Passados pouco mais de 20 anos, o fenômeno de reconversão ideológica toma de assalto aos dirigentes que haviam conquistado Manágua após mais de uma década guerra civil
Foto:Daniel Ortega realizou várias alianças impensáveis no passado para garantir sua atual candidatura. Presidente da Nicarágua entre os anos de 1979 e 1990, o político se aliou a grupos que o enfrentaram duramente nos anos ‘80. Nesse período, com a FSLN no governo, ele liderou um processo de câmbio social e político, conhecida como a 2ª etapa da revolução sandinista. Manteve o esforço de guerra lutando contra paramilitares patrocinados pelos Estados Unidos, os chamados “Contras”, estatizou parte da economia e realizou confiscos de terras. Cerca de 50 mil pessoas morreram no conflito financiado pela CIA e estimulado pelas teses da Teoria do Dominó, no mandato Reagan-Bush pai.
Quando esteve no poder, o sandinista era visto como uma ameaça para a estabilidade na América Central. O governo da FSNL aplicou uma reforma agrária parcial e acuou o empresariado local, que temia que a Nicarágua seguisse os passos da nacionalização promovida por Fidel Castro
O político tem se pronunciado afirmando que seus dias de revolucionário ficaram para trás e que acredita em reconciliação e unidade nacional policlassista. Comprovando seus discursos, tem como vice o banqueiro e ex-líder dos Contra Jaime Morales, antigo proprietário da casa em que o recém-eleito presidente vive hoje com sua mulher Rosario. A casa foi confiscada pelos sandinistas quando estavam no poder. No simbólico, a ascenção social dos dirigentes da FSLN na Manágua recém ocupada foi conhecida como o “assalto às mansões”. De mansão para dacha, de dirigência para nomenklatura, levou pouco mais de uma década para a derrota ideológica florescer no interior do antigo estado-maior revolucionário.
Também no passado, os sandinistas viviam em constante conflito com a ala direita da igreja católica. João Paulo II quando de sua visita a Manágua em 1981, declarou e alto e bom som: “está terminada a Teologia da Libertação!” Em outro giro à direita, Ortega menciona com freqüência sua crença em valores cristãos conservadores. Recentemente, a FSLN, votou no Congresso a favor de uma proibição total do aborto no país.
Assim como no Brasil, paira na Nicarágua uma dúvida de fundo quanto ao caráter das mudanças adotadas pelo presidente eleito e seus correligionários. Será oportunismo político ou realmente um recâmbio político-ideológico? Na dúvida conceitual, valeria à pena perguntar a José Dirceu sua opinião a respeito.
1a redação de Camila Reinheimer
Redação final de Bruno Lima Rocha
