
4ª, 30 de abril de 2008, Vila Setembrina dos Farrapos traídos pelos oligarcas
Durante a década de ’90 instalou-se um discurso gerencialista visando a “modernização” e a “racionalidade” no Estado brasileiro. Uma das metas deste debate é o de criar o mito do “cargo técnico” em detrimento de uma função política. Ter um homem de confiança com o selo de “técnico” é um capital político para qualquer governo. Para uma gestão que assume para si o discurso e prática do gerencialismo, estes recursos humanos representam um valor agregado ainda maior. Quando se perde um quadro com este perfil percebe-se o tamanho do problema. Constata-se também que esta divisão de selos e rótulos é apenas isso, um esconde-esconde de interesses e premissas de pensamento. Neste momento, uma crise tenta se instalar no núcleo duro do governo Yeda Crusius (PSDB-RS) através de uma CPI e a queda do secretário de Planejamento.
Na última quinta-feira o economista Ariosto Antunes Culau saiu do trabalho para um “happy hour” com um amigo. Nas instalações da antiga fábrica da Cervejaria Brahma, atual Shopping Total, o jovem e promissor funcionário de carreira do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão tomou chope e comeu iscas de peixe. Local público e ambiente ameno. Seria apenas mais um encontro de amizade caso Ariosto não fosse o Secretário de Planejamento e Gestão do Rio Grande do Sul. O problema não é o homem do 1º escalão estadual sair depois do trabalho; tampouco se tratava de alguma inconfidência de sua vida privada ou matrimonial, longe disso. O problema de fundo é que o outro na mesa era ninguém menos que o empresário Lair Antônio Ferst, um dos indiciados na Operação Rodin da Polícia Federal.
O momento não podia ser pior. Na Assembléia Legislativa, a CPI do Detran é presidida pelo deputado estadual Fabiano Pereira (PT), com base eleitoral
Segundo as palavras do próprio (ex) secretário, o chope desceu quadrado. Por uma incrível “coincidência”, a repórter do jornal Zero Hora Marciele Brum e o fotógrafo Marcos Nagelstein estavam no Shopping no exato momento
A sexta-feira foi marcada pela especulação. O nervosismo é mais que justificado. A oposição busca uma brecha para sentar a bomba do Detran no colo da governadora. Yeda Crusius, dentro dos limites da política da província, fez o possível para segurar um de seus homens de confiança. No final do expediente de 25 de abril, Ariosto Culau permanecia secretário estadual, tendo despachado normalmente ao longo do dia. O ritmo vertiginoso das denúncias e negociações de bastidores atravessa o final de semana. E, na noite de domingo 27 de abril, o economista entrega carta renúncia para a governadora, em caráter irrevogável.
Afinal, porque caiu um dos mais prestigiados secretários do Rio Grande do Sul?
O fato gerador do escândalo foi a criação do fato midiático através de uma cobertura jornalística. A gravidade do fato está no encontro se dar em um espaço público, muito freqüentado. Lair Ferst e Ariosto Culau são correligionários do PSDB/RS; simultaneamente o ex-secretário tinha como tarefa “sanear” o órgão do esquema da suposta fraude. É aí que mora a contradição, porque o empresário do ramo do calçado, que fora operador do caixa de campanha de Yeda, é um dos suspeitos principais. Mais, Ariosto cai por uma antiga regra da crueldade da política. Entregam-se os anéis para não perder os dedos. Corta-se uma cabeça para a guilhotina não ir parar dentro do palácio.
Mesmo abdicando do cargo, Culau se torna alvo da CPI e de suas investigações. A meta da oposição era levar para depor o secretário-geral do governo e ex-presidente da CEEE (estatal de eletricidade) Delson Martini. A importância de Martini para o governo do estado é tão grande que pode ser feita uma analogia. Fazê-lo depor tem para o Piratini o mesmo significado que tem para o Planalto a exposição de Dilma Roussef a um emparedamento no Senado. Derrubando Culau se acalma a oposição estadual e consegue-se ao menos um pouco mais de tempo para evitar o depoimento e a exposição do homem que controla a agenda de Yeda Crusius.
A queda de Ariosto Culau é um movimento no tabuleiro das relações de poder no Rio Grande. Se a CPI conseguir atingir a governadora diretamente, o escândalo de corrupção do Detran-RS ganhará a temida dimensão de crise política.
Este artigo foi originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat
