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170 anos da Revolução Farroupilha
Viamão/RS 24/09/2005

Na terça-feira, dia 20 de setembro, a Revolução Farroupilha cumpriu 170 anos. Os festejos tiveram lugar em todo o estado, com maior destaque para o acampamento do Parque da Harmonia, centro de Porto Alegre. Evento temático, folclórico, turístico e histórico, move paixão e multidão de uma parte do Brasil que com toda certeza, merece a fama e o respeito conquistados. Em um mundo contaminado pelos bens simbólicos globalizados, cantar e louvar a terra passa a ser um manifesto político. No país em que vivemos, com crise de valores e classe política corrupta, o louvor da própria história, somado com carga de valores éticos e saudáveis, é base de regeneração para muita gente. Mas, como tudo na sociedade de classe, está dividida e peleada. Tanto pode salvar a oligarquia gaúcha como deve apontar um caminho para as lutas populares daqui. É deste aspecto que trata o artigo.

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Voltando as comemorações, os números são impressionantes. Mais de 1 milhão de pessoas participaram, apenas na capital, ao longo dos dias da Semana Farroupilha. No desfile oficial e temático, co-organizado pelo governo do estado e o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), o público foi de 100.000 pessoas e os cavalarianos chegaram a 5.000. Isto, sem falar no desfile das forças da ordem, encabeçadas pela Brigada Militar (polícia-militar gaúcha). Esta última, por ironia da história, foi inimiga dos revolucionários farrapos. Criada em 1836 como força auxiliar das tropas imperiais (caramurus), lutou ao lado de Caxias e Osório contra a independência do Rio Grande. Hoje, desfila ao lado de guascas pilchados com lenços vermelhos atados ao pescoço. Como se vê, a luta pela afirmação simbólica está vencida perante a cultura de massas do centro do país. É a peleia interna o que falta encarar. Nesta arena, a oligarquia local e o pensamento conservador vencem há décadas.

Longe de ser um devaneio intelectual, este debate é sentido, embora não seja ventilado. Basta conversar com algumas pessoas organizadoras de CTGs (Centro de Tradições Gaúchas), algumas com mais de 30 anos de lida, para notar esta inquietude. A identidade está ganha, mas e agora? A última vez que o Rio Grande se manifestou, de peito aberto, puxando uma parte do povo gaúcho para uma luta comum, foi na Campanha da Legalidade e nos preparativos para resistir ao golpe de 1964. Nos anos seguintes, o pensamento conservador teve um terreno fértil e vazio a atuar, defendeu e moldando à vontade uma forma de Tradição ao seu discurso. Juízes, advogados, grandes médicos, empresários, generais de exército e coronéis da Brigada abriram a cancha para uma forma de Tradicionalismo. Embora importante, apenas a estética não define uma identidade.

Ao final da década de ’70, com o resgate dos bens simbólicos da cultura missioneira e fronteiriça (nativista), uma outra carga ideológica é somada a esta estética. Se afirmam lealdades, a fronteira, aos paises hermanos (Uruguai, Paraguai e Argentina) e a primeira república. A segunda república da pampa foi a Rio-Grandense (1835-1845), a primeira foi a Guarani Missioneira (1607-1756). Simbolizados nas guitarras e gaitas de gente como Noel Guarany, Cenair Maicá, Pedro Ortaça, e Jorge Guedes entre outros cantadores, alimentados nos versos xucros de diversos poetas, como Jayme Caetano e João Sampaio , valores e ideologia populares legitimam-se como tradicionais. Trinta anos depois, a pesquisa histórica dos folcloristas fundadores do MTG e a cultura popular dos artistas missioneiros co-habita o mesmo espaço. Mas, identidades à parte, as contradições continuam, e bem vivas.

Debates centrais necessitam ser feitos. Apenas para citar um entre tantos, o significado político do cultuado gauchismo. Não falamos de simpósios e seminários acadêmicos, mas sim de um debate vivo sobre algo que reflete um sentimento popular do Rio Grande. Apenas nas instâncias, entidades e afiliados do MTG circulam mais de 1 milhão de pessoas. Sem contar os homens e mulheres da migração gaúcha, que cultuam sua identidade em galpões além fronteiras. Uma primeira observação nos trás o óbvio. O que sucede no imaginário gaúcho, não se trata de bairrismo mas sim de identidade. Acirrados os ânimos, especialmente se há uma causa justa e não simples chauvinismo político, o governo federal ou da União passa a ser visto como governo central. Assim já ocorreu diversas vezes e pode voltar a passar. Basta a motivação certa.

Resta saber se a luta política no interior da identidade gaúcha vai mudar ou não de hegemonia. Reunidos no mito fundador, estão heróis e traidores, variando o ponto de vista. A Revolução Farroupilha foi mais uma entre tantas revoluções traídas. Ponche Verde, quando foi assinado acordo de paz com o Império Luso-brasileiro, consumou a traição. Conforme já dissemos, a batalha simbólica foi ganha. Falta a ideológica. Estamos falando de identidade popular ou chauvinismo regional? O Rio Grande louva a traidores escravagistas como Vicente da Fontoura, Onofre, Bento Manoel e Canabarro; ou a republicanos abolicionistas como Antônio de Souza Netto, Teixeira Nunes, Giuseppe e Anita Garibaldi? O 20 de setembro afirma os estancieiros que peleavam pelo preço do charque ou aos lanceiros negros e a cavalaria charrua? Trazendo para os dias atuais, louva-se aos grupos econômicos e latifundiários que mamam nas tetas do estado ou defende-se aos mais de 1 milhão de gaúchos desempregados?

Em 2005, completam-se 170 anos da Revolução Farroupilha. Ano que vem, 250 anos da República Guarani Missioneira. Talvez a resposta para esta dúvida histórica e política já nos foi dada pelo líder guarani Sepé Tiarajú. Os jesuítas tentaram convencer ao Conselho dos 30 Povos das Missões a se renderem a Portugal e Espanha. Em nome do Conselho, Tiarajú respondeu de forma simples e rude:

“ Não se pode servir a dois senhores! “

artigo originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat





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