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Coluna Além das Quatro Linhas – Semana de 22 de agosto

espn.br

Uma cultura política se expressa pelo coletivo. Destacados jogadores dos principais clubes da Liga do Estado Espanhol se organizam na AFE em contra o atraso e o calote no pagamento dos salários dos boleiros de clubes menores.

Anderson Santos e Bruno Lima Rocha

Crise nas quatro linhas: do locaute por divisão de lucros à greve por salários atrasados

La Liga, o Campeonato Espanhol da Primeira Divisão, tinha início da temporada 2011/2012 marcado para o último final de semana, mas greve por garantias de pagamento de salários nos clubes menores, liderada pela associação dos jogadores profissionais já paralisou a primeira rodada e tudo indica que a segunda seguirá o mesmo caminho.

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Quando se pensa em futebol hoje vem logo à cabeça jogadores como Messi, Xavi, Iniesta, Pedro, Davi Villa, Piquét e, vá lá, Cristiano Ronaldo, Özil, Di María... Independente da nacionalidade de origem, os melhores jogadores da atualidade jogam no Real Madrid ou no Barcelona, sendo este último, tanto pelo esquema tático como pelo elenco, é o lugar dos sonhos de qualquer treinador do mundo.

Além deles, a Espanha finalmente conseguiu quebrar o tabu de sempre chegar favorita nos torneios de seleção mundiais e fracassar no meio do caminho. Nos últimos anos, vieram os títulos europeus das categorias sub-19 e sub-21, a Eurocopa de 2008 (tarimbando a base para La Furia, agora rebatizada de La Roja) e, o principal, a Copa do Mundo do ano passado. O país se consolidou como o principal centro de se jogar futebol no planeta, ultrapassando praças como Itália, Inglaterra, Argentina e Brasil.

Parece que as luzes não cansam de projetar os boleiros e cartolas do Estado Espanhol. Agora, também vira o centro de uma negociação pouco vista na história do futebol mundial. A Associação dos Futebolistas Espanhóis (AFE) anunciou uma greve dos jogadores durante as duas primeiras rodadas de La Liga, o Campeonato Espanhol de futebol. Após dois meses de negociação com a Liga Nacional de Futebol Profissional (LFP), que representa a união dos clubes espanhóis – um Clube dos 13, só que completamente autônomo –, nada foi resolvido.

A primeira rodada da “Mejor Liga del Mundo” já foi e a segunda caminha na mesma direção. Assim, a tabela pode ser esticada a tal ponto que a final da Copa do Rei deve acontecer antes do último clássico entre Real e Barcelona pelo Espanhol, e a final da Liga dos Campeões deverá ocorrer antes do final do torneio local.

Impressiona ver a capacidade de mobilização da AFE, gerando algum grau de solidariedade entre os trabalhadores da bola, categoria esta cujas diferenças salariais são absurdas.

OS PROBLEMAS

No Brasil, as brigas sobre os direitos de transmissão do Brasileirão levaram a um aumento da diferença entre os dois clubes de maior torcida do país, Flamengo e Corinthians, e os demais. O que pode gerar, num futuro próximo, uma diferença da qualidade dos elencos destes clubes frente os seus concorrentes. Ou seja, o equilibrado futebol nacional poderia virar o futebol espanhol, em que Real Madrid e Barcelona recebem mais das transmissões de seus jogos e têm todos os benefícios possíveis para manter os melhores e mais caros esquadrões do planeta. É a lógica do oligopólio como classe de mercado – neste caso um duopólio com outro oligopólio menor a disputar vagas de entrantes não fixos – onde quem mais tem segue concentrando poder e recursos para manter a distância – e se possível aumentá-la – perante os demais concorrentes.

É por conta dessa diferença de valores que o futebol espanhol, a exemplo da economia do país, vive uma crise sem precedentes, a ponto de os clubes deverem cerca de 50 milhões de euros (R$ 110 milhões) a mais de 200 jogadores profissionais! E quem vai pagar a conta? Será que os três maiores bancos de Espanha – a saber, Santander, BBVA, Popular, Pastor, Bankinter, Sabadell e Banesto, sendo este último controlado pelo Santander – abrirão as porteiras para uma política de salvação da Liga, mesmo que depois dêem um beijo de vampiro e tomem conta das dívidas soberanas destas entidades-empresas de futebol?!

Trata-se de um fosso abissal para o mesmo ambiente concorrencial. Para se ter uma idéia da discrepância, enquanto Real Madrid e Barcelona se dão ao “luxo” de dispensarem jogadores como Eto’o, Ibrahimovic e Kaká, o Valencia perdeu em um ano os seus quatro jogadores campeões mundiais no ano passado. Já o Villareal, quarto colocado no campeonato passado, pela primeira vez em 18 anos desta sua passagem na primeira divisão, está sem patrocinador master, dada a crise da economia européia.

A greve dos atletas se justifica e ultrapassa as urgências de curto prazo. Eles exigem garantias que o débito anterior seja pago e, principalmente, que se crie um fundo (velha e eterna medida quase nunca instaurada!) em que se possa garantir que os contratos estabelecidos sejam cumpridos, com pagamentos em dia – algo jamais imaginado em terras tupiniquins, mesmo nos piores (houve melhores?) dias dos clubes daqui.

Os protestos vão além. A AFE reclama também da obrigatoriedade de haver um jogo por rodada a ser transmitido em sinal aberto – tão inimaginável no Brasil quanto uma greve de jogadores –, além de querer mudanças na lei de apostas. A Ley Del Deporte é de 1990 e precisa ser alterada, dadas as mudanças no cenário do futebol mundial, em que os “novos ricos” erguem clubes quase falidos (lavando dinheiro e se legitimando como investidores no quase decadente Velho Mundo), como nos casos de Chelsea e Manchester City e, do lado espanhol, do Málaga. O surgimento destes investidores “mágicos” pode ampliar o fosso entre ricos e pobres, sejam times ou jogadores.

Lá, diferente de cá, todos os atletas cumprem o que é definido pelo seu sindicato, que mostra ter força. Basta ver nas fotos do anúncio da greve a presença dos capitães de Real Madrid e Barcelona, dois dos principais comandantes do selecionado espanhol: o goleiro Iker Casillas e o zagueiro Carles Puyol.

LOCAUTE

Greve de jogadores profissionais não é novidade neste ano. Outras duas grandes corporações esportivas mundiais viveram tal situação, mas por um motivo bem diferente: a divisão de lucros com os atletas no final da temporada.

Locaute representa a situação em que a classe patronal não quer ceder aos trabalhadores os instrumentos necessários para a sua atividade. Seria uma “greve ao contrário”, em que as equipes proíbem os seus atletas de terem acesso à estrutura de trabalho enquanto não assinarem um novo contrato coletivo. Esta medida foi usada como base para a insegurança societária no Chile de Salvador Allende, obedecendo um plano orquestrado pela CIA, onde a Agência contou com a participação da fatia majoritária do empresariado chileno assim como da entusiasmada adesão das transnacionais lá operando.

No caso da liga estadunidense de futebol americano (NFL), foram quatro meses de tentativa de acordo até se chegar a um consenso. Vale lembrar que a final do NFL, o Super Bowl, é o evento de maior audiência na TV americana. A Associação dos Jogadores (NFLPA) firmou um acordo de dez anos em que, dentre outras coisas, discutiu-se como seria a divisão de 9 bilhões de dólares em receita anual, a imposição de uma escala salarial para atletas novatos e lucros para jogadores aposentados.

Enquanto a temporada da NFL começou no último final de semana, a liga estadunidense de basquete (NBA) divulgou a tabela da pré-temporada mesmo sem uma decisão sobre o locaute de seus atletas. Os clubes desejam uma redução drástica do teto salarial (30%) e o sindicato dos jogadores, é claro, é contra a medida. O último acordo trabalhista válido terminou no início de julho. Num caso semelhante, em 1999, a temporada só teve início em janeiro e com trinta jogos a menos por clube quando comparado ao período anterior.

O resultado desse conflito se reflete para além dos Estados Unidos. Oficialmente sem contrato, as seleções, que disputarão o Pré-Olímpico neste semestre, terão que se responsabilizar sozinhas pelo seguro dos atletas – o que já prejudicou o Brasil em competições anteriores, quando não pôde contar com jogadores atuando da NBA.

Além disso, os jogadores foram autorizados pela Federação Internacional de Basquete (Fiba) a procurar outros clubes, especialmente na Europa, para se manterem em atividade. O ala-armador Leandrinho, do Toronto Raptors, por exemplo, voltou ao Brasil para atuar pelo Flamengo, ganhando um salário de R$ 550 mil por mês, num contrato que vai até quando o locaute terminar ou, no limite, até dezembro.

O melhor jogador da NBA no ano passado, Derrick Rose, do Chicago Bulls, definiu a um site esportivo estadunidense o que é esse processo: “penso é que são bilionários e milionários discutindo sobre dinheiro”.

JÁ NO BRASIL...

Aqui no Brasil a possibilidade de greve de atletas fica só na ameaça, com os clubes correndo para pagar parte do atrasado e prometendo cumprir com o resto no futuro. Mal dá para falar que o pendura só ocorre em clubes pequenos, pois não faltam casos em que os times deixam de pagar as obrigações trabalhistas por mais de três meses e que, como diz a lei, vêem seus atletas saindo de graça para qualquer clube. Basta lembrar que o meia Oscar, autor de três gols na final do Mundial sub-20, saiu do São Paulo por conta disso – justo o time que mais se aproveitou desta regra –, sendo recebido pelo Internacional.

Além disso, ameaças de sindicatos só houve quando se modificou o calendário do futebol, com o Brasileirão sendo disputado em pontos corridos. Com os estaduais sendo encolhidos, mas começando ainda em janeiro, as férias dos jogadores não chegavam aos obrigatórios 30 dias. Algo que, revisto, faz com que as pré-temporadas ocorram numa ou duas semanas apenas. Calendário apertado, algumas equipes com excesso de jogos e obrigatoriedade de montar dois times. Prato cheio para uma bolha no salário de jogadores ditos “de ponta”, sendo que a maioria nem tão de ponta é assim.

Greve mesmo por aqui só a “tradicional”, com gente que sua a camisa, mas só entra em campo no rachão varzeano. Na semana passada, os operários das obras de reforma do Maracanã para a Copa do Mundo paralisaram suas atividades por conta de falta de condições de trabalho, após um acidente que deixou um trabalhador ferido. Nesta segunda-feira (22/08/2011), eles voltaram ao trabalho após conseguirem vale-refeição no valor de R$ 160,00 e plano de saúde. Vale lembrar que as obras estão a cargo de uma joint-venture chamada Consórcio Maracanã 2014, composto pelas empresas Odebrecht, Andrade Gutierrez e Delta Construções. As duas primeiras são “conhecidas” nacionalmente por mil e um motivos, e a última é reconhecida como sendo a grande campeã de licitações durante o governo do ex-tucano Sergio Cabral Filho.

Em junho, os operários do Mineirão já haviam parado por más condições de trabalho. Segundo eles, os salários eram baixos e faltava até água e banheiro. Os responsáveis pela obra no Estádio Governador Magalhães Pinto são as empresas que compõem o Consórcio Minas Arena, a saber, a Construcap, Egesa e Hap. No ano passado, uma greve geral na África do Sul gerou preocupação sobre a execução da Copa do Mundo no país que, assim como o Brasil, tem histórico de tratar mal os trabalhadores em troca de eventos dos sonhos de empreiteiras e políticos. A história aqui se repete....






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