Contradição 1) O custo da presença de jihadistas internacionais, boa parte destes recrutados pela internet materializa a demência contínua. Jovens dos subúrbios quentes de Paris são abduzidos pela sandice do Daesh e antes da Al-Qaeda. Logo, a direita francesa, a mesma que apoiou o vergonhoso Regime de Vichy (a que deu suporte para a ocupação nazista), reitera o discurso homofóbico, racista e de fundamentalismo católico. De sua parte, o PS francês e seu aliado circunstancial PCF, os mesmos que montaram a Frente Popular dos anos '30, fecharam a fronteira para com os libertários espanhóis e depois criaram campos de concentração para estes exilados, agora se vêem diante do monstro. Embora sejam momentos e civilizações distintas, concordo com o antropólogo inglês David Graeber, tanto na comparação dos processos como quanto ao jogo duplo das democracias liberais diante do fantasma do fascismo com Franco e agora na Síria com o Daesh. Contra o fascismo, incluindo o de tipo religioso, só o pensamento e ação libertários oferecem solução. No caso, a única esperança real contra o integrismo é a autonomia e independência de Rojava
Contradição 2) A liberdade de expressão, de comunicação e de informação forma um conjunto de bens e valores inegociáveis. A hipócrita mídia do Ocidente fechou os olhos quando o governo de Recep Erdogan (liderando o islamista e ao mesmo tempo pró-ocidental AKP) prendeu mais de 20 jornalistas de um jornal opositor (a publicação Zaman), e realiza o mesmo procedimento contra grupos de mídia vinculados a esquerda curda. Parece que nada está acontecendo na fronteira turca, mas está. Os aliados de Erdogan saíram da Síria e entraram de volta na União Européia pela própria Turquia, corredor de passagem dos integristas. Dois destes dementes voltaram à França sob as barbas de um país membro da OTAN e agora fazem o refluxo do jihadismo sunita. O Irã declarou-se contra o atentado, mas nada faz junto aos seus aliados - o governo Assad e o Hizballah -, deixando o regime de Damasco fortalecer-se, não atacando o Daesh, deixando que este grupo totalitário entre em conflito contra Rojava.
Contradição 3) Vejam a lógica do acionar da geopolítica no pior de sua crueldade. A França promoveu a intervenção com ares imperiais no Mali (em outubro de 2012), alegando ser para evitar que uma fração da Al-Qaeda quebrasse o país ao meio. Novamente, a mesma França adentra na coalizão dos bombardeios aéreos contra as posições do Daesh na Síria e no Iraque. Ao mesmo tempo, nada faz para que a Casa Branca retire a designação de terrorista ao PKK e seus partidos aliados. É óbvio que a redação do Charlie Hebdo apoiava o Curdistão e sua vertente libertária. Paga o preço pela tolerância do ocidente hipócrita para com a política absurda da Turquia ao combater a esquerda curda.
Contradição 4) Enquanto os integristas fazem uma barbaridade contra jornalistas franceses, o Estado Turco, membro da OTAN, comete crimes de terror de Estado alegando ser o PKK um grupo terrorista. O governo de Erdogan e generais kemalistas apoiam ao Daesh e a Frente Al-Nusra nas barbas dos EUA e nada acontece. Curiosa contradição. A ONU atesta a falta de apoio humanitário e as missões vindas dos EUA não dão conta do volume de ajuda humanitária para a zonas sob controle das diversas facções não alinhadas com o bloco do governo Assad + Hizballah + Irã e com o suporte da Rússia. Uma boa parte destes problemas poderia ser solucionada se a Turquia literalmente fechasse a fronteira para o livre trânsito do Estado Islâmico (eu prefiro chamar de Daesh) e a Frente Al-Nusra e, ao mesmo tempo, liberasse o fluxo de trocas e ajuda para o Território Livre de Rojava. Simples assim, e considerando que o Estado Turco é membro pleno da OTAN, logo, seria passível de pressão do Ocidente, certo?
O protagonismo dos povos através da democracia participativa curda é a única saída
Quanto mais os sheiks sauditas, yemenitas, do Bahrein, Omã e cia enviam dinheiro para o Daesh e as filiais da Al-Qaeda, mais mulheres combatentes vão defender seus direitos fundamentais por todos os meios necessários. As forças do YPG/YPJ avançam. Kobanê vai ser libertada sem a presença de tropas ocidentais e apesar de toda a sabotagem da Turquia. Diante do inimigo comum - as forças curdas e universais com valores socialistas e democráticos - o integrismo suni e xiita vão se aproximando. Parece que finalmente o mundo árabe e islâmico vai encontrar a luta entre jihadistas e socialistas. Desde a 1a Intifada que não se vê tantas possibilidades de uma nova sociedade na região.
Desta vez entendo que foi a ação definitiva para que a esquerda restante no Ocidente perceba que o front de Rojava é única saída como modelo societário para a região. Mas, este modelo de sociedade é ameaçado pela possível intervenção das potências que são parte da OTAN e têm interesses estratégicos em rebaixar o preço do petróleo, e logo, jamais romperiam uma relação de confiança com os tenebrosos Estados monárquicos da Liga Árabe. O momento é propício para aumentar a pressão dentro das sociedades ocidentais, e mesmo as periféricas, como as latino-americanas.
Não adianta modificar o foco ou esconder o óbvio. A Turquia continua facilitando a entrada e o livre trânsito dos criminosos do ISIS. A coalizão liderada pelos EUA é de papel. Todos os regimes islamistas - duros ou moderados - estão favorecendo o jihadismo. Nem o Irã faz nada, e tampouco fará. A única saída para Rojava é a solidariedade internacional para forçar que a Turquia ao menos permita a chegada de ajuda humanitária e não fanáticos dementes que se divertem cortando cabeças de "infiéis". Quanto mais nos informamos sobre o processo de libertação do Curdistão, mais animados e comprometidos ficamos.