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ISSN 0033-1983
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Artigos •
Para jornais, revistas e outras mídias •

O fator aborto na campanha presidencial

profusaosubjetiva

Os poderes de veto midiático de conservadores e carismáticos católicos, somados aos sem números de cultos-seitas neopentecostais pôs em pauta um tema de saúde pública como se de ordem moral fosse. Se há alguma vencedora em 2010, esta é a capacidade de fabricar temas e polêmicas, impulsionadas por quem se retroalimenta da ignorância e desespero alheios.

15 de outubro de 2010, da Vila Setembrina de Lanceiros Negros assassinados por latifundiários na covardia de Porongos, Bruno Lima Rocha

Este país nunca pára de surpreender, para pior. Apesar de termos índices de violência altíssimos, o ato da soberania cidadã através do voto se vê sempre coagido por um conjunto de agentes com poderes de veto. Estes, nunca hesitam em exercer tal poder, por mais absurdo que seus enunciados pareçam. Tal é o caso dos neopentecostais e dos católicos carismáticos ou conservadores no quesito legalização ou descriminalização do aborto. Desde o começo o termo e o tema foram mal empregados, jogando na confusão e nas manobras diversionistas alimentadas mediante a galvanização dos preconceitos embutidos no voto pobre e reacionário.

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Para começar, é preciso dizer que não conheço ninguém “a favor do aborto”. As pessoas lúcidas defendem os direitos reprodutivos e o controle da mulher sobre seu próprio corpo. Ninguém em sã consciência é um entusiasta do ato abortivo. Médico algum que cumpra o código de ética do oficio realiza um procedimento assim com entusiasmo. A legalização do aborto tampouco implica na apologia da prática. Qualquer brasileiro adulto conhece um ou mais episódios de abortos arriscados ou em clínicas ilegais atingindo mulheres em distintas idades. É um problema de saúde pública e não de ordem moral. Ainda mais em se tratando de um país com costumes sexuais liberalizados como o nosso.

Por isso considero tratar-se de hipocrisia a pregação conservadora contra a legalização do aborto enquanto a linguagem publicitária e os programas de TV aberta tornam-se cada vez mais sexualmente apelativos. É um absurdo preocupar-nos com o direito reprodutivo como um tabu e não nos escandalizarmos, enquanto sociedade, com a erotização da infância e da juventude e a conseqüente puberdade e gravidez precoce disseminada por vilas e periferias do Brasil. Quanto a isto os pregadores não se manifestam, talvez porque a desestrutura das famílias humildes retroalimenta a fé como um mercado de expectativas desesperadoras. Obviamente esta relação mercadológica dá-se mediante significativa remuneração oriunda em sua maioria de famílias de baixa renda.

Mesmo sabendo ser o tema um tabu eleitoral, não posso evitar posicionar-me. Particularmente não posso crer no discurso de Dilma Rousseff (PT) e também de José Serra (PSDB) no assunto. São dois economistas e ex-ministros de Estado, ambos com formação científica e experiência na aplicação de políticas públicas, incluindo as de saúde. Ao se pronunciarem “contra o aborto e a favor da vida”, estão simplesmente atendendo seus marqueteiros e “jogando para a platéia”.

Por fim, confesso que a virulência do tema me assusta, em especial pela expectativa de médio prazo. Estaremos nós brasileiros, caminhando para disputas políticas como a dos EUA, pré-determinadas por grupos fundamentalistas cristãos? Qual será o próximo passo dos agentes político-religiosos com capacidades e poderes de veto? Vão fazer campanha pelo criacionismo como fator explicativo do surgimento do universo? Depois da demarcação de espaço e a imposição da pauta na campanha presidencial, daqui para frente abriu-se a porteira para o pior do agendamento reacionário.

Este artigo foi originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat






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