4ª, 07 de maio de 2008; Vila Setembrina dos Baguais outrora guascas; Continente da reconquista da Província do Eucalipto; Liga Federal de los Pueblos Libres de Artigas, Guacuray, Ansina y el cacique Tabaré
No início da tarde da última segunda feira, 5 de maio, o secretário de Segurança do RS, o delegado federal Francisco Mallman, entregou aos deputados estaduais membros da CPI do Detran-RS um documento importante. A essência da mensagem é um “nada consta”, de parte de outros três delegados federais lotados na Província, afirmando que a casa da governadora não constava das investigações da Operação Rodin, foco de polêmicas e suspeitas por sobre toda a elite política local. Mallmann enviara ofício a Ildo Gasparetto, seu sucessor na Superintendência da PF no Rio Grande, questionando se a compra do imóvel localizado no valorizado bairro Chácara das Pedras, adquirido por Carlos e Yeda Crusius, fizera parte das investigações. A negativa por parte dos federais pôs ainda mais fogo na CPI. O governo pautou o fato novamente, desmentiu as declarações de um delegado da Polícia Civil, mas não explicou tudo em detalhes, deixando o flanco aberto.
O tema veio à tona na primeira batalha midiática, quando o deputado estadual Paulo Azeredo, questionara a Francisco Fraga, secretário de governo do importante município de Canoas, se ele tinha conhecimento de que um imóvel na rua onde reside a governadora havia sido comprado com sobras de campanha. Azeredo se referia à casa comprada pelo casal Yeda Roratto e Carlos Crusius em dezembro de 2006, logo após o término da campanha do segundo turno. Dez dias depois e o assunto voltara.
No dia 24 de abril, o ex-Chefe da Polícia Civil gaúcha, Luis Fernando Tubino, deu uma declaração bombástica. Afirmou, diante da CPI do Detran-RS, que uma parte do dinheiro usado na compra da casa da governadora Yeda Crusius saiu de um cheque do valor de R$ 400 mil assinado por Lair Ferst. Segundo Tubino, a informação tinha chegado através de dados levantados pela Operação Rodin. Este fato fora desmentido pelo documento encaminhado por Mallmann na última segunda 5 de maio. Para os leitores que não são do Rio Grande do Sul, é importante ressaltar que Lair foi o “tesoureiro informal” da campanha tucana para o governo. Também é um dos indiciados pela Polícia Federal na fraude que é abordada pela CPI da Assembléia. No final do mês passado, assim que a mídia local difundiu a denúncia, imediatamente o Piratini reagiu, entrando em ação o secretário de comunicação, o experiente jornalista Paulo Fona.
Não era para menos. O Rio Grande atravessa momento político tenso. O segundo turno de 2006 concluiu com uma vitória de Yeda Crusius (PSDB) sobre Olívio Dutra (PT), por uma pequena margem de diferença de votos. Desde antes da posse da ex-professora de economia da UFRGS que o governo vive situações limite. Já iniciou cometendo a proeza de ser derrotado no dia 29 de dezembro, antes mesmo de tomar posse e tendo à frente da oposição seu vice-governador eleito, Paulo Afonso Feijó.
Apesar de todas as polêmicas e os erros de comunicação, as medidas estruturantes, de base gerencialistas e neoliberais, são muito elogiadas pelos poderes de fato da Província. Yeda governa em dois níveis. Junto a seu gabinete, agrega o chamado núcleo duro, composto essencialmente por tucanos com rótulo de “técnicos”. Todos eles têm bom trânsito na mídia estadual e utilizam a palavra de modo refinado. Como em termos parlamentares a oposição joga duro, embora boa parte dos governistas gaúchos também sejam da base aliada de Lula, a governadora se resguarda. Decide o que importa dentro de seu círculo de maior confiança e coerência teórico (neoliberal) e metodológica (gerencialista).
Quando ocorre uma perda em seu círculo de confiança, como no caso analisado semana passada ocorrido com Ariosto Culau, o Piratini se vê obrigado a apelar para os quadros tradicionais do sub-sistema político gaúcho. O campo de alianças do atual governo conta com todos os partidos com representação na Assembléia à exceção de PT, PSB e PC do B. Abrir espaço para a negociação com outras legendas e concepções é um atraso a mais nos planos estratégicos e as metas traçadas por Yeda junto aos agentes econômicos e as transnacionais operando no Rio Grande do Sul. Considerando que as forças sociais mobilizadas no estado são, em sua grande parte, ainda vinculadas ao governo Lula, a única forma de barrar o projeto de Yeda é atacando-a em sua figura direta. Até agora nada foi provado, e talvez nem o seja, mas isso para o jogo real da política é o que menos importa.
No Rio Grande trava-se acirrada batalha midiática, aproveitando o fato de que a chamada “classe política” está toda sob suspeita. Não estou acusando necessariamente a ninguém, mas apenas refletindo os efeitos de desencanto quase absoluto após o espetáculo da crise política de 2005. Os que acompanham e fazem política na Província não estão imunes as estes dissabores, muito pelo contrário. Usando de sabedoria no jogo, a oposição local, situação nacional, aposta na ampla desconfiança do eleitorado gaúcho sobre as elites políticas do pago, vistas como “modelo” até pouco tempo atrás. Apontando o olhar da opinião pública através dos descalabros recentes e impunes, como a reserva de vagas em hospitais públicos, a absolvição dos albergueiros, a fraude dos selos e o esquema do Detran-RS. O alvo, , é o governo de turno, e não a correção do sistema e do Estado. Replica na mesma moeda da CPI da Segurança Pública durante o governo de Olívio Dutra. Infelizmente, a meta destas Comissões Parlamentares, tanto no pago como no Planalto, é somente ferir a imagem do adversário circunstancial.
Este artigo foi originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat