Bruno Lima Rocha
1º de outubro de 2008, Vila Setembrina, Continente de São Sepé, Liga Federal
Na 2ª feira 29 a Câmara dos Deputados dos Estados Unidos rejeitou ao projeto de ajuda do sistema financeiro por 228 a 205. O pacote de Bush Jr. e equipe foi negado majoritariamente por políticos do Partido Republicano. Uma variável explicativa válida é o fato de que o pacote é impopular. Como o sistema distrital, o eleitor cobra diretamente o seu deputado, pressionando pelo voto contrário. Outra variável é a possível semelhança entre a fraude do sub prime e a de 1987, da Saving & Loan’s (cadernetas de poupança). Quando a bomba estourou, o então presidente Ronald Reagan executou o resgate das instituições financeiras aplicando dinheiro público.
Esta hipótese parte de fonte especializada. Na 5ª 25 de setembro o jornal La Vanguardia, o maior da Catalunha (Espanha), apresenta em sua contra capa uma entrevista a um comissário divisional (equivalente ao posto de coronel) da Direction de La Surveillance du Territoire (DST, agência de contra espionagem francesa). O especialista, Jean-François Gayraud, é autor de um livro a respeito da geopolítica da macro criminalidade financeira e é o encarregado do órgão para combates a crimes econômicos,
Ele apresenta uma tese bastante razoável, cuja semelhança com a fraude de 1987 está no modus operandi. Afirma Jean-François que um banco pode se equivocar em até 10% dos empréstimos, mas não em milhares deles. Isso por si só já caracteriza gestão temerária. Partindo dessa premissa a fraude se inicia através de tráfico de influência. Mediante contatos políticos, operadores ocupam postos-chave em uma instituição financeira, controlando as operações de crédito e risco. Após, pessoas de confiança se concedem montantes volumosos de empréstimos, sem garantia real. A forma de aumentar a bolha especulativa é através da indústria imobiliária, via contratos com construtores, incorporadoras, corretores. Simultaneamente, funcionários públicos e privados aprovam os créditos podres avalizados por empresas de análise de risco que corroboram a aventura financeira. Qualquer semelhança com a bolha imobiliária japonesa do final da década de ’80 não é nenhuma coincidência.
O raciocínio do comissário François aponta essa cadeia de eventos como um método recorrente. Isto também é verificável no livro "McMáfia, crime sem fronteiras" (Cia das Letras, 2008) do jornalista inglês Misha Glenny. Para Glenny, o nexo político-criminal passa pela fraude como forma de crime sem vítimas físicas. Nesta modalidade, que é filha direta da liberalização do fluxo entre mercados financeiros, quem sofre é o dinheiro do contribuinte. O rombo sempre é pago deslocando os recursos de toda uma sociedade.
Este artigo foi originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat