Oaxaca pode ser um grande ensaio, uma continuidade da Outra Campanha encabeçada pelo EZLN, e uma experiência real e concreta de poder popular. O Continente joga suas fichas na terra de Benito Juarez.

A longa marcha oaxaqueña está fincada em raízes mais profundas do que se pode conjecturar a partir de uma perspectiva colonizada.

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Neste momento, o Estado de Oaxaca, quinto maior do México, é palco de um levante sustentado por sua população majoritariamente indígena e da conseqüente repressão militar coordenada pelo atual governador Ulisses Ruiz. As barricadas e marchas que reúnem multidões, além das ocupações dos veículos de comunicação estatais, constituem um forte movimento popular que pode indicar um dos caminhos para a emancipação de toda América Latina.

Apesar dos abundantes recursos naturais, Oaxaca se caracteriza pela pobreza e concentração de renda, o que ocasionou que seu processo histórico fosse marcado por grandes lutas sociais e políticas – sistematicamente reprimidas por seus diferentes governos. Prova disso é o elevadíssimo número de presos políticos nesse Estado. Assim, se constituíram localmente organizações sociais, políticas, indígenas e de direitos humanos, com reivindicações específicas como a liberdade dos presos políticos, o respeito às formas de organização tradicional indígena e contra a repressão aos lutadores do povo. Em âmbito nacional, as organizações oxaqueñas contribuem nos esforços de resistência e na busca pela auto-organização e administração dos territórios e recursos naturais.

No período da gestão de Ulises Ruíz, do Partido Revolucionário Institucional (PRI), iniciado em 2005, essas organizações se puseram em oposição com a endêmica corrupção do governo estadual. A resposta da oligarquia local, mesmo em democracia liberal-formal, foi uma política autoritária e favorável à privatização dos recursos naturais. Esta política é de fato, a continuidade do ao Plano Puebla Panamá (PPP).

Organicamente, a população organizada vem tentando frear a repressão do poder estatal. A resposta priista não tardou, e veio está na diminuição do orçamento dos municípios rebelados, além de prisões e seqüestros de manifestantes.

Os confrontos se acirraram em 22 de maio, durante um protesto de professores que exigiam aumentos salariais. A mando de Ruiz, as reivindicações da categoria foram duramente reprimidas, o que causou um sentimento de imensa indignação popular. A partir de então, camponeses e indígenas aderiram aos protestos e transformaram as demandas econômicas do magistério em uma exigência maior: A destituição do governador.

Houve a necessidade da criação de mecanismos de organização das massas que aderiam às barricadas. Assim, pouco depois, em 17 de junho, era formada a Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO). O órgão reúne mais de 365 organizações locais, e é a instância de decisão máxima de decisão do povo que se declarara em rebelião contra o mau governo.

O movimento encabeçado pela APPO desencadeou uma rebelião histórica. Desde 1° de agosto, foram ocupadas duas emissoras de rádio e um canal de TV do Estado. Funcionando sob controle popular, tornaram-se ferramentas para a divulgação das lutas – antes difundidas apenas pelos meios comunitários e livres. Em contrapartida, desde o dia 29 de outubro, a Polícia Federal Preventiva (PFP) comanda uma operação para destruir as formas de poder popular.

Mesmo com a crescente pressão tanto de manifestantes quanto de congressistas, Ruiz, que rejeita as acusações contra ele, disse que não deixará o cargo. O presidente do México, Vicente Fox, prometeu matar no peito e levar a conta repressiva como legado histórico do fim de sem mandato. O mesmo se vai em 1º de dezembro, e tem a missão de deixar o caminho aberto para seu sucessor e correligionário do PAN.

Pesquisa e redação de Camila Reinheimer

Revisão de Bruno Lima Rocha

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