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Sutileza e Jogo Real
Viamão/RS, 09/09/2005

Ao estourar o escândalo do mensalão, a primeira reação de muita gente foi de incredulidade. Mesmo alguém que fosse contrário ao PT, não poderia supor este tipo de prática política tão disseminada. A imagem que se tinha do estilo de trabalho do Partido dos Trabalhadores de fato era outra. Após uma avalanche de denúncias, as quais boa parte já vem acompanhadas de provas factuais, esta imagem está em queda livre.

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Gradualmente, uma sigla que por mais de duas décadas carregou consigo uma nova proposta de fazer política por dentro das regras do jogo, vai se assemelhando aos antigos jogadores. Não foi desta vez que um partido com origem de esquerda chegou ao poder de forma pacífica e se manteve intacto. Uma possível explicação se dá observando os processos políticos que ocorrem na interna de uma estrutura e sua relação com a sociedade de classes. O que houve com o PT não é novidade na história recente da América Latina. Grandes partidos, embora não tão grandes como o de Lula e Dirceu, se auto-destruíram após poucos anos de algum sucesso. Através de certas “sutilezas” vemos como se forma este destino manifesto.

A política brasileira é muito criativa em neologismos. As siglas se “contaminam”, os políticos são “blindados”, fatos singulares “sinalizam” sentidos diversos e por aí vai. Uma palavra está de moda desde o início da década de ’90 e vale a pena observá-la com cuidado. Trata-se da “flexibilização”. Tudo pode ser “flexibilizado”, as leis trabalhistas, os monopólios estatais, as funções de Estado e qualquer coisa que exista no Brasil e impeça ou atrapalhe a “livre circulação” do capital volátil. Um dos fatores que sempre atrapalharam o capital financeiro foi a possibilidade de um governo mais à esquerda ganhar na urna e taxar sua “circulação” especulativa. Antes de deslanchar a campanha de 2002, ainda havia alguma esperança que o PT tomaria esta medida. Fechando aliança com o PL, proclamando da Carta ao Povo Brasileiro e fazendo acordo com a banca em julho de 2002, a esperança se foi. Seguindo o jargão do neologismo político brasileiro, o PT já havia por demais “flexibilizado” seu discurso.

Ainda na semântica política, um termo empregado nas bandas do sul pode ajudar a explicar isto. É costume na Argentina, Uruguai e mesmo no Rio Grande, dizer que o fulano ou o partido já “estão com discurso muito lavado”. “Lavado” como erva mate velha e quase sem gosto, já seca na cuia. Em termos analíticos, podemos dizer que uma organização tem o discurso “lavado” quando abandonar a seu objetivo estratégico. Ou seja, deixa de ter meta de longo prazo.

Ao fazer política, o conjunto de organizações e partidos estabelecem um jogo de metas e posições. Se são organizações eleitorais, existem a partir de bases sociais e ocupam uma faixa do eleitorado. Um dilema político clássico é fazer política para suas bases e ao mesmo tempo aumentar o coeficiente eleitoral. Na maioria das vezes, as direções partidárias consideram tal feito impossível e optam pelas urnas. Para tanto, começam a “lavar” seu discurso, isto como reflexo da “flexibilização” de seu campo de alianças e o recuo nas formas originais de organização interna. Tudo isto e muito mais vem ocorrendo no seio do PT, há no mínimo doze anos.

A explicação de fundo é relativamente simples. Na ausência de estratégia, tudo é tática. A tática é o conjunto de manobras para um momento, algo conjuntural, e portanto passageiro. A projeção de poder, dentro das regras formais (eleitorais) e informais (mensalão e afins) do jogo real, se não vier acompanhada de um programa correspondente, é apenas uma manobra. A pergunta é feita: “quais alianças e que tipo de movimentos são necessários para vencer uma eleição?” Tudo o que for impeditivo para isto passa a ser abolido. Se for algo que está nas bases de princípio de um partido, então ao invés de abolido, é “relativizado”. Para justificar as medidas, aí sim o discurso é antigo. “As condições não estão dadas companheiro”. Ou então algo mais direto e sem pudores: “Tudo isto que antes defendíamos não passa de porra-louquice!”.

No jogo de posições da política brasileira, a prática política “flexibilizada” e justificada por discursos “lavados” não podia dar em outra coisa. Um partido que se diga socialista e “lave seu discurso”, posiciona-se como social-democrata. Uma sigla social-democrata, que nasce dentro de um partido de frente única, “flexibiliza” o programa e se torna social-liberal. Abandonado seu objetivo estratégico, todas as posições vão sendo saltadas de forma acelerada, movendo sempre uma ou mais casas à direita. Restava para esta instituição ser o rescaldo da moral republicana dentro de uma sociedade oligárquica. Mas, para ganhar o pleito nacional, teria de “sinalizar” para as forças econômicas e aos poderes de fato que estavam mudando. Feito o pacto, contemplados os interesses de fundo do capital financeiro, do latifúndio, resguardados os investimentos para os grandes grupos empresariais, aliados com uma parte da comprável da direita, pouca coisa restava. Faltava o acordo político, alcançar a maioria no Congresso. A partir daí, deu no que deu e não há necessidade de repetir episódios que todos já conhecemos.

Uma conclusão lógica é necessária. Na política real, o eufemismo das palavras esconde a dureza das ações concretas. Um discurso “lavado” reflete o abandono de uma posição. Na ausência de estratégia, o que seria um recuo tático, torna-se uma liquidação completa.

Artigo originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat






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