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Artigos •
Para jornais, revistas e outras mídias •

Chávez no lugar de Lula


A hegemonia no bloco, disputada entre apertos de mão, recursos naturais e financiamentos Sul-Sur.

A reunião da cúpula do Mercosul, realizada em Montevidéu na última sexta-feira dia 9 de dezembro, culminou na entrada da Venezuela como membro pleno do bloco econômico. Como todos sabemos, este país produtor de petróleo é governado pelo tenente-coronel pára-quedista Hugo Chávez, seguidas vezes eleito e reeleito desde o ano de 1998. Distintas reações foram manifestadas na mídia brasileira, entre escolas opostas de “especialistas”, operadores políticos e empresários. Com este artigo, pretendemos aportar uma visão teórica de fundo quase sempre relegada a segundo plano.

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Enquanto Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru ainda estão sob a condição de membro associado, o Estado venezuelano, torna-se pleno ultrapassando outros países há mais tempo na fila. O bloco econômico contará a partir de 2007 com parlamento próprio. Tanto poderá ser uma caricatura figurativa, como o Parlatino ou o Parlamento Amazônico, ou uma instância mais resolutiva. Para tanto, tem gravitação central o grau de interdependência a ser desenvolvido por estes países. No momento, o grau real é de dependência, sendo que o Brasil é o mais importante parceiro comercial de Argentina, Uruguai e Paraguai.

Uma unidade política não é apenas fruto de integração econômica. Ainda falando de interdependência, o grau de envolvimento e resolução ideológica, implicam e muito no seu desenvolvimento. Conforme afirmamos no artigo último, no mundo real das forças sociais é impossível separar em planos absolutos o nível econômico, político e ideológico. Ou seja, sem uma base material produtiva, instâncias de resolução comuns e mútuo reconhecimento entre as partes, este Mercosul segue estagnado. Isto, ao menos nos planos ideais dos mercados comuns.

Na urgência das economias sem muita liquidez, os petrobolívares de Chávez já são a tábua de salvação dos governos argentinos e uruguaios. A Argentina conta com somas altas e importantes vindas da Venezuela. Kirchner está em franca superação de uma etapa histórica, iniciada com a desindustrialização promovida pelos militares, a inflação assombrosa de Alfonsín e o saque aos bens públicos promovidos por Menem e companhia. Crescendo mais que o dobro do Brasil no último ano, o país austral precisa de alto volume de empréstimos a baixo custo. Neste momento, Chávez é a escora do político que fora governador da província de Santa Cruz e em cujo primeiro escalão ocupam postos-chave vários ex-Montoneros.

No Uruguai, o sufoco é tamanho que até um jornal notoriamente ligado aos partidos tradicionais como El País de Montevideo está comemorando abertamente. Cadeias produtivas quase falidas como a do cimento e a do álcool serão refinanciadas pelo dinheiro venezuelano. O perfil do governo de Tabaré Vazquez é o mais parecido com o de Lula e sua base aliada. O presidente eleito tem como homem forte um senador da direita da Frente Ampla (FA), Danilo Astori, de perfil e prática política muito assemelhada a de Antônio Palocci. Dando provas de “maturidade”, Astori aplica o receituário do FMI e governa de mãos dadas com a Banca. Mesmo assim, estão todos contentíssimos ao saberem que agora terão um parceiro forte, dentro de um marco jurídico comum.

No presente momento, o Mercosul caminha com a morosidade de um burocrata. Não alcança ser um mercado comum, nem uma união aduaneira e nem sequer uma zona de livre comércio. Nos primeiros anos de implantação, ainda que fosse uma iniciativa pouco ou nada sentida na economia brasileira, o Mercosul inicial servira para terminar de liquidar cadeias produtivas e setores industriais inteiros do Uruguai e da Argentina. Os produtos brasileiros não somente inundaram os mercados internos desses países, como parte dos principais capitais argentinos e uruguaios, tal como a gigante Bunge, que transferiu suas plantas para o Brasil.

Foi justo neste momento que houve a necessidade do Brasil impor-se como parceiro forte do bloco. Não vamos entrar aqui nos meandros do estilo do Itamaraty nem tampouco no histórico sub-imperialismo nacional para com os países hermanos. Mas, a situação é simples. Na segunda metade da década de ’90, o Brasil não exerceu uma liderança de forma a auxiliar os parceiros do bloco, Paraguai incluído. Manteve sim, sua condição de parceiro hegemônico e com estilo de real politik. Agora que Chávez acena com financiamento direto e a custo quase zero, o governo Lula vê escorrer entre as mãos o posto de país líder da América Latina.

Para sermos justos, estas políticas não foram iniciadas no governo de Luiz Inácio, e sim na era FHC. Tanto foi assim, que no começo de seu mandato, ainda em 2003, Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia agiam como árbitros de contendas no continente. De uma forma discreta e bastante “tucana”, o governo brasileiro fez o que pode para manter o presidente boliviano Gonzalo Sánchez de Lozada no poder. Não podendo segurar “Goni” em La Paz, Brasília imediatamente reconheceu Carlos Mesa, presidente eleito no colégio eleitoral. De uma forma também discreta e eficiente, Lula procurou cacifar a si e ao seu mandato como árbitros de contenção entre os intentos de golpe de Estado promovidos por Bush Jr. contra Chávez. Simultaneamente, tratava-se a ALCA como fato consumado, reunindo-se as delegações de Brasil e Estados Unidos em separado e com agenda própria.

A posição “madura” e subserviente de Lula foi sendo colocada pouco a pouco contra a parede. De um lado, a função de bombeiro da América Latina pendeu para um homem de confiança de George W. Bush, seu velho amigo Vicente Fox, presidente do México. Por outro, a posição de líder das relações latino-americanas passou a Chávez. Isto porque este tem mais agressividade política assim como mais dinheiro líquido em caixa. E como bem se sabe, na política internacional, o que vale mesmo são os recursos econômicos e o poderio bélico.

Tanto isto é fato, que o pequeno Paraguai cede território nacional para os EUA instalarem bases militares próprias. Em troca, o governo de Bush Jr. aporta recursos financeiros de baixo custo e volume relativamente elevado para o porte daquele país. Assim, o país guarani estaria hoje jogando na função de peão dos Estados Unidos, sendo o México seu bispo.

Esta situação também oferece uma comparação interessante. Tanto Chávez como Lula tem problemas internos seríssimos. Na aparência, a retórica é semelhante e haveria alguma aproximação entre ambos. Pura ilusão. Se os setores sociais que dão suporte ao governo Lula, a começar pela base aliada e aos bancos, fossem venezuelanos, estariam promovendo boicote eleitoral e arrecadando fundos para outra tentativa de golpe. Já do lado venezuelano, é impossível não associar o estilo de Cisneros, o magnata das comunicações naquele país, com a forma de proceder de boa parte da mídia brasileira. Talvez o cidadão Kane da Venezuela seja mais ideológico, ou ao menos mais franco e direto.

Voltando a política externa brasileira, sem dúvida o momento é grave. O governo Lula vê o Brasil perder tanto a condição de liderança do Mercosul, como a capacidade de se contrapor aos EUA. Até a figura de bombeiro foi-lhe tomada pelo presidente mexicano.

Alguém deveria perguntar ao presidente se ele viajou tanto para conseguir “tudo” isso?!

Artigo originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat






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