Bruno Lima Rocha – abril 2025
Os Estados Unidos anunciaram um novo recuo na guerra comercial de Donald Trump. Segundo o G1, decidiram excluir produtos eletrônicos das chamadas tarifas recíprocas.
As duas maiores economia do mundo entraram em uma escalada sem precedentes. Os Estados Unidos passaram a cobrar um total de 145% de tarifas sobre as importações chinesas. Na China, entrou em vigor no sábado (12/04) a taxação de 125% sobre os produtos americanos.
Parece que a “puxada de tapete” veio da relação entre a fração de classe dominante beneficiada na campanha e o “deep state” de carreira. A alfândega estadunidense (https://www.cbp.gov/) publicou uma lista de produtos que serão isentos das tarifas recíprocas — incluindo as impostas à China. São smartphones, computadores, roteadores, chips, semicondutores e outros eletrônicos.
Eles ficam fora da taxação de 10% para todos os países e de 125% imposta à China. Mas esses produtos vindos da China vão continuar com uma tarifa de 20%, criada por Trump em fevereiro.
Um país improdutivo
Cerca de 80% dos iPhones vendidos nos EUA são fabricados na China. Além da ausência de bases produtivas os EUA não têm mão de obra qualificada para competir com a China nesta produção. A pressão inflacionária seria imediata. O preço de um iPhone poderia subir de US$ 1 mil para US$ 1,6 mil.
Os CEOs das chamadas Big Techs forçaram o governo Trump ao recuo, garantindo o interesse de suas empresas e não o planejamento da potência decadente. Ao se dedicar a especulação financeira e não ao sistema produtivo, os EUA estão perdendo a disputa industrial no século XXI.
Lhes resta intimidar ao metade dos Estados com representação na Assembleia Geral da ONU, seja por seu poderio militar, seja por sua capacidade de penetração através do mercado de dívida e do comércio internacional. Outra forma de chantagem planetária é na manipulação de redes sociais e a hegemonia cibernética em países ocidentais ou ocidentalizados. Ainda assim, o veneno também lastima quem o produz, considerando a manobra de pressão que o setor das Big Techs acaba de incidir sobre o próprio Trump.
O dólar segue tendo um privilégio exorbitante. Mas isso vai até quando?
Na prática as economias potentes com algum impacto global “se defendem” acumulando reservas externas, sendo a maior parte de sua composição em dólares estadunidenses.
Para termos a noção e a gravidade de ter reservas em dólares ou modificar o padrão de acumulação em outras unidades de valor (como o ouro), vejamos os números. As maiores reservas internacionais do mundo (e USD dólares), de acordo com o website Investopedia, com dados de 30 de janeiro 2025:
China – USD 3,682 trillones
Japão – USD 1,278 trillones
Suíça – USD 927 bilhões
Índia – USD 6662 bilhões
Rússia – USD 616 bilhões
Hong Kong – USD 463 bilhões
Arabia Saudita – USD 432 bilhões (data de fevereiro 2024, não atualizada pelo Banco Central Saudita)
Coreia do Sul – USD 415 bilhões
Alemanha – USD 387 bilhões
Singapura – USD 377 bilhões
Brasil – USD 329,73 bilhões
Itália – USD 307,5 bilhões
França – USD 306,9 bilhões
Já a outra “reserva mundial” em títulos públicos dos Estados Unidos apresenta uma perda considerável. Em outra matéria do G1, países de todo o mundo detêm mais de US$ 8,5 trilhões em títulos americanos e, não por acaso, houve uma intensiva liquidação destes papéis deste o fatídico 02 de abril do corrente ano.
No ano fiscal que se encerra em dezembro de 2024, os maiores detentores dos títulos eram os seguintes. O Japão é o maior credor, com mais de USD 1,059 trilhão. A China vem em segundo lugar, com USD 759 bilhões. Na sequência temos Grã Bretanha com USD 722,7 bilhões; Luxemburgo (paraíso fiscal) com USD 423,9 bi; Ilhas Cayman (paraíso fiscal) com USD 418,9 bi;
Canadá com USD 378,9 bi; Bélgica com USD 374,6 bi; Irlanda com USD 336,2 bi; França com USD 332,3 bi; Suíça (paraíso fiscal na prática) com USD 288,5 bi; Taiwan com USD 282,5 bi; Hong Kong (que também opera pela praça financeira chinesa) USD 255 bi; Cingapura com USD 249 bi (opera pela praça financeira chinesa); Índia com USD 219,1 bi; e o Brasil é o 15º país com mais títulos americanos, com quase USD 201,6 bilhões.
A participação da China em títulos do Tesouro dos EUA seguia a tendência geral já no ano passado. Caiu para US$ 759 bilhões (R$ 4,3 tri) em dezembro de 2024. Isto significou o nono mês de queda. Desde abril de 2022, o valor tem estado abaixo da marca de 1 trilhão de dólares e a partir do final da crise imobiliária e a bolha que evaporou valores de ativos tóxicos (2007 e 2008), o centro de alto nível decisório chinês optou por liquidar – aos poucos – esses títulos. Ao usar menos dólar e deter menos compromissos do Tesouro dos EUA, ampliam as reservas internacionais em metais (como o ascenso do ouro), nas reservas soberanas em yuan e pode ser desenvolvido um sistema de securitização baseado em commodities.
Não adianta decretar uma mudança da base produtiva sem ter condições concretas
A agência de notícias chinesas Xinhua, em sua versão na língua portuguesa, publicou um artigo intitulado Por que os aumentos de tarifas dos EUA são contraproducentes?. Vejamos os dados:
“Vários estudos demonstraram que a guerra comercial de Washington com a China não resolveu os problemas estruturais da economia americana. Em vez disso, elevou os preços, reduziu a produção econômica e o emprego, além de prejudicar a economia em geral. Os principais custos da guerra comercial foram aguentados por empresas e pelos consumidores americanos.
Enquanto isso, dados do Departamento do Censo dos EUA mostraram que, embora os déficits comerciais do país com a China tenham diminuído, seus déficits comerciais globais aumentaram para 1,07 trilhão de dólares em 2024, um aumento significativo em relação aos 870 bilhões de dólares em 2018. Quando Trump lançou a guerra comercial, prometeu trazer empregos de volta. Novamente, os dados mostram outro cenário.
Na indústria siderúrgica, onde Trump impôs uma tarifa de 25% em seu primeiro mandato, o número de empregos nos EUA caiu para 80.200 em 2021, o menor desde a década de 1980. Embora o número tenha voltado a subir para 83.600 em 2023, ainda estava abaixo dos 84.100 registrados em 2018.”
Se de fato os Estados Unidos tiverem uma decisão estratégica para retomar a hegemonia industrial e da corrida tecnológica (no processo produtivo) precisarão realizar primeiro um pacto bipartidário. Na sequência um planejamento de ao menos uma década, como fizeram na exploração de petróleo, saindo de uma situação de fragilidade no início deste século ao nível da autossuficiência que tem hoje. Do contrário, de bravata em bravata, a Casa Branca vai ficando refém da administração inconsequente e manipuladora que saiu vitoriosa da esquizofrênica eleição presidencial de 2024.