
Em outubro de
A quebra do setor mineral do país com o desmonte das empresas estatais fragilizaria um dos principais pólos de resistência popular no país, a histórica COB – Central Obrera Boliviana – mas engendraria um dos fenômenos de novo tipo que vem marcando o país, e para o qual as ciências sociais não têm um nome para caracterizar o processo, qual seja, a recampenização desse proletariado mineiro que agora se dispersava. Trata-se, na verdade, da reterritorialização camponesa desse proletariado em dispersão, sobretudo pelos vales do Chapare, quando passam a se dedicar em grande parte ao cultivo de coca. E na Bolívia, assim como no Equador, Peru, México, Guatemala, Paraguai e sul do Chile, o conceito proposto por Darci Ribeiro de indigenato, qual seja, um campesinato etnicamente diferenciado, tem enormes implicações sociais e culturais e, cada vez mais, políticas. A geografia social boliviana, assim como a equatoriana, nos ajuda a entender a força do indigenato insurgente, conforme nos ensina o antropólogo Xavier Albó, na medida em que ao mesmo tempo em que parte dos antigos mineiros que se reterritorializam enquanto camponeses seguem mantendo importantes relações com as matrizes culturais dos povos originários e com as populações urbanas em função das relações socioespaciais mantidas entre as cidades com o altiplano.
O melhor exemplo disso é a população de El Alto, cidade onde está localizado o aeroporto que dá acesso à capital
Um hibridismo explosivo então se configura quando uma cultura político-sindical operária – como a rica tradição dos mineiros bolivianos – se encontra com a coca e, assim, com uma história de longuíssima duração que remete à ancestralidade indígena atualizada por meio desse campesinato cocalero que, por sua vez, está frente a frente com a intervenção imperialista estadunidense que, desde os anos oitenta, tenta impor a erradicação da coca. Uma declaração do então embaixador estadunidense Manuel Rocha, em abril de 2001, dá o tom da intervenção: “Bolívia es el país em la región (andina) que mejor cumplió en la lucha contra el narcotráfico; (en Washington) están admirados de lo que pasó em estos tres años en Bolívia” (
Acompanhando um processo em curso em toda a América Latina onde a resistência contra as políticas neoliberais acabou por derrubar cerca de 20 governos desde
A truculência histórica da classe/etnia dominante na Bolívia se encarregaria de oferecer os ingredientes de sofrimento com os massacres que se seguiram às mobilizações callejeras pela reapropriação social do gás em 2003 com dezenas de bolivianos sendo assassinados pelas forças militares a mando do então Presidente Goni de Lozada.
Desde 2006, quando Evo Morales tomou posse e, sobretudo depois que o amplo movimento social conseguiu maioria na Constituinte através de seu “Instrumento para
Cabe aqui recordar o fato de que um dos impasses cruciais nas discussões na Assembléia Constituinte foi a exigência, pela oposição, da necessidade de um mínimo de 2/3 dos votos dos constituintes para a aprovação da Carta Magna, como requisito supostamente essencial para um resultado democrático que contemplasse a vontade das minorias e aprovasse a nova constituição amplamente discutida. Essa mesma oposição, em um passado não muito distante no qual o papel oposição não lhes cabia, se regozijava no parlamento aplicando aquilo que ficou conhecido como “rodillo parlamentário”, um sistema de composição de alianças esdrúxulas e/ou improváveis para a composição de 50% mais um dos votos das câmaras no parlamento, aprovando o que lhes fosse de interesse. Num interessante sinal dos tempos, hoje, quando já não são mais capazes de compor uma maioria simples que lhes atenda os desejos, tornaram-se ardorosos defensores da democracia das minorias.
Porém, mesmo com todo o apoio da mídia para tentar desestabilizar o governo durante o referendum revocatório, Evo Morales conseguiu ampliar seu apoio popular tendo passado de 53% dos votos com que se elegeu, em dezembro de 2005, para 67%, em agosto de 2008! Mesmo assim, e tendo convidado os seus oponentes ao diálogo, no que foi contestado por parte de algumas lideranças populares que exigiam mano dura, as classes/etnias dominantes acantonadas na Meia Lua, agora Minguante com a derrota em Chuquisaca, resistem e exigem que o Presidente abra mão de uma gestão nacional dos recursos originários – justamente dos hidrocarbunetos – tendo inclusive desencadeado ações terroristas contra instalações da empresa que com tanto sacrifício foi nacionalizada pelas lutas e mortes recentes de bolivianos e bolivianas no ainda vivo Outubro Sangrento da Guerra do Gás de 2003.
O interessante é que as classes/etnias dominantes capitaneadas por Santa Cruz tentam se reapropriar do gás, o elemento de uma unidade nacional que vem se constituindo a partir do indígena num país profundamente fragmentado social e territorialmente, parte do caráter abigarrado da sociedade boliviana, como nos ensina René Zabaleta Mercado: um “Estado aparente”, incapaz de articular as diferentes temporalidades/territorialidades existentes no país.
A unidade nacional que se tenta construir a partir da reapropriação do gás natural, fruto das lutas e do sangue derramado nas ruas de El Alto, tem sua lógica subvertida pela elite lunática ao definir os hidrocarbonetos como recurso praticamente exclusivo daqueles departamentos de onde é extraído, discurso que logra obter um nítido apoio popular nessas regiões, sem que se apercebam de uma lógica inerente a esse processo, qual seja, a de um saudosismo pela ingerência estrangeira na administração desse recurso, afora seu anti-indigenismo histórico.
A postura de não-enfrentamento direto com que o comandante em chefe das Forças Armadas vem conduzindo o processo, abdicando de prerrogativas legais diante de uma clara tentativa de secessão, deve ser entendida como parte do profundo aprendizado político democrático que o movimento indígena-camponês boliviano experimentou, onde 1952 não é uma data qualquer. A recusa a aplicar as mesmas medidas de força com as quais foram sucessivamente reprimidos ao longo da história boliviana tem seu fundamento na compreensão da importância da construção de um núcleo comum, apropriando-nos aqui da formulação do politólogo Luis Tapia, que seja resultado do diálogo entre os diferentes setores.
Que não se confunda a disposição incessante ao diálogo com fraqueza. Este governo é herdeiro e tributário de uma luta que bem começou há alguns séculos, quando as botas dos irmãos Cortés tocaram estas terras pela primeira vez. É essa memória radicalizada – não o radicalismo midiáticamente condenado, extremista e inconseqüente – mas o de uma luta que tem raízes profundas, que se expressam na defesa firme que o governo Evo Morales faz daqueles que tiveram sua história negada. E que o exemplo de El Alto insiste teimosamente em não nos deixar esquecer.
Jallalla Bolivia!
* Professor (Dr.) do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense e Pesquisador do LEMTO – Laboratório de Estudos de Movimentos Sociais e Territorialidades.
** Mestre em Geografia pela UFRGS e Pesquisador do LEMTO – Laboratório de Estudos de Movimentos Sociais e Territorialidades.
