Mesmo sabendo que toda comparação histórica é um risco, vale a tentativa. Oriundo do berço do sindicalismo fabril contemporâneo, Lula, torneiro mecânico de formação, cumpriu todos os passos de alguém que veio da base. Antes de ser considerado um “autêntico”, foi interventor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Aceito e referendado como líder operário, cristalizou uma liderança onde movia massas e paixões. O então governador Paulo Maluf que o diga.
Após seguidas greves entre 1978 e 1980, os trabalhadores organizados entraram na reestruturação partidária convocada por Golbery do Couto e Silva, o bruxo da ditadura. Tamanha energia somada a falta de reconhecimento no MDB e nos partidos comunistas geraram primeiro o PT e três anos depois a CUT.
Sobrava espírito combativo e isso não é figura de linguagem. Na semana anterior ao 1º de maio de 1980, cuja concentração ocorreu em Vila Sônia, São Paulo capital, ocorreu um fenômeno visto apenas nas greves de 1917. Esgotou o estoque de armas de corte no ABC. Ou seja, a classe operária estava disposta a tudo, incluindo a luta direta contra a repressão.
O próprio nascedouro da Central Única dos Trabalhadores, em 1983, foi fruto de um racha na classe trabalhadora. A partir do 1ª Conferência Nacional das Classes Trabalhadoras, entre 21 e 23 de agosto de 1981, se definiram o Bloco Combativo (pró-CUT e anti-stalinista) e a Unidade Sindical (então formado por MR-8, PCB e PC do B, ainda ligado ao sistema federativo). No 1º Conclat, terminado em 28 de agosto de 1983, a CUT é fundada. Em 1986, a divisão mais à direita veio a formar a CGT, da qual a Força Sindical é herdeira direta.
A análise comparativa dos períodos históricos pára aqui. Ao contrário do momento atual, no final dos anos ’70 e inicio dos ’80, vivia-se um período de ascenção das lutas. O milagre econômico mostrava seus efeitos colaterais, as plantas industriais ainda empregavam milhares de trabalhadores e havia um sentido coletivo para buscar a derrota do regime militar. Após o 1º mandato de Lula, a sensação é oposta.
Não apenas a esquerda governando ao lado da Banca confundiu a todos, como a reestruturação produtiva fragmenta a classe trabalhadora. Para piorar, o ministro do Trabalho é ex-presidente da maior central sindical do país. Se o objetivo é domar a classe trabalhadora, adequando aqueles que ainda tem emprego formal para a perda de ainda mais direitos, então a meta vai sendo cumprida.
Mas, sendo a orientação reorganizar os trabalhadores, redefinindo formas de luta e defendendo direitos históricos, neste caso o tempo urge. Restam poucas alternativas, e a disputa por aparelhos e burocracias vai polarizar a discórdia ao invés de unificar as lutas possíveis. A esquerda do sindicalismo brasileiro precisa antes que nada juntar os militantes com trajetória ilibada e ainda com vontade de lutar. E, se preparar para uma longa jornada, voltando boa parte do tempo para a formação política e o trabalho de base. Até porque, este 2º mandato não terá grandes comoções.
Lula não vai repetir os erros de 2003, quando votou a Reforma da Previdência. A chamada flexibilização das leis trabalhistas será a conta-gotas, acompanhando o ritmo da queda na taxa de juros e as negociações do PAC. O detalhe é que o primeiro capital de giro para o Plano de Metas já está definido, e é o FGTS e o FAT. Se não reagirem logo, os trabalhadores mais uma vez pagarão a maior parte da conta.
Artigo originalmente publicado na Revista Voto, Ano 3, No. 30, página 42