hm> a obra, colet&acirc;nea de textos cl&aacute;ssicos cepalinos organizada por BIELSCHOWSKY (2000), com apoio da pr&oacute;pria CEPAL e do Conselho Federal de Economia do Brasil.<\/p>\n<p>6 Por vezes, a hist&oacute;ria do pensamento social parece <st2:hm>adquirir<\/st2:hm> padr&otilde;es sutis, mas muito percept&iacute;veis. Os &ldquo;Sete ensaios de interpreta&ccedil;&atilde;o da realidade peruana&rdquo;, de 1928, inauguram uma s&eacute;rie de temas de fundo que dizem respeito a todo o continente. A tem&aacute;tica do ind&iacute;gena seria para os pa&iacute;ses andinos an&aacute;loga da quest&atilde;o do africano para o caso brasileiro. E, no caso desta parte do trabalho que citamos, tamb&eacute;m Jos&eacute; Carlos Mari&aacute;tegui contesta aos estudos de cunho restauracionistas do passado incaico e parte para <st2:hm>estudar<\/st2:hm> a realidade de seu momento da heran&ccedil;a inca. &Eacute; interessante <st2:hm>observar<\/st2:hm> pol&ecirc;micas semelhantes em &eacute;pocas distintas. Estes conceitos s&atilde;o repetidos no pr&oacute;logo de Mari&aacute;tegui ao livro (Tempestade nos Andes), tamb&eacute;m de ordem que poderia <st2:hm>ser<\/st2:hm> classificada de (pr&eacute;-cient&iacute;fica(, de autoria de Luis Valc&aacute;rcel (apud Mari&aacute;tegui in L&Ouml;WY, 1999.)<\/p>\n<p>7 Organiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tico-militar inserida na esquerda peronista argentina. Foi a maior organiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica com bra&ccedil;o <st2:hm>militar<\/st2:hm> da Argentina. Surgira de origem cat&oacute;lica, se fundira com as For&ccedil;as Armadas Revolucion&aacute;rias (FAR, peronista de origem marxista) em 1972 e a <st2:hm>partir<\/st2:hm> deste momento passa a <st2:hdm>ter<\/st2:hdm> hegemonia absoluta na esquerda daquele pa&iacute;s. Para maiores informa&ccedil;&otilde;es <st2:hm>ver<\/st2:hm> Anguita y Caparr&oacute;s, 1998).<\/p>\n<p>8 Este texto trata-se do Cap&iacute;tulo 4, da obra cl&aacute;ssica de Furtado de 1961, do mesmo t&iacute;tulo, Rio de Janeiro, Editora Fundo de Cultura. Na colet&acirc;nea que sacamos este texto, a origem &eacute; da edi&ccedil;&atilde;o argentina de 1971.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paso, paso, paso paso paso, C\u00f3rdoba se move<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-90","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/90","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=90"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/90\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10987,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/90\/revisions\/10987"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=90"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=90"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=90"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}