3ª, 15 de maio de 2007, Vila Setembrina dos Farrapos, Continente de São Sepé
A passagem do teólogo alemão Joseph Ratzinger, proclamado Papa Bento XVI, nos obriga a algumas reflexões. Múltiplos significados saem da visita do herdeiro de Pedro. Uma delas, sobre a qual gostaria de me debruçar, diz respeito à luta na interna da Igreja Católica na América Latina. Atacada pelo aumento dos adeptos das igrejas neopentecostais, termina voltando-se para dentro, isolando a posição da Teologia da Libertação e lavando seu discurso. De passo, se defronta contra a laicidade do Estado, ou ao menos, a pretensão de termos uma regulação social que vai além da divisão entre credos.
O cardeal conselheiro teológico de João Paulo II foi seu fiel escudeiro, mentor da profusão de beatificações sem fim. Karol Wojtyla, incansável peregrino de sua Igreja, viajou o mundo e beatificou mais santos do que qualquer outro papa antecessor a ele. Ao invés de atualizar seu discurso, o manteve conservador, modernizando seus meios de propagação e difusão. Ratzinger está indo no mesmo caminho.
No que diz respeito à América Latina, a meta da visita papal teve como alvo o eterno problema da Teologia da Libertação. Iniciada formalmente com a Conferência de Medellín, Colômbia (1968), ratificada na Conferência de Puebla, México (1979), a mesma é a fonte de novos e fiéis adeptos e ao mesmo tempo a fonte perene de problemas para Roma. O trabalho de raiz da Igreja na Teologia, em torno de apenas 4% de religiosos ainda engajados na luta social, mesmo minoritário, constrange os reguladores do direito canônico do Vaticano.
Na vinda ao Brasil, o Papa atual voltou suas baterias para a disputa direta com os neopentecostais. Afirmando a visão de que a Igreja deve ser uma balizadora da vida moral e espiritual, entra em rota de colisão simultaneamente com duas posturas e formas de estar no mundo. Uma delas é a própria existência de religiões novas, midiáticas ao extremo, trabalhando com a transcendência, a presença do Espírito Santo, chegando, na maioria das vezes ao limite da imaterialidade. Da parte dos católicos, a marca do retorno à presença de ritos novos, da Renovação Carismática, trazendo conforto espiritual, certeza moral e quase nenhum incômodo às autoridades constituídas.
Como em todo cenário complexo da política, mesmo a política eclesial é marcada por rodadas simultâneas de mudanças de posições. Vejamos uma seqüência simplificada. O antecessor João Paulo II, auxiliado por Ratzinger, combatera de todas as formas possíveis a chamada Teologia da Libertação. Seu projeto político mais contundente era o regime sandinista na Nicarágua. Não por acaso o cardeal de Manágua era adepto do regime de Somoza. Em 1983, na visita do Papa polonês ao país de Augusto César Sandino e Carlos Fonseca Amador, deu-se a ruptura simbólica e formal. Ao mesmo tempo, o outro projeto político umbilicalmente ligado às pastorais sociais era o crescimento das lutas populares no Brasil e sua canalização através do Partido dos Trabalhadores.
Em termos de referências, o Brasil jamais produziu contundentes religiosos como o dominicano Jorge Camilo Torres Restrepo. Natural de Bogotá, Colômbia, o filho do patriciado local abriu mão das campanhas pacificas e terminou no martírio da guerrilha. Lembro que, quando ainda estava na graduação, como pesquisador bolsista do Cnpq, realizava entrevistas com padres vinculados à Teologia da Libertação e a simples evocação do nome do padre colombiano causava constrangimento. Em linhas gerais, podemos afirmar que as opções de Dom Hélder Câmara foram na ponta distinta do mesmo campo de Camilo Torres. Próximo do meio termo estava Dom Paulo Evaristo Arns.
O martírio não é exclusividade de religiosos atuando na América de fala castelhana, que o digam o Padre Josimo Morais e mais recentemente a irmã Dorothy Stang. Mas, que a atuação da Teologia da Libertação aqui não teve o mesmo efeito que nos países andinos e centro-americanos, isso é inegável. Por mais dedicado que seja o clero progressista brasileiro é mais acanhado e cauteloso que os pares do Continente.
Pressionado por Roma, a ala à esquerda da Igreja Católica brasileira lava seu discurso e aponta para metas mais genéricas. Por sua vez, o rito carismático e seus aliados conservadores, retomam uma postura medieval, disputando com os neopentecostais em seu mesmo terreno. Buscando legitimidade em seu passado não muito distante, Bento XVI prega a divisão entre o reino dos céus e o da Terra. De quebra, deseja a volta da missa em latim.
Falando em raízes, a história se confunde com a memória histórica e a narrativa política. Não resisto a uma leve ironia. Se fosse para voltar “às mais profundas raízes”, com certeza o rito deveria ser no aramaico da Palestina antiga e não no latim do Império Romano. Mais de 2.000 anos depois, ainda segue o choque entre as catacumbas e as pilastras de mármore.
Artigo originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat