A crise que vive o governo Yeda Crusius (PSDB) está em sua metade. Ao menos esta é a previsão que este analista faz. Entendo que o imbróglio enrolou de várias partes e lados, sendo um de seus calcanhares de aquiles – um deles, porque a professora de economia da UFRGS tem vários – a própria gestão da Secretaria de Segurança.
Comecemos por aí. Com a chegada de Paulo Roberto Mendes, coronel de força terrestre auxiliar, ao comando geral da Brigada Militar, a instituição policial estadual se vê num brete. A doutrina de Mendes é mídia e paulada. Ele participa das operações, de uma forma discreta ou à frente, e tem como ordem interna “Marchar pra Frente!”. Em tese, nenhuma força de ordem pode recuar. Se o faz perante todo e qualquer inimigo, entra no descrédito. O problema é a “visão do inimigo”.
Se Paulo Roberto brilha e fala pelos quatro rincões do Rio Grande, o faz através das rádios AMs. Assumira sua posição de homem espetáculo e enquanto distribui ordens de reprimir, aparece e se torna interlocutor na mídia estadual. Como fez para aumentar o nível operacional com o mesmo efetivo e pouco recurso? Simples. Aumenta o nível de violência e diminui o grau de “confiabilidade nas negociações”. Mendes deixa a imagem de duro e inquebrantável, levando o medo ao protesto social, aumentando o fator risco e deixando a militância de vários matizes de cabelo em pé.
Pode ser uma faca com fio duplo e cortando sem controle, e creio que é. Um governo mergulhado em denúncias de corrupção e com suspeição generalizada não pode se dar ao luxo de reprimir o protesto social e político. Nem ao menos normatizar as suas formas. Quando a governadora coloca o coronel Mendes como número 01 de uma instituição que ainda é muito respeitada, até agrada o pensamento conservador do Rio Grande, mas se arrisca muito. Ganha elogios da mídia estadual, mas deixa o flanco aberto. Larga nas ruas e campos o Mendes como “boi de piranha”, deixando a todos mais ou menos de esquerda indignados.
Já pedem a sua cabeça, assim como um discurso de moralismo cortou a cabeça na sexta feira 13 de junho, do motorista do ex-chefe de Gabinete da governadora, Cezar Augusto Hermann. Hermann é ex-detento, pagara sua dívida com a sociedade, mas foi alvo menor de uma disputa que está apenas na metade. Criminalizar a ação violenta do comando da Brigada é uma meta permanente, sendo esta a intenção confluente a “toda a esquerda” do pago. Um problema desta taxonomia político-policial é a associação violência-honestidade (Coronel Mendes) e a saída do ex-comandante geral Nilson Nobre Bueno, sob denúncia do Ministério Público por prevaricação e uso indevido das diárias. Bueno teve seu caso abafado porque sua retirada do governo foi logo após o escândalo de Buzatto. Caso contrário, e Nilson Nobre se agüentasse no cargo, estaria sangrando a imagem aos poucos, tanto a dele como a da instituição. Com Mendes no comando, o problema se multiplica, mas fica na interna das corporações de segurança e ordem.
O coronel agrada âncoras de rádio, mas desagrada uma leva de oficiais que se vêem na berlinda e sob os holofotes de seu coturno. Também significa conflito direto com a Polícia Civil, tenha visto a condição de rivalidade do Vale dos Sinos. No plano da repressão política, a substituição no campo operacional, da Civil pela BM2 (P2), no que diz respeito às investigações de ordem político e social é um entrevero de normas e choque de lealdades. Paulo Roberto tem seu ônus político coberto pelo fato de ser incondicional às ordens da governadora e abrir um caminho pessoal a qualquer custo.
Mendes, se exonerado for, sai como vítima, a não ser que alguma denúncia surja sobre sua figura. Isso é pouco provável, embora tal tipo de hipótese nunca deva ser descartada. Até porque, na “grampocracia”, provas são obtidas e devidamente forjadas se preciso for. Quando ele deixar o posto e resolver não voltar ao comando do policiamento metropolitano e seu outrora local de atuação em Canoas, com certeza tem garantida a eleição para deputado federal. Caminho já trilhado por dezenas de policiais com vocação midiática e também já deveras anunciado por este analista que aqui escreve.
Este artigo foi originalmente publicado no portal de Claudemir Pereira.