Em novembro deste ano, os estudantes universitários novamente serão convocados a dar a sua “contribuição” ao sucateamento do ensino superior público. O ENADE (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes), substituto do Provão de FHC e Paulo Renato, será aplicado este ano em 15 cursos – dentre eles o de Comunicação Social. Como braço de avaliação estudantil do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), instituído em 2004 pelo Governo Lula (e considerado o ato inaugural do processo de “reforma” universitária), o exame exerce o papel de averiguar se as universidades estão sendo eficientes em formar mão-de-obra “qualificada” para o mercado.
As diferenças entre o antigo Provão e o ENADE são poucas. A mais importante delas é a premiação com bolsas de estudos aos graduandos com melhor desempenho na prova, algo que confere ao teste um claro mecanismo anti-boicote, mostrando o quanto a mobilização estudantil prejudicou a “normalidade” na aplicação do Provão do MEC. Fora isso, há mudanças superficiais como a aplicação da prova não só aos formandos, mas também aos calouros de cada curso.
A idéia de fundo é uma competição permanente; a escassez das vagas de trabalho pressiona o jovem; a loucura de “tudo é ou pode virar currículo Lattes”; de citar cinco imbecis e publicar qualquer porcaria com pseudônimo de cientifico; a trajetória da tutela acadêmica como forma de autocensura e molde da mente do futuro trabalhador especializado. A medida no 1º governo é uma bolsa-prêmio por bom comportamento na prova. Acreditem, o método de prêmios e castigos costuma ser essencialmente individualista e antidemocrático. Ou seja, que os freireanos em dúvida preparem seus corações porque algo muito pior virá no 2º mandato.
Apesar da política de incentivos, tudo o que motivava a gurizada a boicotar o Provão segue intacto:
- o caráter punitivo da avaliação, que, ao invés de tentar sanar os problemas de algumas instituições fazendo com que o MEC propicie maior injeção de verbas, simplesmente resulta no contrário, complicando ainda mais o que já estava em má situação.
- a indiferenciação entre público e privado, sendo que ambos os tipos de entidades são avaliadas da mesma forma.
- o ranqueamento, ao conferir uma nota de 1 a 5 dado ao curso, imprimindo a educação o caráter de produto a ser colhido na mídia.
- o desrespeito às peculiaridades regionais, já que a avaliação é a mesma para todo o país.
- por fim, a obrigatoriedade, pois o aluno que não comparecer ao local de prova, mesmo que for para boicotar, tem, quando de sua formatura, grande dificuldade para conseguir seu diploma.
Enquanto a UNE segue apática (lembrando a vocação getulista de sua fundação) frente a mais uma ferramenta de encolhimento das funções sociais do Estado, as executivas e federações dos cursos selecionados para a prova neste ano estão, a exemplo do que ocorreu já nos dois primeiros ENADE´s (em 2004 e 2005) mobilizando seus estudantes para o boicote.
Este fato, o da execução do método e critério de Paulo Renato e do Banco Mundial, e a resposta como boicote, é por si só bastante demonstrativo sobre a quem interessa este tipo de reforma do ensino superior levada a cabo por um MEC tão anti-Paulo Freire como o do mandato anterior .