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Artigos •
Para jornais, revistas e outras mídias •

Helen Thomas: quando se paga pela língua enquanto outros nunca reconhecem aquilo que fazem

formaementis

Helen Thomas, a decana do jornalismo político estadunidense falou besteira e sofreu a ira dos justos e dos nada justos

4a, dia 09 de junho de 2010, Bruno Lima Rocha (cientista político)

Neste artigo, apresento o debate e as conseqüências na indústria das mídias derivadas da cobertura e da versão do ataque israelense a frota de seis barcos de ajuda humanitária que saíram de Ancara, na Turquia e tinham como destino a Faixa de Gaza, sitiada e bloqueada por Israel. Temos casos típicos de choque de versões, trocas de valorações e a recriação de hiper-realidades pelos líderes dos oligopólios mundiais, propositadamente confundindo o anti-semitismo condenável com a ação anti-imperialista (e no caso, anti-sionista). Rogo a serenidade dos leitores para podermos estabelecer um ponto razoável de debate.

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O ataque de Israel, o general réu confesso e os corpos ao mar

Para começar, cabe um primeiro comentário do uso de imagens como provas inconclusas. Tanto os tripulantes filmaram como os militares israelenses também fizeram registros. Pela internet circulam centenas de vídeos, alguns de boa definição, tentando construir a legitimidade dos fatos e seus mandantes e operadores-chave. A panacéia midiática se dá porque os ativistas gravaram, as forças israelenses também, assim como TVs da Turquia, de Israel e a Al-Jazeera, emissora árabe líder no noticiário internacional da região. Versão conclusiva até agora, nenhuma.

Mesmo com quatro registros formais televisivos ou de imagens, o Estado de Israel insiste na caracterização do ataque como sendo preventivo. Segundo os Acordos de Oslo (assinados em 1993 somente com a anuência da Fatah como força política palestina), quando se acertam as condições de existência do pré-Estado Palestino (Autoridade Nacional Palestina, ANP), as águas territoriais de Gaza (37 kms distantes da costa mediterrânea) estão sob controle da força naval de Israel. Óbvio que a legitimidade desse ataque “defensivo” seria alegável caso a frota turca encontrava-se neste perímetro. E, por macabra ironia dessa história de luta sem fim, no pronunciamento do porta-voz das Forças de Defesa de Israel (IDF), general Avi Benayahu, o militar afirmou que seus comandos anfíbios interceptaram a frota entre 4h30 e 5h da manhã, em alto-mar, há uma distância variável de 70 a 80 milhas náuticas (equivalendo a 130 a 150 km da costa; ver o link da matéria.  E, mesmo se pronunciando como réu confesso diante de qualquer tribunal internacional (por atacar navios de bandeira de nação amistosa, como a Turquia) em águas não-territoriais, o Estado sionista se nega a reconhecer o ataque como agressão (diz ser “preventivo”) e tampouco admite o número real de mortos (mais da metade teria sido atirado ao mar).

O ataque dos fuzileiros navais israelenses interceptou embarcações de bandeira turca, tomando os conveses e entrando em luta corporal contra os mais de 750 ativistas organizados pela ONG Free Gaza (boa parte de voluntários não-árabes e não-islâmicos) e levando a bordo mais de 10 mil toneladas de gêneros de auxílio humanitário. A ação ocorreu na madrugada de 31 de maio, uma segunda feira, pautando o noticiário de todo o mundo a respeito do tema. O saldo foi de mais de 300 presos (alguns deportados), e um número não reconhecido de assassinados pelas forças sionistas. O Estado de Israel reconhece 9 mortes enquanto os ativistas pró-Palestina afirmaram serem o dobro de baixas ou mais. A versão de uma TV de Israel é de 19 mortos. Segundo os tripulantes dos navios que levavam alimentos e gêneros de primeira necessidade, os fuzileiros israelenses atiraram corpos ao mar, não deixando filmar a ação que descaracterizava os assassinatos não contabilizados.

A origem do cerco a Gaza e o poderio não-árabe na luta pela Causa Palestina

Vale lembrar que o bloqueio e isolamento do Estado sionista a Gaza deriva do início da guerra civil palestina, quando o Hamas, vitorioso nas eleições de janeiro de 2006, recebera um golpe da Fatah (partido majoritário e eleito por Israel e ONU como interlocutor válido) e contra-atacara tomando militarmente a Faixa de Gaza, ficando o partido de Mahmoud Abbas (da mesma organização de Yasser Arafat) como governo de fato (embora golpista) na Cisjordânia. É importante ressaltar que a convivência com a força sunita integrista jamais fora tranqüila e nem pacífica, mas em sendo minoritário, o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) ainda era controlável, do ponto de vista dos negociadores de Oslo. Uma vez legitimado e ocupando postos-chave de um quase-Estado sem recursos, a estrutura social-religiosa do integrismo seria avassaladora. Este é um provável cálculo político condenável do ponto de vista democrático, embora perfeitamente exeqüível por operadores pautados pelo pragmatismo e por condutas não-republicanas (como é conhecida a Fatah).

Do isolamento de Gaza através da disputa interna entre palestinos, o Hamas partiu para o conflito de tipo escaramuças de fronteira e ataque a alvos indiscriminados. Ou seja, contra os bombardeios de aviões Kfir responderam com morteiros terra-terra. A escalada do conflito não tardou para resultar em guerra de re-ocupação. Em janeiro de 2009, assim como ocorrera em julho de 2006 no sul do Líbano controlado pelo Hizballah (força integrista político-militar xiita), as IDF promovem um bombardeio sistemático, isolam a Faixa de Gaza e depois ocupam militarmente a área. Encontram resistência, não chegam a tomar todo o terreno e nem conseguem destruir a infra-estrutura do Hamas. Esta força integrista sunita palestina, assim como ocorreu com seu congênere xiita no Sul do Líbano, não foi destruída como forma de organização social no território. Tomando esse dado como concreto e absoluto, a alta administração já sob governo de Benjamin Netanyahu (de um enfraquecido Likud, posicionando-se ainda mais à direita), resolve impor o bloqueio absoluto, transformando a área em um gigantesco gueto. Daí vem à estratégia do estrangulamento paulatino, promovendo bloqueio de trânsito de pessoas e víveres, impossibilitando uma forma de governo por parte do Hamas.

Mas, o problema de exercer algum poder constituído não fica apena para ser solucionado pelo Hamas. Ao decretar o bloqueio à Gaza, o Estado sionista coloca em cheque o que restou de unidade entre os países formadores da Liga Árabe. É visível o abandono do pólo de poder pelos filhos descendentes de Sem e Ismail. Dois países islâmicos não-árabes hoje disputam a centralidade da região ampliada (Oriente Médio e Golfo Pérsico). São eles, Turquia (de onde saíram os navios, que é parte da OTAN e já se posicionara de forma independente como ponta do acordo nuclear do Irã intermediado pelo Brasil) e o próprio Estado persa de regime integrista xiita, que alimenta a resistência do Hizballah e de outras forças integristas, xiitas e sunitas, tal como é o caso do Hamas.

Helen Thomas e quando se fala sem pensar o que nunca se deve dizer

A abordagem que tracei acima é quase consensual, seria algo de almanaque, bastando recordar cifras, datas e acontecimentos. Mas, de tão óbvio, não aparece (a não ser na chamada mídia alternativa) e quando ocorre na Mídia Corporativa (uma das modalidades de corporations), resulta em constrangimento e demissão. No filme Leões e Cordeiros (Lions for Lambs, dirigido por Robert Redford, 2007), a atriz Meryl Streep interpreta uma veterana jornalista que cansada das meias verdades e dos discursos de encomenda (matérias plantadas pelas infindáveis sub-comissões de defesa e inteligência do Congresso dos EUA), entra em crise e discute com o editor de um suposto jornal (seria o legendário Washington Post?; eu entendo que sim apesar de ainda ser seu leitor). O editor do veículo lhe diz com todas as letras que as questões de segurança nacional são irretocáveis e a reação de uma crítica sua seria absurda, desproporcional a capacidade da imprensa (como “4º Poder”) defender-se. Por fim, lhe chama às contas com o próprio passado, e pede que reconsidere publicar ou rebelar-se contra as informações “exclusivas” que um jovem senador republicano (interpretado por Tom Cruise) a teria transmitido na base do fontismo (off the Record). Este personagem por sinal é um ex-operador de forças especiais dos EUA e está participando de operações secretas nas montanhas do Afeganistão, plantando comandos isolados, transitando por terreno inóspito e partindo de hipóteses de conflito absurda (uma possível aliança wahabita afegã com o governo integrista xiita do Irã!!!). Meryl Streep se cala, mas ao contrário dela, outra veterana repórter, não ficcional, mas real, existente. Helen Thomas, a mais antiga repórter na cobertura da Casa Branca, se afasta do trabalho por pressões do maior lobby do mundo.

O lobby a que me refiro é o conhecidíssimo AIPAC (American Israel Public Affairs Committee – Comitê de Relações Públicas Israelense-Americano). Este “partido” semi-formal, tem mais de 7000 funcionários a tempo completo, bancou (impôs) a indicação de Hillary Clinton para secretária de Estado (equivalente no Brasil a ministro das Relações Exteriores) e opera como braço semi-institucional da força política do sionismo de direita. Seu braço operacional mais midiático e agressivo é a ADL (Anti Defamation League – Liga Anti Defamação) tendo como um de seus alvos prediletos ao anarquista judeu (militante, lingüista e professor livre-docente do MIT) Noam Chomsky. Nesta semana o alvo conjunto foi outro, atingindo a lenda do jornalismo, por sinal de origem árabe-estadunidense.

Helen Thomas, 89 anos, é a decana do jornalismo político dos EUA, trabalhando ainda hoje para a outrora todo-poderosa embora ainda influente Hearst News Service (seu fundador, William Randolph Hearst, foi o personagem que inspirou Orson Welles no filme Cidadão Kane). Thomas dera uma entrevista para um portal sionista de direita (de pouca envergadura, o RabbiLIVE.com – com chamada de capa) afirmando que os israelenses deveriam deixar a Palestina e voltar para casa. O tema gerou controvérsias e logo a veterana repórter, com quase cinco décadas à frente do Escritório Central da United Press International (UPI), teve que se retratar publicamente e cancelar compromissos e palestras em escola de segundo grau! (vejam o link no Washington Post). 

Vejamos o link do vídeo editorializado, postado no Youtube e reparemos com atenção na força da internet: 1.221.639 pessoas assistiram-no. A postagem no portal de audiovisual é do dia 03 de junho de 2010 (e eu o vi pela primeira vez na noite de 07 de junho, um dia antes de começar a fazer este texto), vindo a atingir uma escalada viral de absurdas proporções. O tempo de duração da gravação é de 1’03’’ (um minuto e três segundos) e este registro pleno de informalidade, mas contendo palavras contundentes e estúpidas de uma pessoa enraivecida, resulta no encerramento da carreira de quem acompanhara todas as administrações na Casa Branca desde a posse de John F. Kennedy em 1960.

A debandada para se desmarcar de Helen Thomas foi imediata. Ela perdeu o contrato (cancelado de forma unilateral) com o escritório de Assessoria de Imprensa que lhe prestava serviços (Nine Speakers) e comunica a sua aposentadoria antecipada – dado que a Hearst Corporation não vai arriscar, ou não deve arriscar seus contratos e anunciantes diante da pressão contra a sua estrela, autora de uma declaração anti-sionista. Segunda, dia 07 de junho, foi o fim da carreira profissional da mais antiga correspondente política na Casa Branca em atividade. Mas, o bombardeio continua (via Fox News e centenas de sites pró-republicanos, democratas conservadores, sionistas de direita e etc.).

O paradoxo geral é que no dia 05 de agosto de 2009, Barack Obama e Helen Thomas “comemoraram” juntos seu aniversário. Eis o vídeo. A repórter sempre foi tida como ousada e inconveniente (como, aliás, deveria ser todo jornalista). A vingança nessa área também foi imediata (veja o link no Democracy Now, partindo daqueles a quem essa senhora incomodou por anos a fio. Ari Fleischer, ex-secretário de Imprensa da Casa Branca durante o “magnífico” governo de George Bush Jr. recomendou que seu então empregador, Hearts Newspapers, executasse a sua demissão sumária. Já o ex-secretário da mesma função no governo de Bill Clinton, pediu a seus correligionários democratas que suspendessem as credenciais de Thomas na sede do Executivo do Império. Fim de história.

Apontando conclusões tenebrosas

O que espanta em todo esse imbróglio é a diferença e desproporção nas reações. O Estado de Israel mata a 9 (ou 19) homens, após entrar em luta corporal com eles Tomavam de assalto uma flotilha de seis navios de passageiros e carga, sem armas letais e em águas que não pertenciam ao seu país. Portanto, isso é crime de pirataria. Os assassinatos são ainda mais inexplicáveis. Não é crível que militares de forças especiais israelenses não saibam luta corpo a corpo, por mais que estejam desabituados a essa modalidade de combate. Se havia chance de ferir de forma não letal, não se usou essa capacidade, matando como exemplo. De fato, após os assassinatos, nenhum outro navio tentou furar o bloqueio, não passando até o presente momento de prudentes escaramuças sem risco de conflito. Esses são os fatos contundentes e irrefutáveis.

Já Helen Thomas, por mais capaz que seja, deveria ser condenada por suas palavras. Não creio que a mesma pense no que disse. O argumento chauvinista saído de bocas ilustradas, em geral, é fruto de ira somada com descontrole momentâneo. Não se pode querer mandar de volta as vítimas e descendentes do Holocausto. Ao mesmo tempo, não se pode perdoá-los por tudo o que fazem, alegando para o Ocidente terem esse direito porque os “árabes” querem atirá-los ao mar. A decana do jornalismo político estadunidense deu ainda mais munição para a direita sionista. Esse setor político israelense já tem armas de todos os tipos, de nucleares a midiáticas. É hoje a direita mais poderosa do mundo, considerando todas as suas versões: a direita chauvinista (do Likud, de seu racha de centro o Kadima, e os “falcões” da IDF vinculados ao Trabalhismo), integrista (com os ultra-ortodoxos do Shas) e supremacista (com o partido de Avigdor Lieberman, Israel Beitenu).

Não há argumento e ira no mundo que justifique qualquer comentário (por irônico que seja) relativizando o peso do Holocausto. Assim como não há nenhuma forma de desculpa para o Estado de Israel não se retirar completamente dos Territórios Ocupados em 1967, concedendo para o povo palestino a plenitude de sua auto-determinação política, jurídica, econômica, militar, de recursos naturais e de sua população. Enquanto isso não ocorrer, mais barcos navegarão para Gaza e comboios por terra desafiarão as fronteiras no deserto.

Este artigo foi originalmente publicado no portal do Instituto Humanitas Unisinos (IHU)






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