Pode parecer lugar comum, mas o final aparente da novela da Varig é mais uma nota triste na indústria brasileira, concessionária de serviço público e chamada aviação civil. Estamos no centenário de Alberto Santos Dumont e mais uma vez a gestão das empresas nacionais fica anos luz da genialidade de nossos trabalhadores e cientistas. A Viações Aéreas Rio-grandenses é um patrimônio brasileiro, mesmo gerida em mãos privadas através de uma Fundação com mentalidade empresarial. Jogamos fora nosso patrimônio, agora abalados e intentando reconstruí-lo. O fantasma da Panair do Brasil agora morde o próprio rabo com elevada dose do próprio veneno.
Para piorar a situação, o governo tão compreensivo com empresas cujo dono testa-de-ferro fora para o além após sair de um churrasco em fazenda suspeitíssima na fronteira boliviana, jogou pesado, não pagando suas dividas nem tampouco equacionando a dívida da Varig com os próprios fundos devidos pelo governo Central. É sabida e conhecida a “generosidade” do BNDES para com corporações amigas; o mesmo não se dá com a defesa de cadeias produtivas nacionais e incentivo de microcrédto para quem está na informalidade, como fora programa de gestão do ex-presidente e também destituído professor Carlos Lessa. Defendesse a capacidade operacional e o potencial expansivo da Varig como “embaixadora” do Brasil no exterior, e a agonia já teria chegado ao fim.
Seria difícil traçar um mapa teórico dos agentes centrais da novela varigueana. Mas, intentando, temos ambientes concorrentes. O externo implica ação hostil de empresas e grupos rivais, atacando tanto as linhas nacionais como fundos de participação com capitais operados por bancos estrangeiros; isto somado às alianças obscuras entre determinados meios de comunicação e a gritaria pró-Anac, pró rearranjo concorrencial das empresas barateadoras do mercado de aviação. Há que se levar em conta que a mediação de fato foi realizada pela Justiça, especificamente por uma Vara Empresarial do Rio de Janeiro. Não se pode qualificar a Justiça como ambiente externo, assim como a própria Anac já está dentro da Varig faz muito.
Voltando ao ambiente, no interno, o choque de sindicatos de aeronautas e aeroviários, os membros do conselho de administração anteriores, a ação da própria Anac como “reguladora” dos serviços e dos direitos do usuário, e a presença de técnico-executivos que defendiam suas gestões e atacavam as demandas classistas. Já os sindicatos, por reclamarem de forma geral a defesa de sua participação na salvação da empresa assim como a defesa de seus direitos, foram injustamente acusados de servir de “boi de piranha” do suspeitíssimo capital de ações revendidas por mercados já secundários e que na verdade ninguém tinha controle de origem e não havia como afirmar ou negar a existência de investidores ocultos.
Para variar, a correlação de forças termina por elogiar a “solução” de racionalidade empresarial e cuja resultante é a demissão sem direitos de aposentadoria para mais de 8.000 trabalhadores. A história se repete como farsa ciclicamente retomada, e ainda assim, menos mal que a Varig não se chama Mappin e nem tinha um controlador pessoal.