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250 anos de Sepé Tiaraju


As torres destas ruínas refletem a disputa pela memória e a ideologia da República Missioneira.

Viamão/RS, 28/02/2006

História e ideologia definitivamente não são a mesma coisa. A interpretação do mito é a ação de reescrever a história de forma permanente. A narrativa popular quando revisitada, revivida, serve para distintos interesses. No caso da República Guaranítica Missioneira, vale uma breve narrativa histórica para situar o leitor na importância do tema.

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Os povos guaranis que habitavam o território hoje equivalente ao Paraguai e as províncias do Nordeste argentino (Litoral e Misiones) tomaram contato com os jesuítas no ano de 1612. A tensão da catequese e de alguns caciques arredios às reduções não impediu o crescimento das novas cidades. Em 1626 as Missões Jesuíticas do Paraguai atravessam o Rio Uruguai e se instalam em terras “então espanholas” e hoje pertencentes ao Rio Grande do Sul. O desenvolvimento desta civilização se depara com outra tensão, que vai além da resistência a catequização de parte das tribos.

Diversas bandeiras saíam com tropas de mestiços mamelucos, provenientes da São Paulo de Piratininga rumo ao sul da América. Atravessavam os limites de Tordesilhas, invadindo território em tese espanhol, mas de fato Guarani e Jesuíta. Sua “missão civilizatória” era bem simples. Estender os limites lusos, e de quebra, saquear riquezas, estuprar mulheres, matar quem se atravessar na frente e escravizar os indígenas sobreviventes. Em 1641, na Batalha do Mbororé, começa a nascer o mito da rebeldia gaúcha. Neste local, os bandeirantes são derrotados por tropas missioneiras, compostas por guerreiros guaranis. Por 100 anos se desenvolveria com relativa tranqüilidade uma outra civilização.

Entre 1641 e 1750, nascem nas Missões as bases da economia gaúcha. A metalurgia, a criação de gado, a manufatura do setor-coureiro calçadista, a indústria têxtil, a cultura de grãos, os ervais, a construção civil e a escolaridade plena florescem. É ingênuo crer que tudo fora obra dos jesuítas operando sua capacidade organizativa sobre “selvagens” de bom espírito. Da fusão de mitos e formas de civilização nasce uma outra distinta. A “terra sem males” dos guaranis ganha novos contornos quando estes se alfabetizam em seu próprio idioma e em latim. Em compensação, os pajés são sacrificados ou re-convertidos.

A civilização missioneira assim nasce e brota da relação de forças entre jesuítas e guaranis. Se a religiosidade foi vencida pela Igreja, no mundo do trabalho a vitória foi guaranítica. Havia duas modalidades de produção praticadas, a individual chamada de abanbaé e a coletiva, conhecida como “trabalho para Deus”, a tupanbaé. A produção em lotes individuais era quase irrelevante, portanto a produção coletiva sustentava os 33 povos das missões. Eram 26 do outro lado do Rio Uruguai e 7 no lado de cá, na Região então conhecida como Missões Orientais, isto até o acordo firmado pelo em 1828 pelo general cisplatino (uruguaio) Juan Antonio Lavalleja, com o Império sediado no Rio de Janeiro.

Outra marca da organização social guarani que permanecera nas Missões era a democracia interna. Todos os cargos públicos eram eleitos e o sistema dos povos funcionava através de uma espécie de federalismo. Mesmo sendo complicado fazer comparações de tipo ideológico, é preciso ressaltar que durantes estes 100 anos não havia desigualdades sociais e nem sombra de escravagismo. O total de população assim organizada eram ao redor de 50 mil pessoas, 95% compostas por guaranis.

Um dos eleitos para função pública era um órfão guarani, nascido em 1722 ou 1723 e batizado Sepé Tiaraju. Criado na redução de São Miguel, este homem foi eleito para alferes e corregedor, uma espécie de prefeito de seu cabildo, órgão administrativo da redução. Em 1750, a política pombalina portuguesa vira o jogo e é assinado o Tratado de Madrid. Neste, Espanha receberia a Colônia de Sacramento, fundada em 1680 na margem direita do Prata e Portugal receberia os 7 Povos das Missões, compostos por São Miguel, São Borja, São Lourenço, São João, Santo Ângelo, São Luís Gonzaga e São Nicolau. Recuaria assim a fronteira para a margem esquerda do Uruguai. Para fazer valer o acordo, uma expedição militar comum foi criada entre os dois impérios.

Nasce o mito de Sepé por sua liderança e mudança de posição. A princípio manteve-se leal aos jesuítas, que aconselharam a demarcação das terras e fronteiras de acordo com o novo tratado. Alguns caciques rebeldes se recusavam a obedecer ao governador de Buenos Aires e não mexiam nos marcos. Sepé mudou sua posição, segundo a lenda jesuíta, por ter tido uma visão, onde o arcanjo São Miguel aconselhava a um pequeno índio para que o povo não mudasse a fronteira. Daí para à frente é história conhecida.

Em 1752 começam os trabalhos de demarcação do Tratado de Madrid. Em 1753 Sepé lidera expedições militares para impedir a nova fronteira. No ano seguinte, começa a Guerra Guaranítica, onde a República enfrenta a dois impérios, Portugal e Espanha. No dia 7 de fevereiro de 1756, Sepé cai em combate, no arroio Caiboaté, onde hoje se localiza a cidade de São Gabriel. Três dias depois nasce o mito, pois neste combate, onde 1.500 guerreiros guaranis foram massacrados pelas forças conjuntas, o povo afirma ter visto “São Sepé”.

Entre os dias 3 e 7 de fevereiro de 2006, na mesma cidade onde o cacique caíra em combate, diversos setores do movimento popular, entre eles o MST, os setores de pastorais da Igreja, remanescentes de quilombos e o próprio Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), de forma razoavelmente unificada, coordenaram a memória viva do mártir do Rio Grande. A luta institucional está sendo travada para o reconhecimento oficial do governo do estado, e o decreto de feriado estadual no dia 7 de fevereiro. No nível popular, a defesa do mito criador do povo gaúcho já é exercida há muito, sendo que os Trabalhadores Sem-terra, os ativistas culturais missioneiros e os pesquisadores e folcloristas estão à frente disso. No nível político, a reivindicação nas ruas foi feita apenas por um setor da extrema-esquerda local, com colagens na Região Metropolitana promovidas pela Federação Anarquista Gaúcha (FAG).

É interessante observar as derivações e consequências na defesa do mito de São Sepé. Tiaraju não foi canonizado, assim como também não foram Antônio Conselheiro e o monge João Maria do Contestado. Popularmente se faz referência ao cacique-corregedor, estando nele a representação coletiva da República Missioneira. São Sepé é hoje o nome de uma cidade na Região Central do estado. Este município, assim como São Gabriel, na Fronteira Oeste, por ironia da história, são os centros do latifúndio e da UDR gaúcha. Estes territórios são um foco de permanente tensão e disputa pela posse da terra. As contradições não param por aí.

Reivindicar a Sepé não é delírio folclórico, mas a afirmação de uma identidade histórica. A Região das Missões era praticamente um auto-governo, liderado por não-brancos e controlando autonomamente um vasto território. Sequer nasce luso-brasileira, tal e qual o Rio Grande do Sul. Afirmar a Tiaraju é repetir conflitos e questionar a História gaúcha e brasileira.

O mito por si só vai sendo reproduzido nas situações mais inesperadas. No embate atual pelo controle da RS 040, em Viamão, a área de recuo dos manifestantes costuma ser um assentamento do MST, chamado de Filhos de Sepé. Do outro lado se posiciona uma instituição criada pelo governo central, em 1837. Aprincípio chamada de Corpo Auxiliar de Polícia Imperial, combateu duramente os Farrapos. Foi depois reorganizada como exército estadual, renomeada, na ditadura de Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros como Brigada Militar.

A Sepé Tiaraju se atribuem duas sentenças emblemáticas, cujas conseqüências se refletem na atualidade das lutas populares:

“Esta terra tem dono!”

“Não se pode servir a dois senhores!”

artigo originalmente publicado no Blog de Noblat






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