Bruno Lima Rocha
4ª, 06 de agosto de 2008; São Sebastião das Lágrimas do Rio de Janeiro
Ainda de passagem no Rio, me dei conta de um fato. A presença de áreas exclusivas da política, onde há controle da campanha para prefeito e vereadores, não é um fenômeno isolado. Resta fôlego para a mídia difundir e denunciar episódios. Mas pelo visto, o problema veio para ficar.
Comparo 2008 com o ano 2000, a última campanha carioca que acompanhei. Correu tudo na relativa tranquilidade negociada. Ninguém me contou, assisti com os próprios olhos. Atuava como alfabetizador voluntário em uma comunidade de favela na região central. Lembro de alguns candidatos subindo e descendo o morro à vontade, com tudo acertado antes. Em comícios e inauguração de obras locais, os "meninos do movimento" ficavam discretos, mas visíveis. Até secretário municipal apareceu por lá e foi tão bem recebido como nós educadores.
Em 2008 temos novidade na política. O acerto de votos passa a ser uma commodity.
O que as "milícias" de para-policiais fazem é controle territorial complementar ao Estado. Aprenderam com o tráfico, acostumado a defender e atacar favelas. Todo geógrafo sabe que um território inclui recursos, relevo, riquezas naturais e população. A autonomização de grupos paralelos, tanto de narcotraficantes do varejo (como o CV, TC, ADA e demais rachas), assim como dos chamados milicianos, era previsível. É comum buscarmos exemplos na Colômbia para comparar estas organizações criminosas. Nem precisava ir tão longe. No Grande Rio reside um exemplo de modus operandi adaptável para o controle político de população.
Na pesquisa para o artigo, encontrei a tese de doutorado de José Cláudio de Souza Alves, defendida na USP na pós de sociologia em fevereiro de 1998: “Dos Barões ao Extermínio: uma História de Violência na Baixada Fluminense” (leia a tese completa em Pdf). Nela, Souza Alves debate com detalhes e boa base teórica, o processo de autonomia e protagonismo político dos grupos de extermínio. Não precisa ser detetive para identificar matador-prefeito e vereador-bandido na Baixada. Nem especialista para ver que algo semelhante se daria na capital fluminense. Se todos sabiam, porque nada foi feito antes?
Este artigo foi originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat