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Coluna Além das Quatro Linhas •


Futebol e Política


O general do radinho, dividia o Caneco com uma das mãos, na outra ajudava a operar a repressão sistemática.

Vila Setembrina dos Farrapos, Continente do Rio Grande de São Sepé,

14 de junho de 2006

Imagino que você leitor, ainda deve estar com taquicardia após a partida de estréia do Brasil na Copa da Alemanha. Este foi o adversário mais difícil. Tivemos pela frente a Croácia e a tensão dos mais de 180 milhões de técnicos da seleção. O magro 1 x 0 foi o suficiente para antever o que vem por aí. Mas, ao invés do lugar comum destas palavras, este artigo se dedica a observar comportamentos e casos reveladores das entrelinhas da maior paixão nacional. A bola como paródia da vida é mais profunda do que imaginamos.

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O primeiro destaque é para o comportamento da mídia brasileira ao longo dos últimos anos. Depois de duas CPIs do futebol brasileiro, uma na Câmara e outra no Senado, por “mágica” foram suspensas as investigações a respeito da gestão de Ricardo Teixeira à frente da CBF. Na mesma fórmula de desaparecimento, sumiram os dezessete pedidos de indiciamento barrados pelo Judiciário do Rio de Janeiro, protegendo assim, o presidente da entidade, que comanda o futebol no país.

Nunca é demais lembrar, que Ricardo Teixeira é o ex-genro de João Havelange; este por sinal quando jovem, foi atleta de pólo aquático do Fluminense Football Club. Quando da conquista do tricampeonato em 1970, Havelange comandava a então Confederação Brasileira de Desportos (CBD), Mário Jorge Lobo Zagallo era o técnico e Carlos Alberto Parreira fazia parte da equipe de preparação física. E, para não esquecer do óbvio, vivíamos o governo do general Emílio Garrastazú Médici, da arma da cavalaria e natural de Bagé.

Tudo isto desapareceu por mágica, vindo a fazer parte mais do folclore do futebol do que de seus bastidores. O mesmo ocorre com os chamados cartolas e suas meteóricas e um tanto estapafúrdias carreiras políticas. A paixão nacional se vê “representada” por seus dirigentes “amadores” também dublês de políticos profissionais. A promoção de um dirigente da bola para o cargo de dirigente político é algo controverso. A quem ele representa? Quais interesses defende? Se fosse um gestor profissional, teria a obrigação de apresentar rendimentos, balanços, contratos registrados e, minimamente, ter uma boa gestão financeira. Como são “amadores”, não prestam contas daquilo que fazem.

Para sanear o ambiente, poderíamos pensar em duas normas imediatas. Uma delas, seria a exigência de quarentena para os dirigentes de futebol. O precedente já está aberto. Os altos tecnocratas, após exercerem funções estratégicas no Estado, tem de esperar um certo tempo até voltarem para a iniciativa privada. É certo que o tempo é curto, e os contatos e influências não se esgotam em um ano. Mas, que já é uma boa medida, isto é.

O mesmo grassa para jornalistas que se candidatam a cargos públicos, tendo eles de se afastar da mídia alguns meses antes das eleições. Já os dirigentes desportivos, possuem um palanque de risco, com público cativo, duas ou três vezes por semana de acordo com o time que controlam. Ficassem de quarentena por dois anos no mínimo, impedidos de concorrer a cargos públicos logo após a gestão de um clube de futebol, e haveriam alterações profundas.

No Rio Grande, temos vários exemplos de carreira e trajetória política vinculada ao futebol. Distinto do que ocorre em demais estados da União, aqui o modelo é mais parecido com o Uruguai e a Argentina. O ex-presidente da Banda Oriental, Júlio Maria Sanguinetti, é tão, umbilicalmente, ligado ao Partido Colorado como à diretiva do Peñarol. Exemplos assim são identificáveis também com políticos do Partido Blanco e o Clube Nacional de Futebol.

Já na Argentina, a mescla incendiária de peronismo e paixão boquense levou à cenários muito interessantes. Tanto do campo popular como do aparelhamento do Partido Justicialista pelas máfias menemistas. Exemplo claro disso é a trajetória do senhor Carlos Macri, dublê de presidente do Club Boca Jrs. e dirigente e candidato parlamentar do PJ ligado a Carlos Saul Menem. Me recordo de uma campanha política Argentina ocorrida no ano de 1997. Nos muros da Bombonera estava pichado:

Vota Macri! De Boca y peronista como tu!

Do lado de cá do Rio Uruguay, ocorre o mesmo. A oligarquia gaúcha, em geral sobre-representada por seu campo jurídico, assiste uma leva de advogados com carreira política entreverada com a dirigência de Internacional e Grêmio. O modo de funcionar de políticos ligados ao futebol gaúcho é institucionalizado. Exemplos atuais são vários, como Paulo Odone, atual presidente do Grêmio e vereador pelo PPS em Porto Alegre; José Otávio Germano, deputado federal pelo PP e ex-dirigente tricolor; Fernando Záchia, deputado estadual pelo PMDB, ex-dirigente colorado e figura presente na mídia esportiva; e o mais notório de todos a nível nacional, o ex-deputado federal e atual vereador pelo mesmo partido, o colorado Ibsen Pinheiro.

Os exemplos são distintos, porque estes dirigentes e políticos, longe de serem folclóricos, são muito competentes. Nem por isso deixam de praticar uma certa demagogia futeboleira. Mas, o problema de fundo é outro. No Rio Grande do Sul existe e é aceitável, a noção de que é legítimo fazer política na interna de um clube de futebol e ao mesmo tempo transplantar essa “representação” para as urnas. Ou seja, se alguma medida houvesse para combater este tipo de prática política, o maior foco contrário sairia daqui.

Mas, sejamos justos, a cegueira e surdez da mídia não é exclusividade gaúcha. A crônica esportiva, sem dúvida uma das mais belas e tocantes formas narrativas contemporâneas, deriva mais para a fábula do que para o jornalismo investigativo. Das vezes que se encheu de coragem, nos ofereceu belos exemplos.

Me lembro da revista Placar dos anos ‘80, ainda semanal e sob a batuta de Juca Kfouri. Naquelas linhas, muitos como eu, tanto aprendemos a tomar o gosto pela leitura, como nos iniciamos na política através da apuração dos escândalos da loteria esportiva. Na literatura social brasileira, Edilberto Coutinho, escritor divino e esquecido, fez poesia urbana nas crônicas do clássico do gênero, “Maracanã Adeus”. Os exemplos são muitos, mas absurdamente minoritários se comparados com a mídia desportiva chapa branca. A mesma que destina laudas sem fim apurando quantas bolhas estouraram nos pés de Ronaldo, e nenhum linha sobre o contrato da Nike com a Confederação Brasileira de Futebol.

Longe de defender uma crônica esportiva séria e sisuda, gostaria de ver a investigação tão precisa e detalhada quanto a análise das variações táticas em cada coletivo da seleção. Mas, fica a pergunta, haveria anunciante para um jornalismo assim?

Creio que sim. Não apenas anunciante como um público ainda mais fiel, bem informado e fiscalizador dos desmandos da cartolagem. O radinho de pilha colado ao ouvido do general não maculou a conquista do tri no México. Mais forte que Médici e Orlando Geisel estava a presença do alegretense João Saldanha. Alçado ao Olimpo da glória, optou por ficar entre os mortais. Deixou o posto de treinador da seleção brasileira mas não a dignidade. Mandou o presidente escalar o ministério, pois o time quem escalava era ele.

Que João Saldanha sirva de exemplo para os políticos e assessores de campanha de 2006.






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