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Artigos •
Para jornais, revistas e outras mídias •

Roberto Macunaíma Jefferson
Viamão, 16/09/2005

Depois de discursar na Câmara, o ainda deputado federal Roberto Jefferson foi para seu apartamento funcional. De lá, acompanhou a votação que o cassou, quando 313 deputados votaram contra ele e 156 parlamentares o defenderam, desejando ver o advogado fluminense no posto até o final de 2006. Agora acabou. Meses após a crise política ser deflagrada por uma operação da Abin nos Correios, o grande orador vai ter de se contentar em cantar ópera na sala.

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Após o término da sessão, Roberto Jefferson recebe amigos, parentes e correligionários. Confraternizam com champagne o fim de um calvário, talvez aliviado. A maior popularidade veio junto do maior risco. Lula, José Dirceu, Palocci e Genoíno esqueceram um dos preceitos básicos da estratégia. Não se deve encurralar um inimigo tirando dele toda e qualquer possibilidade de saída. O ex-presidente do PTB sabia disto, declarou-se como homem bomba e detonou ao sistema político do país. Queria somente uma saída, alguma cumplicidade. Não teve nada disto, apenas indiferença e distância.

O homem da tropa de choque de Collor de Mello foi muito feliz ao menos em uma comparação. Nos governos anteriores, aos parlamentares do Congresso se adulava com emendas, obras e gordos recursos do orçamento. Os deputados e senadores eram atendidos e devidamente cortejados. Fernando Henrique, por exemplo, foi mestre na arte dos “salamaleques republicanos”. Eventualmente, acusações de compra de votos e mudanças de legendas apareciam na mídia. Mas, era uma medida eventual. O baixo clero se alimentava por dentro, através de emendas com rubricas. No governo de Lula com José Dirceu primeiro-ministro, tudo mudou. O pragmatismo de Dirceu é adepto da real politik. Não é possível governar sem maioria. Considerando o perfil ético dos congressistas, o melhor é comprar a lealdade. Se negocia com dinheiro, que é linguagem universal. A isto, Jefferson deu o apelido de mensalão e classificou aos parlamentares como tropa mercenária. Foi muito feliz e preciso em ambos conceitos.

A contradição de Jefferson passa pela afetividade. Quer carinho de quem o contrata como operador político. Nos surpreende o espanto deste advogado criminalista, acostumado com os bastidores não-republicanos do Planalto, antes muito bem treinado na barra pesada da Baixada Fluminense. Já deveria saber, nenhum contratante nutre sentimentos pelos mercenários. Em Brasília, são peças num jogo real de política crua, disputa direta por interesses, onde oratória e espionagem andam lado a lado. Os momentos de alegria e descontração já aconteceram, nas festas eufóricas organizadas por Jeanne Mary Córner. Agora a festa acabou, sobra apenas ressaca e dor de cabeça.

Em outro tipo de conflito, com batalhas mais francas, onde simplesmente homens e mulheres se matam de frente, mercenários sequer são protegidos pela Convenção de Genebra. Quando aprisionados em campo de batalha, após serem devidamente interrogados (sob tortura, leia-se), são simplesmente fuzilados. Pouco ou nada diferem dos matadores contratados pelo Esquadrão da Morte operando no Rio e no Espírito Santo. Geralmente são presos, fazem acordos e têm suas fugas facilitadas. Na rua, os marginais executam suas vítimas com armas frias. Algumas semanas depois, são eliminados pelos próprios mandantes, para fins de queima de arquivo. Roberto Jefferson, como advogado criminalista, deveria saber disso.

A Legião Estrangeira é a mais famosa unidade de mercenários operando no mundo. Mas, ao contrário dos parlamentares do PTB, PL e PP, estes soldados têm status de franceses em guerras oficiais. Ainda assim, nas operações irregulares, são a bucha de canhão da civilização francesa. Mad Mike Hoare nasceu na Irlanda, e após a 2ª guerra mundial imigrou para a África do Sul. Lá, o veterano coronel que servira nos regimentos Irish London Guards e Chindits, montou uma empresa de mercenários, chamada Commando 5. Orientava seus soldados a não se deixarem capturar. Como tropa mercenária, as multinacionais européias que os contratavam não moveriam um dedo por suas vidas. Se fossem presos, seriam barbaramente torturados e depois com sorte morreriam fuzilados. Em compensação, a comida era boa, os soldos pagos em dia e a pilhagem era livre. O coronel Mike sabia que, mesmo com toda sua experiência, não poderia conter uma rebelião de mercenários.

A Ciência Política brasileira trouxe da História um termo para esta forma de acumulação. Chamou de patrimonialismo a incorporação indevida e privada dos bens públicos. Recentemente, um dos poucos conceitos corretos dos muitos importados da academia estadunidense, explica de forma mais lúcida. Denomina sistema de espólio a apropriação pessoal e partidária dos recursos públicos centralizados pelo Estado. E, como agora a nação percebe, espoliar é uma arte complicada.

Como todo aprendizado, começam fazendo de laboratório a prefeituras médias e secretarias estaduais. Uma vez dominado o mecanismo, o alvo é o governo da União. Para operar neste terreno inóspito, são necessários aliados. A novidade deste governo no modus operandi do espólio sobre a máquina estatal é a ausência de aliança. As velhas oligarquias e os notáveis do tucanato não são esnobes entre os iguais e sempre compartilharam lucros, dividendos, e emendas. Pagavam o preço justo pelos votos necessários e faziam as devidas cerimônias uns com os outros. A nova tropa que chegou em 2003 buscou ser mais direta. Uma vez que a classe política brasileira é considerada por eles como corrupta, e considerando ser impossível governar sem maioria, compra-se esta maioria e não se fala mais nisso. Quando a fonte secou, a tropa auxiliar contratada rebelou-se. Primeiro, elegendo a Severino. Depois, sentindo-se abandonado, o homem a quem o presidente Lula disse que daria um cheque em branco acendeu o pavio.

No dia 14 de setembro o ex-homem de confiança foi cassado por seus pares. Estes, constrangidos e temerosos, sequer aplaudiram o próprio ato. A direita diz que não houve aplausos por que Roberto Jefferson foi um herói. Denunciara o maior esquema de corrupção já visto na república e portanto merece admiração. Se Jefferson é herói, é mais um Macunaíma, o herói sem caráter de um povo sem orgulho e contraditório por natureza. Quanto ao caráter, estamos de acordo. Afirmar que o povo brasileiro merece os dirigentes que tem, nada pode ser mais ingênuo e injusto.

Desta classe política de mercenários e pragmáticos, pouco ou nada se pode esperar. Neste momento de crise do sistema político brasileiro, vale lembrar as palavras de um vecino hermano do Rio Grande, vivendo e peleando um pouco mais ao sul, lá na Banda Oriental del Uruguay. Com a sabedoria adquirida na dura lida de lança, vento chumbo e coxilha, José Artigas, general de homens livres, dizia nas proclamas a seu povo:

“Nada podemos esperar a não ser de nós mesmos!”

Originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat





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