Negar a esta força social é negar o óbvio, tentando passar a idéia de que a realidade deixa de ser real. Triste papel mil vezes repetido.
Foto:O jornal Zero Hora em sua última edição dominical (20 de janeiro de 2008) apresenta em sua seção de polícia, páginas
Logo no início da reportagem, após os numerais (1, 2 e 3), na página 33, o texto aponta índices controversos. Na transcrição textual:
“Os nove primeiros meses do ano passado comparados com o mesmo período de 2006 tiveram redução e 13 dos 15 itens de segurança. Apenas o trafico de drogas e os roubos cresceram”.
Qualquer redator sabe que a forma de abordagem é a orientação de fundo. Toda a mudança estrutural apontada por Etchigury pode ser lida às avessas. E, justo por isso, poderia ser escrita ao contrário. O ano de 1995 marca a chegada do PSDB ao Palácio dos Bandeirantes. É também o ano de nascimento do Partido do Crime, também conhecido como Primeiro Comando da Capital (PCC). Começou a ser gerido nos porões medievais do Cadeião de Taubaté e veio à tona dois anos depois.
Os índices apontados pelo repórter de ZH podem ser lidos como fator PCC. Explico. Em geral, quando mais o crime de baixa incidência se organiza, a cooptação e a coerção operam como reguladores. A segurança individual, o respeito ao patrimônio em uma favela carioca é mil vezes maior do que o respeito à propriedade em uma residência de vila na Grande Porto Alegre. A organização do crime praticado pela massa analfabeta funcional é sentida no dia a dia das comunidades mais carentes. Não que a organização e aprimoramento do aparelho policial de São Paulo não tenha sido relevante para a diminuição dos índices. Mas, negar o fator PCC é negar o óbvio.
É o que faz o especialista Túlio Kahn. Afirma que o PCC está sob controle. Ao mesmo tempo, se elogia a política prisional dos seguidos governos tucanos
Impressiona a capacidade de oferecer versões narrativas a partir de um conjunto de cifras e depoimentos. Esta é a natureza do jornalismo, a proposta da matéria, a intencionalidade da reportagem e a linha editorial do veículo. È por isso que o conceito é a maior ferramenta de análise, desde que não obstrua ou negue os fatos. No caso da matéria de Etchigury e Bernardi, além de não ter o contraditório, o tema central passa ao largo.
Como negar as duas rebeliões do PCC em 2006? Como aceitar a versão de Túlio Kahn, quando categoricamente o especialista afirma que o PCC está “controlado”? Como, após as constatações, ter alguma confiança tanto na matéria como na linha editorial do jornal?
Simplesmente impossível.
