Júlia Klein Caldas e Bruno Lima Rocha
O chamado Partido da Imprensa Golpista (PIG) nunca escondeu seu lado e este jamais foi o da defesa da democracia. O sistema liberal oligárquico necessita de porta-vozes, intérpretes, canais de dissensos, formadores de opinião e donos de reputação, que se mostram por meio do canal cedido pelos patrões. A base disso tudo é um “sistema de mídia hereditária e hegemônica”, com trabalhadores/as da comunicação em distintos setores, filtrando, produzindo e canalizando uma parcela importante da economia da atenção.
Em termos de um modelo ideal de comunicação, o “jornalismo de brechas” representaria aquilo que ainda pode ser resgatado dentro do capitalismo, mesmo em sua fase mais perversa, marcada pela especulação financeira e pelo emburrecimento coletivo. No século XXI, em meio à Indústria Cultural, o jornalismo profissional poderia atuar como uma trincheira de resistência civilizada à manipulação potencializada pelos algoritmos, controlados por empresas de tecnologia financiadas pelo Departamento de Guerra do Pentágono. No entanto, essa possibilidade se concretiza apenas parcialmente.
Nos Estados Unidos, conglomerados de mídia que apoiaram Hillary Clinton e convergiram com os interesses de Wall Street enfrentam, agora, a rejeição de Trump, embora ele próprio reproduza discursos alinhados aos da Fox News e de outros veículos conservadores. No Brasil, as Organizações Globo articulam uma combinação semelhante àquela observada em setores do Partido Democrata: incorporam pautas de diversidade e inclusão, socialmente relevantes, mas preservam uma orientação econômica neoliberal, favorável aos interesses do capital financeiro e dos credores da dívida pública. Essa combinação evidencia uma contradição. A valorização da diversidade no plano sociocultural não implica, necessariamente, no questionamento das estruturas econômicas que reproduzem desigualdades.
No jornalismo econômico propagado pela grande mídia brasileira, essa contradição se manifesta na recorrência de expressões como “corte de gastos”, “austeridade fiscal”, “o mercado está nervoso” e “as regras da economia”, apresentadas frequentemente como descrições neutras da realidade. Ao naturalizar determinadas escolhas políticas como necessidades técnicas incontestáveis, esse discurso restringe o debate público, deslegitima alternativas econômicas e naturaliza os interesses dos grupos favorecidos pela ordem vigente. Mesmo pressionados pelo poder das Big Techs (financiadas pelo Tesouro dos EUA), os conglomerados de mídia brasileiros reforçam o discurso rentista ao associar juros elevados e endividamento de empresas e famílias aos investimentos em políticas públicas e sociais, por exemplo.
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