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Coluna Além das Quatro Linhas •


A Copa do Brasil e os sete anos seguintes


Joseph Blatter e Ricardo Teixeira, os dois manda-chuvas do futebol mundial, será que os dois cartolas resistiriam a uma devassa fiscal seguida de auditoria e inteligência?

4ª, 30 de outubro de 2007, Vila Setembrina dos Farrapos, Continente de São Sepé

O Brasil está confirmado como país sede da Copa do Mundo de 2014. Uma enorme, pitoresca e representativa delegação acompanhou o presidente até Zurique, na Suíça, para o momento do anúncio. A partir de agora, os próximos sete anos serão de contagem regressiva. Resta saber se teremos algo diferente em termos de realização nacional. Isto porque, grandes obras e espetáculos são constitutivos do Brasil. Em suma, somos capazes de feitos incríveis ao mesmo tempo em que repetimos as mesmas injustiças estruturais.

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Peço que os leitores atentem para o fato de que este artigo não é contra o evento. Muito pelo contrário. Entendo que situações como esta mostram a cara do país, em suas virtudes e mesquinharias. E é aí que mora o perigo. O gigantismo do campeonato mundial de seleções pode ser mais um prato cheio para o patrimonialismo e a corrupção endêmica. Dada a dimensão continental do Brasil, é provável que tenhamos a Copa presente em todas as cinco regiões do país.

A FIFA tem um caderno de encargos para cada cidade com pretensão a ser sede ou receber jogos. Só no quesito construção de estádios a Copa já demonstra a dimensão do problema. Em função destas normativas, a previsão inicial de gastos apenas com estádios é de US$ 1,1 bi, equivalente a R$ 2,8 bilhões de reais. Em tese, as possíveis 4 novas arenas a serem construídas, somadas a outras 14 reformas de estádios estariam a cargo de Parcerias Público-Privadas (PPP).

Primeiro, é necessário compreender que o conceito de PPP “perde a graça” se o Estado puser o capital para a iniciativa privada ser a executora das obras e depois poder explorá-las comercialmente. O segundo problema é a fonte deste financiamento. Além de sair dos cofres do Tesouro Nacional, se o investimento for proveniente de mais endividamento externo não será nada produtivo. Não quero ser estraga prazeres, mas a julgar pelo ocorrido nos Jogos Pan-americanos de 2007, a União vai entrar pesado em todos os níveis de empreendimentos.

Tomando o Pan como exemplo, tanto no campo da repressão de Estado e no controle da população marginalizada, a situação foi caótica. Os moradores do Complexo do Alemão que o digam. Além da aparente calmaria no Rio de Janeiro, também houve erro de previsão de gastos e contas nada republicanas. Considerando a forma típica de proceder dos grandes agentes econômicos e financeiros operando no Brasil, uma medida de Estado precisa ser tomada. O planejamento estratégico para a Copa 2014 deveria incluir concurso público e duplicação do pessoal de órgãos como Polícia Federal (PF), Controladoria Geral da União (CGU), Tribunal de Contas da União (TCU) e Ministério Público Federal (MPF). Vai sobrar alvo para ser investigado.

O raciocínio é simples. Se as contas do Pan já foram no mínimo “complicadas”, imaginemos as contas da Copa 2014. Parto da premissa óbvia que o Estado brasileiro como um todo não regula os grandes agentes econômicos. Como em alto nível decisório não existe diferença substancial entre o campo da política e o da economia, portanto todo cuidado é pouco.

Seria um belo momento para trazermos um discurso inaugural, novo e revigorado. Não é o que se apresenta. No penúltimo artigo abordei o fator rentabilidade financeira como eixo da “estabilidade política”. Infelizmente, na política esportiva não é diferente. O governo de Luiz Inácio foi tão continuísta nas práticas desportivas como o foi na política, na mídia, na economia e no lidar com a coisa pública. Da política desportiva apresentada no programa de campanha de 2002 restou pouco ou nada. Os aliados de então que perfilaram no apoio ao ex-sindicalista também já não estão mais.

Cinco anos se passaram e essencialmente nada mudou. No quesito Copa de 2014, modestamente sigo o pensamento do jornalista Juca Kfouri: “Enfim, podemos fazer a Copa, mas não deveríamos fazê-la com quem está no comando da operação”. A presença de 12 governadores de estado na cerimônia da FIFA, fiel acompanhantes da cúpula da CBF, já antecipa a farra em potencial que virá. Isto é, se e caso a sociedade e os distintos setores do movimento popular entrar na onda futeboleira desarmando-se da crítica e das propostas.

Só para variar Lula perdeu mais uma chance de se afirmar como estadista, distribuindo a alegria da realização nacional. Bastava declarar que em todas as cidades onde ocorram jogos da Copa haverá um pesado investimento em saneamento básico, iluminação de vias públicas, transporte coletivo e regularização fundiária urbana. Seria simples e perfeito, tão simples que ninguém faz.

Além da transparência na execução e financiamento das obras, seria de bom grado que cada cidade-sede apresentasse um plano de realizações para atender o conjunto de sua população. Caso contrário, outra vez mais demonstraremos ser um país para o mundo e outro para nós mesmos.

Artigo originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat






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